Automatizar sem demitir é possível? A Neohype aposta em transformar atendentes em vendedores de IA
Luiz Iannini, CEO da Neohype, descreve o futuro de parte de seus funcionários com uma imagem precisa. Ele quer ver profissionais que hoje atendem clientes no call center apresentando, em alguns anos, soluções de inteligência artificial para melhorar a jornada desses mesmos clientes. “Eu quero vocês capacitados. Eu quero vocês lá daqui a dois, três anos, apresentando soluções de IA”, diz.
A projeção é a resposta da Neohype a uma pergunta que acompanha qualquer projeto de automação: o que acontece com quem faz o trabalho hoje. A empresa atua em experiência do cliente (CX), soluções digitais e cibersegurança. Ela decidiu tratar o tema com duas frentes, conduzidas pelo CEO e pela vice-presidente de Pessoas e Cultura, Ana Alice Limongi Gasparini.
A primeira é expor às equipes o rumo do negócio. A segunda é oferecer capacitação para que elas acompanhem a mudança. O próximo passo é uma trilha de treinamento em IA para todas as camadas de liderança, que começa agora.
Em 2025, segundo a empresa, a Neohype foi reconhecida como uma das companhias mais inovadoras do Brasil e somou mais de 50 prêmios no mesmo ano.
O receio que chega junto com a palavra 'digitalizar'
Iannini está à frente da Neohype desde junho de 2023. Acumula mais de 15 anos em tecnologia da informação, com atuação em segurança da informação, arquitetura de infraestrutura e projetos de outsourcing, e foi nomeado Executivo do Ano pela ABT. Ao assumir, definiu como meta levar os negócios cada vez mais para o digital, sem perder de vista quem sustenta a operação.
“Não tem tecnologia que faça, são as pessoas”, afirma.
O discurso esbarra em uma reação previsível. Quando o CEO fala em digitalizar processos, parte das equipes conclui que vagas vão desaparecer. Iannini rebate a leitura de forma direta. “Não estou acabando com o emprego. Eu quero formar gente para prosperar aqui comigo”, diz.
Uma executiva de pessoas na mesa da estratégia
A outra metade dessa equação está com Ana Alice. Formada em Direito, com MBA Executivo pela FIA USP, ela construiu a carreira em ambientes regulados, com passagens pela TIVIT, pelo Procon e pela Secretaria da Justiça do Estado de São Paulo.
A experiência em contextos de regras rígidas e transformações complexas moldou uma atuação voltada a governança, gestão de riscos e desenvolvimento organizacional.
Na Neohype, ela trabalha em parceria direta com o C-level. Define sua atuação a partir da premissa de que liderar pessoas é liderar negócios. Entre as frentes que conduz estão people analytics e o uso de inteligência artificial na gestão de pessoas, o mesmo território em que a empresa agora pede que seus funcionários se capacitem.
Fora da empresa, Ana Alice é cofundadora do Hype.Sis, podcast que reúne uma comunidade de mulheres na tecnologia, e foi eleita RH Mais Admirada em 2023, 2024 e 2025.
Um convite com regras claras
O ponto de partida da mudança foi o setor de BPO, onde, segundo Iannini, o atendimento digital vinha ganhando força. Em vez de conduzir a transição em silêncio, a empresa expôs o cenário aos profissionais e fez uma proposta.
“Vocês querem surfar nessa jornada conosco? Esse é o caminho da companhia. Nós vamos ajudar vocês, a gente vai capacitar vocês”, relembra o CEO.
Ele reconhece que a franqueza tem custo. A mensagem assusta quem não pretende se desenvolver. Para quem quer, a empresa oferece as condições dentro de casa.
Na visão de Iannini, cada profissional responde pela própria carreira, e cabe à liderança abrir o caminho. “Eu posso ajudar e entregar a varinha para ele pescar. Não posso pescar o peixe para ele”, ele diz.
Com essa regra estabelecida, falar em ampliar canais digitais ou usar IA para ganhar eficiência deixou de ser um tema delicado internamente. “Acho que a palavra é transparência”, diz.
Nem tecnologia, nem gente: as duas coisas
Para Ana Alice, a lógica está no próprio slogan da empresa, “com o digital tudo acontece”. A frase resume uma escolha de cultura que ela descreve sem meio-termo.
“A gente uniu a tecnologia com a inteligência humana. Não são cenários opostos. São cenários sempre complementares”, diz.
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