Aviões e Frigoríficos: um estranho ataque à Europa

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Esta é a história do dia de fim de semana da Rádio Observador: aviões e frigoríficos, um estranho ataque à Europa. Imagine que segue neste avião que partiu de um aeroporto europeu em direção a uma cidade ali próxima. Imagine que a meio do voo recebe a informação de que vai ter de haver um desvio porque há uma ameaça de bomba. Ou então imagine que nem chegou a descolar porque o avião onde deveria seguir viagem estava sob ameaça. E agora vamos multiplicar isto por vários dias, por vários aviões, por vários países. Ao mesmo tempo, numa série de eventos que não parecem estar relacionados, empresas informáticas que gerem o frio dos frigoríficos de supermercados europeus são alvo de um ataque. Os termômetros são desregulados, a temperatura sobe e milhares e milhares de produtos têm de ser deitados ao lixo. Não é tão dramático como a ameaça de bomba, mas por toda a Europa, incluindo em Portugal, dispararam os alarmes. Afinal, o que está a acontecer aqui? É isso que eu vou perguntar hoje ao jornalista de sociedade do Observador, o Martim Andrade. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de fim de semana, de 7 e 8 de novembro. Olá, Martim.
Olá, Pedro.
Esta semana nós tivemos aqui notícias um bocadinho preocupantes, todas ao mesmo tempo, de coisas que não têm ligação evidente. Ataques a frigoríficos de supermercados e, ao mesmo tempo, ameaças de bombas em aviões. Antes de fazermos aqui a ligação, se é que há alguma ligação entre uma coisa e outra, vamos só olhar para o que aconteceu em cada uma destas coisas. Vamos aos supermercados, primeiro.
No início da semana, foi registada uma grande vaga de ataques, neste caso, ao prestador de serviços responsável pelo sistema informático dos sistemas de refrigeração dos supermercados.
De uma forma complicada, dizer quem foi atacado.
Foi atacado quem faz o aparelho informático dos frigoríficos, dos controladores.
Quem controla a temperatura dos frigoríficos, dos supermercados.
Exatamente. Quem controla isso foi atacado e, portanto, dezenas de supermercados em toda a Europa, na Bélgica, França, Suécia, até em Portugal, acabaram por ser afetados. Houve muitos alimentos que acabaram por ser destruídos, ficaram inviabilizados.
Porque os supermercados têm essas regras muito rigorosas.
Sim, se esta coisa não estiver conservada durante X tempo, à X temperatura, acaba por afetar a parte dos frescos.
Se tu tirares um produto depois de deixares no outro sítio, esse produto já não pode ser lá reposto, tem que ser destruído.
Exato. E a parte engraçada, salvo seja, deste ataque, é que eu falei com alguns especialistas de cibersegurança que me disseram que o ataque em si não foi particularmente sofisticado, portanto, foi sempre contra o prestador de serviços. Não foi individualmente a cada loja, apesar de ter sido algo que afetou vários países ao mesmo tempo. Mas o que realmente surpreendeu estes especialistas e as pessoas daqui do meio, foi o facto de haver uma segunda vaga, que afetou também outros tantos supermercados no mesmo princípio. Ou seja, não fizeram nada para se defender entre a primeira vaga e a segunda vaga.
Isso é preocupante a dois níveis, que é preocupante no primeiro nível, que é como é que um sistema que controla a temperatura dos supermercados, e isso é fundamental, porque garante que esses alimentos estão conservados como devem estar, e se não estiverem, há ali uma disrupção na cadeia de abastecimento.
E para além dos supermercados, também houve, acho que foram três bancos de sangue em França, que utilizavam o mesmo tipo de sistemas de refrigeração, que também foram afetados. Eles dizem que não houve qualquer tipo de perda de produto, neste caso, mas também afeta outras indústrias para além dos supermercados.
E, portanto, o primeiro nível de preocupação é como é que alguém que gere esse tipo de coisas, que são críticas, efetivamente-
Não respondeu logo
...não só não respondeu logo, como tinha a possibilidade de vir a ser atacado por um sistema que não foi propriamente sofisticado, que é logo a primeira coisa. A segunda é: depois desse primeiro ataque, aliás, usa-se aquela expressão até que é: "casa roubada, trancas à porta". Portanto, esperava-se que num segundo ataque já tivesse sido tomada alguma medida e isso não aconteceu.
Claro. Sim, não aconteceu de todo. Agora, assume-se, como já não têm sido registados mais ataques, que se tenha feito alguma coisa, ou então as entidades responsáveis pelos ataques decidiram só desistir e ir para outros meios.
Não dá para além, portanto...
Certo. Portanto, não se sabe ainda se foram efetivamente colocadas medidas de segurança para reforçar futuros ataques também, possivelmente.
Aqui, já agora, para quem nos está a ouvir e está a tentar perceber, mas por que vão atacar empresas que gerem o frio dos supermercados? Quando pensamos em ataques, nós pensamos em coisas altamente danosas.
Sim, o roubo de dados ou mesmo roubar dinheiro de alguma forma. Neste caso, o que aparenta ser o caso e o motivo destes ataques é mesmo criar algum tipo de instabilidade social. É uma das, não vou dizer regras, mas é um dos objetivos recorrentes que têm sido verificados nesta guerra híbrida, e faço aspas, porque não se sabe realmente quem é que fez os ataques ainda. Há grupos pró-Kremlin, que reivindicam os ataques, que são conhecidos pelas autoridades como sendo daqueles que apresentam menores ameaças a nível da cibersegurança, mas também há fontes que conhecem o processo, que admitem que pode ter sido também o Irão a levar estes ataques e, portanto, ainda não se sabe bem porque é que o fizeram, quem o fez ou se existe sequer alguma ligação agora para estes ataques mais recentes, ataques, salvo seja, essas ameaças de bomba mais recentes que têm sido.
Ou seja, nós podemos falar aqui de guerra híbrida no sentido de se isto for exatamente algum dos agentes dessas guerras que temos neste momento em curso, mas não sabemos exatamente quem é que está por trás disto e, portanto, não se consegue perceber exatamente se há aqui uma ligação ou se isto faz parte daquilo que seria a guerra híbrida. Mas já agora, se fizer, isto é um bom exemplo para as pessoas perceberem. Não é uma bomba cair no centro da cidade, é este tipo de ataques que causam Instabilidade social, porque as pessoas vão ao supermercado e não há produtos.
Não há necessariamente tropas no terreno, não é boots on the ground de uma operação militar, mas claramente mostra constrangimentos e deficiências dos nossos sistemas de defesa.
E prejudica naturalmente a economia também. E agora vamos olhar para os aviões. Nós estamos a falar de vários países também. Foi uma coisa que, se não foi concertada, pareceu, em que em poucos dias houve várias ameaças por todo lado.
Sim, foi em todo lado, mas curiosamente também só na Europa. Começou por apenas, acho que nem chegou a 10 ameaças de bomba na manhã de terça-feira. Depois, na quarta-feira aumentou, quinta-feira continuou a aumentar e esta sexta-feira também. Aliás, em Lisboa, houve esta sexta-feira de manhã uma ameaça de bomba num voo da Ryanair que seguia de Lisboa para Roma. Acabou por nem sequer descolar, porque houve este aviso de que possivelmente haveria uma bomba a bordo. As autoridades interromperam a marcha do avião, foram revistar tudo, revistaram os passageiros também. Fizeram o protocolo que está normalmente associado a este tipo de ameaças. Mas a verdade é que tem acontecido a um nível se calhar inédito, que nunca se tinha verificado num curto espaço de tempo, haver tantas ameaças de bomba.
Tu falaste de 10 no primeiro dia. Quantas é que chegou a haver num só dia?
Por exemplo, na quinta-feira falava-se de 25. Na sexta-feira foi mais uma dezena.
Dezenas ao longo destes dias de ameaças de bomba, o que não é claramente normal, sendo que podia haver aqui a tendência de olhar para isto, chegar sexta-feira e dizer: "Isto está a acontecer todos os dias, não há bomba nenhuma, vamos seguir com as operações". Não tem acontecido isso, felizmente.
Não tem acontecido, tem sido mais recorrente ver voos a atrasar para verificar se não existe nenhuma bomba a bordo, ou voos que simplesmente alteram a rota e aterram noutros aeroportos como medida de segurança e de prevenção para verificar se está tudo em condições e se não há risco de haver uma bomba a rebentar a bordo.
Mais uma vez, não sabendo quem é que está por trás disto, percebemos que aqui o objetivo é também criar confusão, prejudicar e criar entraves naquilo que é a circulação normal aérea e com tudo o que isso implica para a economia e para os diferentes países que são afetados. Perante este tipo de questões, quer a história dos frigoríficos, quer a história dos aviões, como é que as autoridades, não só as de cada país, mas as autoridades europeias, têm reagido a isto sabendo que o inimigo é invisível?
É complicado porque não existe uma resposta concreta que se possa dar, por exemplo, a estas ameaças recorrentes de bombas. Existe um protocolo em curso, que chega uma ameaça, por exemplo, a um operador de uma companhia aérea, que depois fala com as autoridades, as autoridades falam com o centro de tráfego aéreo, esses, depois de verificarem que a ameaça é viável, falam com os próprios comandantes e eles têm de decidir se é possível identificar a bomba ou o possível engenho explosivo que está a bordo na cabine. Provavelmente não é, por causa de todos os controlos de segurança que foram introduzidos depois do 11 de setembro de 2001. E depois o procedimento mais básico é termos de aterrar, porque é preciso perceber o que se passa. Este é o protocolo que está em curso e que tem vigorado nas últimas décadas e não há bem uma forma de conseguir alterar este protocolo sem baixar o nível de segurança a bordo. Ou seja, das duas, uma: ou eles tinham a opção de relaxar, entre aspas, estas ameaças de bomba e começar a dizer: "Mais uma ameaça de bomba, também se calhar não vale a pena estar a reagir de forma tão célere" e depois abrem a porta para quando haver realmente um ataque, estarem desprotegidos. Ou então continuam só a fazer o que têm andado a fazer, que é dia sim, dia sim, haver dezenas de aviões que têm de aterrar mais cedo ou que impedem a aterragem ou descolagem.
Neste momento, o que nós temos são dois países identificados como possíveis suspeitos. Num deles houve a reivindicação por parte de um grupo, como tu disseste. No caso do Irão, alguém reivindicou ou as investigações que estão em curso começam a apontar para essa possibilidade?
Sim, tem sido muito esta questão dos sistemas de informação, seja da NATO, seja de vários Estados que estão a sofrer com estes problemas, que têm identificado possíveis origens no Irão. Mas é interessante porque logo após os ataques, por exemplo, nos sistemas de refrigeração, houve dois grupos, que já são conhecidos nestas autoridades de ciberataques, que reivindicaram logo os ataques e eles dizem logo: estes aqui são conhecidos, se eles dizem que foram eles a fazer, o mais provável é terem sido eles a fazer, de facto. Na questão dos aviões, também houve, no caso de Itália, uma série de e-mails que foram enviados esta semana por um grupo também extremista ligado ao Kremlin, que entretanto já foi banido e proibido na Rússia, mas que continua, pelos vistos, a ter estas atividades, mas que também é difícil de confirmar, porque foi só um e-mail assinado com o grupo. Não existe bem uma forma ainda de saber, e de sequer apurar, quem é que anda atrás destes ataques.
E, portanto, a reação europeia tem sido cautelosa.
É continuar a ver o que podem fazer para minimizar os efeitos de cada uma destas ameaças.
E, entretanto, vão ficando à mercê daquilo que vai acontecendo. Vamos ver se a coisa melhora. Martim, obrigado.
Obrigado.
Eu conversei hoje com o jornalista de sociedade do Observador, o Martim Andrade, sobre esta onda de ataques inesperados. Frigoríficos, supermercados regulados à distância, ameaças sucessivas de bomba a vários aviões em vários países em simultâneo, incluindo em Portugal. O que têm em comum estas ações que misturam mundos tão diferentes como aviões e alimentos de supermercado? Provocam caos e inquietação social e têm ambas o mesmo alvo: uma Europa que durante décadas viveu em paz e que dá sinais de não estar preparada para as novas ameaças nestes tempos de instabilidade mundial. Esta foi a história do dia de fim de semana. A sonoplastia da Mariana de Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.
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