São Paulo entrega seu Big Brother ao crime com falhas no Smart Sampa

E "qualquer um" incluía quem quisesse ver, ao vivo, as ruas onde moram o ministro do STF Alexandre de Moraes e os ex-presidentes Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso. Ou a entrada de clubes como a Hebraica e a Sociedade Hípica Paulista. Se nem o pessoal do andar de cima está protegido, imagine o restante que não tem segurança particular nem assessoria para reclamar.
Um sistema desenhado para controle e zeladoria, quando vaza, deixa de ser ferramenta do Estado. Vira infraestrutura disponível para quem for criativo diante da brecha.
Câmeras de parceiros privados costumam apontar para portarias, garagens, escolas e comércios. Com acesso irrestrito, dá para montar um dossiê de horários, companhias e trajetos de milhares de pessoas. Esse era um dos riscos que especialistas e organizações da sociedade civil voltadas à proteção de dados alertaram quando o sistema foi projetado. Para eles um "eu avisei" não vai ser o bastante.
Mesmo que a brecha entregue "só" o vídeo, imagens contínuas e em alta resolução podem ser capturadas e jogadas em softwares paralelos de reconhecimento facial. Ou seja, bases biométricas clandestinas, montadas com material que o cidadão nunca autorizou que fosse usado assim.
Sem contar que facções criminosas sabem fazer contrainteligência. Câmeras abertas permitem acompanhar o padrão de patrulhamento da PM e da GCM, identificar viaturas, mapear rotas de fuga e áreas desguarnecidas antes de uma ação. O olho que deveria vigiar o crime pode trabalhar para ele.
E há o risco mais direto. Acompanhar uma vítima em tempo real permite saber o momento exato em que ela chega em casa ou para no semáforo. É logística de precisão para sequestro-relâmpago, roubo de carro e extorsão.
A gestão Ricardo Nunes nega que os dados estivessem públicos na internet. Diz que a lista de links é uma planilha produzida pela Prodam numa análise de cibersegurança pedida pelo prefeito, que seu envio ao UOL é "ato criminoso" e que não há sinais de ataque externo. Afirma ainda que as mais de 20 mil câmeras próprias do município não estavam na planilha, e que a segurança das câmeras parceiras é responsabilidade de cada empresa. A Monuv, por sua vez, diz seguir as especificações de acesso e segurança definidas pelo próprio Smart Sampa.
A versão da prefeitura não responde ao essencial. Venha de um código exposto ou de uma planilha vazada, o fato é que os links abriam transmissões ao vivo sem pedir senha a ninguém. Se basta uma planilha circular para milhares de câmeras ficarem acessíveis, o problema é de um sistema que permite isso.
E há um ping-pong curioso de responsabilidades. A prefeitura integra as câmeras ao seu programa, usa o volume delas como vitrine política, mas diz que a segurança é com os parceiros. O parceiro diz que segue as regras da prefeitura. No meio, fica o cidadão, que cedeu suas imagens acreditando num anel de proteção e descobriu que estava num aquário.
A tecnologia deveria proteger a população. Do jeito que está, o modelo funciona como um hub que centraliza e redistribui vulnerabilidades, terceirizando o risco para quem está na calçada sem oferecer as garantias de proteção de dados que a lei exige.
O Grande Irmão de São Paulo prometia vigiar bandidos. Esqueceu de trancar a porta da sala de monitoramento.
Opinião
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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