NR-1: capacitação de lideranças é o maior desafio para aplicação da norma, diz levantamento
RESUMO | A atualização da NR-1 passou a exigir que as empresas gerenciem os riscos psicossociais, e a capacitação de lideranças é o maior obstáculo apontado por 34,8% dos participantes de um levantamento da EXEC, consultoria de recrutamento de executivos. Para a sócia Camila Marion, o risco é tratar a norma como checklist de compliance. Em 2025, a Previdência concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais.
Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais. Segundo a OIT e a SmartLab, o volume de concessões desse tipo saltou 134% no último biênio. É nesse cenário que as empresas brasileiras precisam cumprir a atualização da NR-1, em vigor desde 26 de maio, que passou a exigir a inclusão dos riscos psicossociais no gerenciamento ocupacional.
Em 24 de setembro, o STF prorrogou por 90 dias a suspensão das multas ligadas a esses dispositivos, mas a norma continua valendo. Um levantamento da EXEC, mostra onde as empresas travam: para 34,8% dos participantes, o maior desafio é a capacitação de lideranças.
O gargalo da NR-1 não está no papel, está na sala do chefe
Os outros obstáculos aparecem bem atrás: a adequação de políticas e procedimentos internos, com 17,4%; a comunicação das mudanças aos colaboradores, com 13%; e a coordenação com a área de Segurança do Trabalho, com 8,7%. Para 26,1%, não houve desafios notáveis.
A atualização da norma, segundo Camila Marion, sócia da EXEC, expõe líderes que resistem a mudar a forma de conduzir seus times. Ela cita ambientes em que ainda se normalizam práticas como microgerenciamento, metas desconectadas da realidade e comunicação inadequada.
"Esse público envolve líderes que atuam em ambientes onde ainda se normalizam práticas como microgerenciamento, metas desconectadas da realidade, comunicação inadequada e cobrança baseada em desgastes contínuos. Por isso, a capacitação nunca foi tão importante, com a realização de treinamentos, mentorias, feedbacks e alinhamento com a cultura organizacional", diz Marion.
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Fábrica, varejo e banco: cada setor trava num ponto diferente
A EXEC observou, em análise qualitativa, que o gargalo muda conforme o setor. No varejo, o grande número de colaboradores, de unidades e de equipes heterogêneas dificulta a aplicação de treinamentos. Na indústria, os desafios são a integração com a Segurança do Trabalho, a documentação e a aplicação das regras no chão de fábrica.
Em serviços e tecnologia, o problema está na cultura e na comunicação, ou seja, em transformar novos hábitos em rotina. No setor financeiro, os pontos de atenção são governança, risco e modelo de gestão.
Um dos respondentes descreve o desafio do chão de fábrica. É "fazer a liderança do 'chão de fábrica' entender a importância da segurança psicológica e o que assédio moral tem a ver com a NR-1", diz um dos participantes da pesquisa. Outro defende "conscientizar a liderança que a responsabilidade é compartilhada e não apenas dos profissionais de RH".
Uma planilha não protege ninguém
O risco, na avaliação de Marion, é que as empresas encarem a norma só como obrigação regulatória e concentrem esforços em produzir documentos, políticas e evidências para a fiscalização.
"Provavelmente esse será um dos grandes desafios que vamos enfrentar. Muitas organizações podem enxergar a norma apenas como uma obrigação regulatória e focar na produção de documentos, políticas e evidências para a fiscalização. O problema é que riscos psicossociais não desaparecem por apenas estarem registrados em uma planilha", diz.
Segundo ela, fatores como metas, pressão, sobrecarga, qualidade da liderança, comunicação e desenho de processos afetam o colaborador e também a performance da empresa. Quem não identificar, avaliar e gerenciar esses riscos pode sofrer autuações e aumentar a exposição a passivos trabalhistas e previdenciários.
O líder que o mercado vai cobrar
Marion reconhece que o mercado ainda recompensa quem entrega resultado à custa do desgaste da equipe. Para ela, esse modelo tende a ser cada vez mais questionado, com o fortalecimento da norma e das exigências regulatórias e reputacionais.
A cobrança por resultado continua, mas cresce a necessidade de equilibrar performance e sustentabilidade. "O líder do futuro será reconhecido não apenas pelo resultado que entrega, mas pelo legado humano que deixa na equipe", diz.
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Para os líderes, a pergunta deixa de ser só quanto o time entrega e passa a incluir como o time chega ao fim do trimestre.
O que a NR-1 passou a exigir das empresas?
A atualização, em vigor desde 26 de maio de 2026, determina que os riscos psicossociais sejam incluídos no gerenciamento ocupacional das organizações.
As multas da NR-1 já estão valendo?
Não. Em 24 de setembro, o STF prorrogou por 90 dias a suspensão das multas ligadas aos riscos psicossociais. A norma, porém, continua em vigor e as empresas devem cumpri-la.
Qual é o maior desafio para aplicar a NR-1, segundo a EXEC?
A capacitação de lideranças, apontada por 34,8% dos participantes do levantamento, seguida da adequação de políticas internas (17,4%), da comunicação aos colaboradores (13%) e da coordenação com Segurança do Trabalho (8,7%).
Quantos afastamentos por saúde mental houve em 2025?
A Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais.
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