Atriz veterana, Malu Galli estreia como cantora de MPB: 'Artista tem que se arriscar'

Quem acompanha de perto Malu Galli, de 54 anos, está vendo a atriz dando espaço para uma nova versão: a cantora. Ela sobe ao palco nesta terça-feira (13), na Casa de Francisca, em São Paulo, com um tributo a Luiz Melodia e ao disco “Maravilhas Contemporâneas”, que completa meio século. A temporada, que exigiu da agora vocalista uma imersão de corpo e alma, teve seus bastidores revelados com exclusividade para a Quem.
Para Malu, apesar de alguns olhares de surpresa pela nova caminhada, sua trajetória íntima já indicava a virada para o campo musical. "Essa relação é muito antiga. Desde a minha pré-adolescência eu sempre fui muito musical, sempre gostei muito de escutar música no meu quarto, era rata de sebo. Tinha uma coleção imensa de LP. Ouvia muito MPB, rock, soul music, jazz. Sempre fui uma pessoa com muita curiosidade musical, com muito ouvido", contou.
Aos 18, a relação que antes era só um flerte virou namoro sério. "Entrei para uma banda de amigos, a gente chegou a fazer alguns shows. E aí depois, no teatro, acabei sempre cantando nas peças que eu fazia. Sempre chegava uma hora que alguém dizia: ‘essa aí, agora vai ter música’. Então, sempre me senti bem cantando, sempre gostei. Mas nunca tinha pensado em fazer isso de uma forma tão ativa, só cantar, sem estar atrelado a nenhum personagem, a nenhuma peça".
Foi nesse contexto que a ideia do tributo ganhou forma, quando Malu, segundo ela, foi levada de forma arrebatadora a fazer acontecer. "Eu geralmente funciono muito assim, sabe? Tem uma ideia que vem, aí acabo ficando muito louca para fazer aquilo."
O que já se encaminhava ficou mais potente ao resgatar uma parceria de longa data com Rômulo Fróes, que já trabalhara com Malu no teatro como diretor musical. Juntos, passaram cinco dias imersos em estúdio, de onde saíram novos arranjos para as canções de Melodia. "A gente está com um trabalho que é uma homenagem, mas também é um trabalho autoral e original", explicou.
Questionada sobre a diferença entre a atriz e a cantora, Malu descreveu um processo de alternância de estados. De um lado, a experiência sólida da veterana, do outro, uma estreia quase de debutante. "A diferença é bastante, porque a cantora não tem um personagem por trás, ou na frente. Ela está ali despida mesmo. Sou eu e a minha relação com aquela música, com aquela banda, com a plateia", disse.
"Mas ao mesmo tempo, o fato de eu ser atriz há tantos anos me dá uma experiência de palco, me dá um lugar de estar à vontade. Tem um lado que é novidade, mas tem um lado que não é. Me sinto uma debutante por um lado e uma macaca velha de palco por outro. É meio doido."
É justamente essa dualidade que, para ela, torna tudo mais excitante. "A essa altura da minha vida, me lançar num desafio desses é muito positivo em todos os sentidos. Um desafio que me coloca de novo num lugar de não conforto, no sentido de estar ali me arriscando. E eu acho que o artista tem sempre que se arriscar, de uma forma ou de outra. É importante trabalhar no risco".
O show também carrega o lado nostálgico da fã de Luiz Melodia. "Sempre escutei muito. Acho ele um músico, um compositor extraordinário, originalíssimo, vanguarda. Ele fazia um tipo de som que naquela época os outros pares dele não faziam. Além de ser um virtuose, com uma voz inacreditavelmente bonita e um timbre inconfundível. Sempre fui muito fã do Melodia".
E, sim, a atriz veterana também precisou passar pelo processo de aprendizado técnico para subir ao palco como cantora. "Estou me preparando para esse show já tem um tempo, trabalhando o repertório com Guilherme Borges, que é um preparador sensacional do Rio. A gente tem feito um trabalho bem aprofundado. Estou trabalhando a minha voz, claro, porque você tem que ter domínio, usar essas ferramentas. Não adianta só ser afinada", contou.
E como as comparações são inevitáveis, Malu conta que já encontrou seu antídoto, rejeitando qualquer expectativa. "Comparação com Melodia é impossível. Como é que eu vou me comparar? Claro que eu não vou fazer nada nem parecido, nem que nascesse três vezes. Sou eu com a minha voz cantando aquelas músicas. Não tem essa coisa de comparação".
A nova fase, apesar de ser carregada de desafios e renúncias, não vem para substituir a atriz já consolidada, que também está imersa em projetos de atuação. "Está sendo bem puxado [risos]. Estou ensaiando uma peça, me preparando para começar um filme. Mas separei 20 dias na minha agenda de dedicação total ao show, com os músicos. Dá para conciliar. Estou exausta, mas dá. Quando é um projeto que você tem muito amor, uma coisa que você tem muito apreço, você dá um jeito de encaixar. Sempre dá".
Malu sobe ao palco da Casa de Francisca nesta terça-feira (13), às 21h30, após ter se apresentado no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto, e no Sesc Franca, no interior paulista, nas últimas semanas, dentro da programação do Festival Sesc 80 Anos.
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