"Da Batalha até à Praça": tendas de volta à rua no Porto

A resistência a uma nova noite ao relento que acabou com um novo conjunto de tendas
“A ideia é passarmos aqui a noite”, admite Pedro Manuel, um dos porta-vozes do movimento da Acampada do Porto. O material de campismo preenche a parede no fundo da praça. Entre esteiras, tendas, mantas e outros equipamentos, os manifestantes têm tudo o que necessitam para regressar às pernoitas na Praça D. João I. Ao som de “Grândola, Vila Morena”, cantada pelos participantes do protesto, o porta-voz reivindica que a praça “se tornou do povo novamente” após ter estado “morta” durante muitos anos.
Ao Observador, Pedro Manuel diz ainda que sabe que estão a ser ouvidos pela Câmara de Pedro Duarte e pelo Governo de Luís Montenegro, que têm sido os alvos de cânticos ao longo de toda a tarde, mas considera que estão a ser ignorados. “A habitação voltou a ser o foco do debate público”, considera, numa altura em que estão milhares de pessoas reunidas neste espaço. “Pedro Duarte ainda não falou com ninguém do movimento”, sublinha ainda, garantindo que não houve “qualquer tipo de comunicação” com o executivo camarário desde o início da acampada.
A decisão de voltar a montar as tendas no betão só chegou depois das 20h, ao fim de cerca de uma hora de Assembleia Popular — que, pela primeira vez, contou com uma intérprete de língua gestual portuguesa. O apelo à votação recebeu uma grande resistência dos participantes que, na sua maioria, optou por não manter a acampada com tendas. Após uma longa ronda de deliberação, onde menos de uma dezena de manifestantes apelou à permanência naquele espaço, 130 pessoas votaram favoravelmente.
Também a meio da noite, a PSP voltou a lembrar que, quer em Lisboa quer no Porto, os manifestantes que protestam pelo direito à habitação não estão autorizados a instalar tendas para passar a noite — e as forças de segurança prometem agir para retirá-las das praças. “A PSP respeita e garante o exercício do direito de reunião e de manifestação, constitucionalmente consagrado, sendo, contudo, fundamental que o mesmo decorra de forma pacífica, com respeito pelos direitos dos demais cidadãos, pela ordem e tranquilidade públicas e dentro dos limites e condicionalismos previstos na lei, incluindo os aplicáveis à utilização e ocupação do espaço público”, referiu numa nota à comunicação social.
O futuro da acampada depende dos votos populares, mas Pedro Manuel admite que “vão sempre continuar” a protestar e que continuarão a vir à praça até verem as suas reivindicações concretizadas.
Para além de ser o órgão onde se decide o destino do movimento, é também um espaço para a discussão de propostas para atualizar a lista de reivindicações. A porta-voz do grupo de trabalho responsável pela segurança dos manifestantes — que, ao longo do dia, foi distribuindo folhetos a lembrar os direitos que cada um dos que protesta tem no exercício desta atividade —, reforçou a importância da criação de um cordão humano, caso exista uma nova intervenção policial, mas lançou-se um apelo à “resistência pacífica”. “Não estamos sozinhos e não largamos a mão de ninguém”, afirmou ao microfone.
Identificada a localização da cantina popular e a lista de necessidades para continuar a manter todos os manifestantes “a lutar de barriga cheia”, bem como a tenda de primeiros socorros: as encarregadas pelos primeiros socorros físicos apresentam-se com coletes amarelos, enquanto as responsáveis pelos cuidados psicológicos têm vestes cor-de-laranja. Discutiram as propostas e reconheceram todas as condições disponíveis no perímetro da acampada, mas sublinharam que mesmo que não haja uma acampada cheia de tendas — antes de saber que seriam 130 a acampar —, pediram a permanência do máximo número de manifestantes na praça durante a noite, independentemente do frio e da chuva que está por vir.
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