Filipe Bragança abre bastidores e reflete sobre '100 Dias', seu novo filme: 'Fiz minha própria travessia'
Nesta sexta-feira (25), o navegante e escritor brasileiro Amyr Klink completa 71 anos. Ele foi a primeira pessoa no mundo a conseguir a travessia do Atlântico Sul somente a remo e, neste ano, Amyr ganha um filme baseado exatamente nesta trajetória, chamado 100 Dias, com estreia em 29 de outubro. O longa é protagonizado por Filipe Bragança, que trouxe detalhes para a Quem de como foi assumir este desafio.
O ator conta que o seu principal desafio nesta produção foi o fato de que, na maior parte, o tempo de tela é somente dedicado a ele e ao mar. "Eu gosto muito desse tipo de filme, de um ator só. Inclusive, muitos desse tipo de filme aproveitei como referências para desenvolver o meu trabalho", detalha.
"Eu fiquei muito animado, porque acho que sempre é uma grande oportunidade para qualquer ator poder conduzir a narrativa praticamente sozinho, ao mesmo tempo também é um grande desafio. Afinal, 80% do filme, talvez 90%, somos só eu e o barco", diz.
Filipe conta que usou bastante sua imaginação durante as gravações para conseguir imaginar os peixes, baleias e eventos climáticos que acometeram Amyr durante a viagem. Além disso, ele também se aprofundou neste universo pelo livro escrito pelo navegante chamado Cem Dias Entre Céu e Mar (2023).
"Fiquei muito animado porque percebi que estava preparado enquanto ator para assumir tamanha responsabilidade e estava também muito entusiasmado com a possibilidade de encarar esse desafio e de me divertir no processo", afirma.
"Quando eu soube que tinha sido aprovado para o papel, li o livro e percebi no produto de literatura que o Amyr realizou uma grande possibilidade também de criar esse personagem a partir de reflexões e do silêncio também", reflete. Mas, antes de sequer fazer o teste para personagem, Filipe sonhou.
Premonição para o papel
Era uma noite aparentemente comum em janeiro de 2024, quando Filipe recebeu uma mensagem curiosa por meio de um sonho. "Acredito muito que através dos sonhos o universo nos envia mensagens. Sempre fico muito intrigado com os que tenho, porque acredito que neles existe algum significado para além de tão somente uma produção do nosso inconsciente enquanto a gente está dormindo", diz.
"Eu estava nadando no meio do oceano em um céu crepuscular, com o sol talvez nascendo, talvez se pondo. Estava nadando em direção a uma ilha que estava a cerca de 1 ou 2 km de distância e, conforme nadava, pensei: 'estou num ninho de baleias"".
"Em determinado momento, eu começava a afundar [ao redor de] baleias e acordei", diz. Filipe detalha que ficou tão intrigado pelo sonho que, no dia seguinte, o contou todo à sua mãe, a atriz Karlla Braga.
"Uma semana depois, recebo o convite para testar para o papel do Amyr, sem nem saber que o filme ia acontecer ou que essa produção estava acontecendo e que esses testes estavam rolando", afirma.
Segundo Filipe, ao ler o roteiro, ficou todo arrepiado e pensou: "'Essa oportunidade de ao menos testar para esse papel vai ser importante para mim'. Mas entendi também que aquele sonho estava me dizendo que isso estava chegando para mim e fiquei muito determinado em conseguir esse personagem, porque me pareceu uma mensagem do universo", conta.
O diretor do filme de 100 Dias é Carlos Saldanha, famoso por ter comandado animações como Rio (2010) e A Era do Gelo (2002). O ator comenta que outro detalhe observado pelo diretor foi decisivo para que ele assumisse o papel.
"O próprio Carlos Saldanha comenta que ele percebeu que eu era o Amyr pelo jeito que eu me levantei da mesa num café que a gente tomou antes de eu ser aprovado para o teste", fala. "Ele é um diretor muito sensível que consegue perceber detalhes que muita gente não percebe", elogia.
Preparação
O processo para entrar no personagem não foi fácil e exigiu uma travessia própria do ator dentro de si mesmo, acompanhada de uma transformação física. "O Amyr atravessa o oceano sozinho durante 100 dias, acho que a solidão ou a solitude são elementos muito importantes para compreender esse personagem. Claro que eu não me isolei por 100 dias, mas, ao mesmo tempo, por consequência inclusive da preparação física, eu acabei visitando a minha solitude ainda mais", confessa.
"Eu já sou um cara que, em geral, gosta de ficar sozinho, gosto da minha própria companhia e mergulhei ainda mais nela, nessas reflexões, ao longo desse tempo", diz. Filipe conta que um dos principais desafios foi emagrecer para se enquadrar no padrão de corpo dos homens da década de 1980.
"Sabia que eu ia ter que perder alguns quilinhos e, nesse processo de dieta e emagrecimento, perdi cerca de 11 a 12 kg. Hoje eu estou com os meus 80 kg, mais ou menos. Na época, para interpretar o personagem, cheguei a 68 kg, estava bem magro", fala.
"Esse processo fez com que eu me isolasse bastante. Tive que aprender a remar também, o que inclusive foi ótimo, porque me ajudou a emagrecer; uma coisa meio que completava a outra", conta. Uma pessoa que o ajudou durante esse período de preparação foi o próprio Amyr.
Filipe fala que o fato de o navegante ser uma pessoa mais fechada e introvertida o ajudou. "Acho que o processo de criação e desenvolvimento do meu trabalho era diferente, porque me possibilitava criar algumas coisas, já que a percepção pública do Amyr não é tão concreta assim, mas me aproveitei também de todos os registros e referências que eu tinha dele", compartilha.
Desde entrevistas no YouTube até documentários, tudo fez com que Filipe entendesse mais o Amyr, inclusive as conversas com ele próprio. "Eu conheci ele, tive algumas oportunidades de conversar com ele, de ouvi-lo, e matar algumas das minhas curiosidades, fiz muitas perguntas", afirma.
"Ele sempre muito gentil, tirando todas as minhas dúvidas e me ensinando também. Me ensinou como é que usava o sextante [instrumento de navegação para medir o ângulo], me ensinou como é que ele fazia para navegar e para fazer os cálculos na carta náutica", detalha.
"O ator tem que ser curioso; eu sou particularmente assim com as coisas do mundo. Poder mergulhar nesse universo com tanta intensidade foi muito especial. Acho que o trabalho no filme ficou muito completo, sendo ele um resultado dessa preparação", comenta.
Pontos em comum com Amyr
O filme também marca uma trajetória de autoconhecimento para Filipe. "Fiz a minha própria travessia. O Amyr fala que ele não é um herói nacional, como as pessoas gostam de dizer, [por ter] realizado algo tão grandioso como ele realizou. Amyr fala que ele não é um herói, é um planejador. Planejou essa viagem e foi bem-sucedida, não por heroísmo, mas por planejamento", reflete.
"Também sou muito assim, me identifico muito com isso. É uma virtude e uma maldição, porque eu penso demais nas coisas, calculo demais, sou muito pragmático. Mas, ao mesmo tempo, acho que na minha profissão é importante ser assim", pondera.
O artista ainda menciona uma entrevista de Tamara Klink, filha do navegante, dizendo: "[ela] mencionou numa entrevista que, quando você está navegando, você não precisa ser bom em tudo, mas você também não pode ser ruim em nada. Eu acho que é por aí".
"Algumas coisas do temperamento, dessa percepção do mundo e da própria companhia me levam para muito próximo do Amyr, aproveitei [isso] no filme", ressalta. Foi essa conexão pessoal, somada à entrega das gravações, que fez com que ele tivesse dificuldade em se desconectar do personagem posteriormente.
"Foram dias de filmagem muito intensos em que ficava o dia inteiro gravando, eu tinha pouco tempo para pensar em qualquer outra coisa, além do meu trabalho no filme e daquele universo. Mesmo chegando em casa, descansava, mas sempre com esse universo me atravessando de alguma maneira".
"Acho que eu saía do personagem, mas eu não saía daquele universo, daquela atmosfera. Sou muito bom com desfechos e despedidas, mas, apesar de eu ter me despedido do personagem quando as filmagens acabaram, demorou um pouco ainda para eu sair dessa intensidade em que eu estava imerso ali no filme", revela.
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