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Sunday, September 27, 2026

Canetas emagrecedoras podem afetar ovulação e ciclo menstrual, sugere estudo

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Remédios como Ozempic e Wegovy, usados para emagrecimento e controle de diabetes, podem estar ligados a mudanças no ciclo menstrual de mulheres em idade reprodutiva.

É o que sugere uma nova análise de dados de farmacovigilância da FDA, agência regulatória americana, publicado na Obstetrics & Gynecology.

Como o estudo foi feito

Pesquisadores analisaram notificações do Sistema de Notificação de Eventos Adversos da FDA (FAERS) até março de 2026, em um estudo de coorte retrospectivo restrito a pacientes do sexo feminino entre 12 e 55 anos.

Em vez de apenas contar o número de relatos, a equipe aplicou análises de desproporcionalidade e bayesianas — métodos que identificam eventos adversos relatados com frequência maior do que a esperada para um medicamento específico, em comparação com os padrões de notificação do restante do banco de dados.

Foram avaliados três medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1: semaglutida, tirzepatida e liraglutida.

Semaglutida

Entre os três remédios, a semaglutida (princípio ativo de Ozempic, Wegovy e Rybelsus) apresentou mais associações. A análise apontou relatos de:

  • Sangramento menstrual intenso;
  • Sangramento intermenstrual (entre os períodos menstruais);
  • Coágulos menstruais;
  • Oligomenorreia (menstruações menos frequentes que o normal);
  • Ciclos anovulatórios (ciclos em que não há liberação de óvulo, mesmo com outras etapas do ciclo acontecendo normalmente).

Tirzepatida e liraglutida

A tirzepatida, presente no Mounjaro, também gerou sinais significativos, mas de forma mais restrita: apenas para sangramento intermenstrual e coágulos menstruais. Já a liraglutida (nomes comerciais mais conhecidos são Victoza para diabetes e Saxenda para obesidade) não apresentou nenhum sinal significativo de alteração menstrual na análise.

Para os pesquisadores, essa diferença é relevante porque os medicamentos da classe GLP-1 costumam ser tratados como intercambiáveis, quando na prática atuam de formas distintas.

A tirzepatida age tanto nos receptores GLP-1 quanto GIP, enquanto a semaglutida atua apenas no receptor GLP-1. O estudo, porém, não foi desenhado para explicar se essa diferença farmacológica justifica os padrões distintos de notificação.

Sinal não comprova causa

Os autores fazem uma ressalva importante: os resultados não comprovam que os medicamentos causaram as alterações menstruais relatadas. O que a análise mostra é a existência de padrões estatisticamente relevantes, suficientes para justificar novas pesquisas e mais atenção à saúde menstrual de pacientes em idade reprodutiva.

A ausência de sinal para a liraglutida também não significa, necessariamente, que o medicamento seja incapaz de afetar o ciclo menstrual. O sistema FAERS depende de notificações espontâneas, e fatores como tempo de uso, frequência de prescrição e perfil das pacientes tratadas podem influenciar os resultados.

Perda de peso complica a interpretação

O ciclo menstrual é sensível a mudanças no peso corporal, no metabolismo e no balanço energético — todos fatores diretamente impactados pelos medicamentos GLP-1. Isso significa que parte das alterações observadas pode refletir os efeitos da perda de peso em si, e não uma ação direta do medicamento sobre a biologia reprodutiva.

Mudanças na resistência à insulina também podem interferir na ovulação, especialmente em mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP). Nesses casos, a melhora da saúde metabólica pode até regularizar os ciclos menstruais, enquanto perda de peso rápida ou grandes variações no consumo energético podem, em outras situações, desregulá-los.

Esse cenário torna a pergunta "o medicamento altera o ciclo menstrual?" mais complexa do que parece, já que cada mulher inicia o tratamento com um perfil metabólico, hormonal e reprodutivo diferente.

Atenção à fertilidade

Entre os achados, o sinal de ciclos anovulatórios associado à semaglutida é o que pode gerar mais desdobramentos, por estar diretamente relacionado à fertilidade. Caso pesquisas futuras confirmem esse efeito, as implicações poderiam ir além de simples alterações na data da menstruação.

Ainda assim, os pesquisadores reforçam que os dados atuais não permitem concluir que a semaglutida suprima a ovulação ou reduza a fertilidade das usuárias.

Em mulheres com obesidade ou SOP, por exemplo, a perda de peso e a melhora da sensibilidade à insulina podem, na realidade, melhorar a função ovulatória. Isso indica que diferentes mecanismos biológicos podem estar em jogo, a depender do perfil da paciente.

O que os autores recomendam

Para os pesquisadores, os próximos passos dependem de estudos controlados, capazes de separar os efeitos diretos dos medicamentos da perda de peso, de condições de saúde preexistentes e do uso de outros remédios.

Na prática, a recomendação é que mulheres que notarem alterações significativas no ciclo menstrual durante o uso desses medicamentos, especialmente aquelas que estão tentando engravidar, conversem com um médico sobre o padrão dessas mudanças.

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