Meta recebeu ao menos R$ 1,1 mi em anúncios eleitorais ilegais, diz estudo

Em setembro, o TSE definiu que qualquer conteúdo produzido por IA que seja verossímil —seja para falar bem ou mal de algum candidato— está vetado.
Algumas das páginas monitoradas são administradas a partir de países como Peru, Colômbia e Guatemala e alguns dos anúncios foram pagos em moeda estrangeira, ambas as práticas expressamente vedadas pela legislação brasileira por dificultar a transparência e rastreabilidade do recurso investido na campanha eleitoral.
Os dados foram colhidos na biblioteca pública de anúncios da Meta. Os anúncios resultaram num volume de 2,2 milhões a 2,6 milhões de impressões, ou seja, de vezes que um mesmo conteúdo apareceu para algum usuário.
Alguns dos anúncios foram removidos, mas só depois de se disseminarem amplamente nas redes sociais —Facebook ou Instagram.
"A Meta está lucrando com desinformação e conteúdo gerado por IA e o está fazendo abertamente", apontam os pesquisadores.
A organização diz que a decisão da Meta na semana passada de desabilitar temporariamente anúncios da conta oficial do presidente Lula mostra "um padrão duplo" de atuação da empresa.
"A Meta está disposta a agir rapidamente e sem explicação contra um candidato dias antes da votação. Enquanto isso, as contas de fachada e os anúncios ilegais documentados nesta pesquisa têm liberdade total, acumulando milhões de impressões. Embora a empresa tivesse todas as ferramentas necessárias para detectar isso, ela rebaixou a prioridade de seu negócio de Confiança e Segurança para se concentrar ainda mais em se tornar um modelo de negócios de desinformação e ódio", critica a Eko.
Diversas páginas analisadas se apresentam como noticiosas ou jornalísticas para se enquadrar nas regras de anúncios da Meta para esse tipo de veículo —a plataforma permite a promoção remunerada do conteúdo produzido por redações profissionais, inclusive relativo ao processo eleitoral.
O estudo da Eko constatou "um padrão que sugere a existência de uma central de anúncios eleitorais ilegais": depois de uma longa "hibernação", diversos perfis analisados foram reativados e, em poucos dias, veicularam dezenas de anúncios irregulares.
O cenário constatado pelo estudo acende um sinal de alerta. Por determinação da Justiça Eleitoral, nas 48 horas que antecedem a votação, é proibida a veiculação de qualquer anúncio digital. Nas eleições de 2022, essa regra foi descumprida.
Neste ano, diante do descontrole com conteúdos irregulares, o desafio de garantir a restrição inclusive de anúncios regulares está dado.
Por decisão da Justiça Eleitoral, no Brasil, apenas candidatos, partidos políticos e campanhas são autorizados a pagar por anúncio de conteúdo político-eleitoral.
Ainda assim, podem fazê-lo sob condição de não atacar oponentes nem usar conteúdo gerado por IA. Os candidatos não podem receber dinheiro de fontes estrangeiras, inclusive por meio de anúncios.
Veículos jornalísticos podem anunciar em plataformas, desde que para promoção de seu próprio conteúdo.
Em nota, a Meta informou que "está comprometida em proteger o processo eleitoral" em suas plataformas. "O próprio relatório da Eko reconhece que nossos sistemas identificaram corretamente a maior parte desses anúncios como conteúdo sobre temas sociais, eleições ou política, e que removemos anúncios que violaram nossas políticas", diz a nota. A empresa afirma ter "múltiplas camadas de análise e revisão antes e depois de um anúncio entrar no ar" e que uma "seleção manual de 30 anúncios, entre milhões disponíveis em nossa Biblioteca de Anúncios, não reflete a escala desse trabalho."
Compras falsas de Lula em Paris e Flávio com Milei
Os pesquisadores da Eko fizeram a busca na biblioteca de anúncios da Meta usando como filtro os termos Lulinha, Bolsomaster, INSS e Tariflávio.
O resultado abarca páginas contrárias tanto ao presidente Lula (PT), candidato à reeleição, quanto a seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL).
A página "Soldados do Capitão" no Facebook é uma das que aparentemente foi reativada para em poucos dias impulsionar material de ataque a Fábio Luís, o filho de Lula conhecido como Lulinha.
Criado em 2023, desativado até agosto de 2026, o perfil mudou de nome pouco antes de veicular 62 anúncios por R$ 6.000. A página não tinha nenhum seguidor nem outros posts e, no entanto, se apresenta como perfil jornalístico.
O vídeo impulsionado foi primeiramente publicado no perfil oficial de um candidato a deputado federal. Em seguida migrou para o perfil "Soldados do Capitão". Nele, o candidato aparece em frente a um prédio dito em Madri para "provar que a empresa do Lulinha é de fachada" e assim ligar o filho de Lula a um esquema de corrupção.
Outro perfil no Facebook analisado se chama "A Voz do Povo", que se define como fanpage. Criada em 2023, tem 2.500 seguidores, e parece ser uma das "centrais de anúncios ilegais", de acordo com a Eko.
Os pesquisadores tentaram entrar em contato com seus administradores nos dados de contato apresentados à Meta, mas não obtiveram retorno. Eles estão sediados na Guatemala e no Peru.
O perfil pagou 20 anúncios e veiculou conteúdo sintético sem rótulo informando se tratar de IA generativa —o que viola a legislação brasileira. Um dos vídeos mostra Flávio Bolsonaro e o presidente argentino Javier Milei como homens musculosos e Lula e a primeira-dama Janja carregando sacolas de marcas de luxo enquanto caminham por Paris.
A página "Contra a Maré" pagou mais de R$ 140 mil em 90 dias em conteúdos que questionam se a família Bolsonaro é uma organização criminosa, o que confronta a proibição de uso de IA para ataque político e sem rótulo de conteúdo sintético.
Reportagem
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