Xi procura manter viva a imagem "do tipo certo de Mao"

Um chinês, porém, já falou publicamente sobre a sua experiência durante esse período. Xi Jinping sentiu o impacto da Revolução Cultural na pele. O seu pai, Xi Zhongxun, era um membro destacado do Partido que foi purgado pelo próprio Mao. Uma das suas irmãs enforcou-se, resultado da perseguição de que foi vítima.
O próprio Xi foi considerado um “inimigo de classe” e sujeito a uma sessão pública de humilhação, onde foi obrigado a adotar a posição do avião. A sua mãe, que assistia na audiência, gritou juntamente com os restantes “Abaixo Xi Jinping”, provavelmente demasiado assustada pelo que poderia acontecer se não o fizesse. Aos 15 anos, Xi foi enviado para viver com camponeses numa aldeia, onde morou numa gruta.
O Presidente chinês recorda essa experiência como algo que o fez amadurecer e, surpreendentemente, reforçar a sua fé no Partido. “Quando cheguei aos 15 anos, estava ansioso e confuso. Quando saí, aos 22, os meus objetivos de vida estavam firmes e eu estava cheio de confiança.” Apesar da violência que viveu, foi precisamente essa experiência que o fez dedicar-se mais ao PCC: “Levou-o a duvidar, mas ele decidiu no entanto que só o Partido podia salvar a China”, resume Joseph Toringian, que é também autor do livro Os Interesses do Partido em Primeiro Lugar: A Vida de Xi Zhongxun, Pai de Xi Jinping (sem edição em português).
Kerry Brown explica como, contraintuitivamente, esse passado tornou Xi mais devoto de Mao Tsé-Tung: “Ele via Mao como misericordioso. Era uma figura quase divina, alguém que, apesar de tudo, poupou a sua família. Ele tentou juntar-se ao partido dez vezes e, à décima, teve sorte. Acho que Xi Jinping sente que era um pecador que foi poupado por Mao e que chegou ao poder por causa de Mao. É uma psicologia complexa.”
Deng Xiaoping cristalizou a posição do PCC face a Mao no início dos anos 80: “É verdade que o Camarada Mao Tsé-Tung cometeu erros graves durante a Revolução Cultural, mas, analisando a globalidade da sua ação, os contributos que deu para a revolução chinesa superam em muito os erros cometidos. Os seus méritos são manifestamente superiores às suas falhas”. O Partido mede essa distribuição como tendo Mao acertado 70% e falhado 30%.
Com a chegada de Xi Jinping ao poder, esse jogo de elogio e crítica ao Grande Timoneiro tem sido repetido. “Não podemos adorá-los como deuses ou recusar às pessoas que apontem e corrijam esses erros só porque eles foram grandes”, já declarou o atual Presidente chinês sobre os líderes desse período. “Também não podemos repudiá-los totalmente e apagar os seus feitos históricos só porque cometeram erros.”
Um devoto do Partido como Xi entende que abrir a porta à crítica de Mao pode significar pôr em causa o próprio PCC. “Ele quer que as pessoas sofram pelo Partido. Quem quer uma vida com significado, deve juntar-se ao Partido”, nota Joseph Toringian. “E se se começar a falar dos erros colossais, quem é que se vai sacrificar por uma organização dessas?”
Por outro lado, também é perigoso alimentar a nostalgia por um líder socialista cujas ideias podem pôr em causa o sistema económico atual: “Xi reconhece os dois perigos. O perigo de [os chineses] se preocuparem demasiado com a ideologia e o perigo de não se preocuparem o suficiente com ela”, diz o académico.
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