Nas ruas, "ninguém vai esperar pelo apito da UNITA"

A crise de sucessão de João Lourenço abriu uma "janela de oportunidade" para retirar o MPLA do poder. Membros da sociedade civil ouvidos pelo Observador sonham com um resultado diferente de 2022.
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Quando, esta quinta-feira, João Lourenço subiu ao púlpito da Assembleia Nacional para o discurso do Estado da Nação, fê-lo pela última vez. A pouco menos de um ano de Angola ir a eleições, o Presidente encontra-se na reta final do segundo mandato, o último permitido pela Constituição, uma condicionante que força o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) a olhar para dentro, em busca de um herdeiro. Todavia, para muitos que se opõem ao regime, esta realidade abre uma “janela de oportunidade”.
“O MPLA nunca esteve tão fragmentado como está agora. Está desarticulado, os interesses internos estão totalmente desencontrados”, afirma ao Observador o ativista Hitler Samussuku, que nas últimas eleições figurou nas listas de candidatos a deputados da Frente Patriótica Unida, plataforma eleitoral liderada pela UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) . É de olhos fixos nessa “oportunidade”, que a oposição prepara a sua estratégia para as eleições agendadas para agosto do próximo ano. Ainda que a parte mais visível dessa preparação se faça ao nível dos partidos políticos, uma parte significativa desenrola-se ao nível da sociedade civil.
Isto porque, ao contrário do que aconteceu nas últimas eleições gerais, os movimentos de contestação social estão cada vez mais independentes dos partidos políticos — em particular da UNITA, liderada por Adalberto Costa Júnior, que, em 2022, reclamou a vitória, desencadeando protestos nas ruas. Desta vez, acreditam ativistas e analistas ouvidos pelo Observador, uma fraude eleitoral por parte do Governo, que apontam como inevitável, terá uma resposta nas ruas que nem a UNITA será capaz de refrear. Em 2026, o povo angolano está “mentalizado” do que o aguarda em 2027 — e do papel que pode desempenhar para pôr fim a mais de cinco décadas do MPLA no poder.
▲ A Constituição impede João Lourenço de se recandidatar a Presidente
AMPE ROGERIO/EPA
Um MPLA fraturado e uma juventude sem medo. A “janela de oportunidade” para a mudança
Um dos momentos decisivos para o MPLA no caminho para as eleições será o 9.º Congresso, a realizar-se em dezembro, onde será eleita a nova direção do partido. Numa das conferências regionais de preparação para o evento, onde são elaboradas as listas de candidatos, foi deixado um apelo à introspeção: “A História dá-nos autoridade moral, mas não nos dá votos automáticos”, afirmou Carlos Maria Feijó, coordenador do Grupo de Acompanhamento do Bureau Político do MPLA, citado pelo jornal online Angola 24 horas, na província de Cunene, que destacou a necessidade de reorganização interna para reconquistar os votos angariados em 2022.
A autocrítica do líder regional, um momento raro do partido no poder, ilustra o “conflito interno” de um “partido profundamente fraturado”, como descreve Paula Roque — um conflito que não se limita, mas é particularmente evidente na sucessão de João Lourenço. A questão da sucessão já tinha emergido como tema eleitoral em 2017, quando José Eduardo dos Santos anunciou que não se iria recandidatar e essas memórias também servem de lição, argumenta a especialista em política angolana, doutorada pela Universidade de Oxford.
"João Lourenço fez uma coisa que poderá fazer ricochete. As pessoas conseguiram saborear um pequeno momento de liberdade e depois retiraram-lhes isso. As pessoas já não caem nessa. Já tiveram essa experiência e nada mudou, só piorou."
Paula Roque, especialista em política angolana, doutorada pela Universidade de Oxford
“João Lourenço fez uma coisa que poderá fazer ricochete”, aponta, referindo-se às promessas de mudança e às reformas que empreendeu no início do mandato e que mais tarde reverteu. “As pessoas conseguiram saborear um pequeno momento de liberdade e depois retiraram-lhes isso”, elabora. Por esse motivo, nenhum outro candidato escolhido pelo MPLA poderia ser bem-sucedido num cenário democrático, mesmo com uma campanha que rompesse com a linha de João Lourenço, acredita. “As pessoas já não caem nessa. Já tiveram essa experiência e nada mudou, só piorou”, conclui.
Esta posição dos eleitores é exacerbada pela realidade demográfica e social angolana: em 2024, a idade média no país era de 23,2 anos e 62% dos residentes tinham menos de 25 anos. A preponderância dos jovens na população angolana faz com que a maior parte dos eleitores não tenha recordações da guerra civil e da violência testemunhada pelas gerações mais velhas. Foi esse contexto “profundamente divisório” que permitiu ao MPLA, ao longo das últimas décadas, “capitalizar com o medo das pessoas” e manter-se no poder, argumenta Paula Roque.
Ora, para estas gerações mais novas, a atividade política é menos marcada pelo medo e mais pela desilusão da última década e das promessas de 2017 que ficaram por cumprir.
▲ Os ativistas angolanos referem-se às eleições como uma "fraude" e um "simulacro"
PAULO NOVAIS/LUSA
Novas leis aprovadas são “luta pela sobrevivência de uma fera ferida”
“Começámos com o jogo institucional, que é um jogo perdido. A lei não serve para nada, mas é a lei que temos de utilizar inicialmente”. A declaração, quase em tom de desabafo, serve de mote à intervenção do ativista Luaty Beirão num evento em Lisboa sobre a justiça eleitoral em Angola, no passado sábado. Há meia década que se dedica, através do movimento cívico que ajudou a fundar, o Mudei, a jogar esse “jogo”: apresentam propostas legislativas, recorrem aos tribunais quando as propostas não são apreciadas e dedicam-se à monitorização dos processos eleitorais.
“Há muita coisa que nós estamos a jogar na antecipação, mas estamos a obter justamente os resultados que esperaríamos — que são a antipatia, as portas institucionais fechadas, a demonstração de que as instituições estão capturadas, não funcionam ao serviço do povo e não estão a cumprir com as suas obrigações constitucionais”, elabora ao Observador, à margem do evento. Se Carlos Maria Feijó, o coordenador do MPLA, defendia que não há “votos automáticos”, os oradores do evento — entre os quais se contam Paula Roque — garantem que é precisamente isso que se verifica, com recurso a urnas clonadas com votos pré-definidos e manipulação de votos, tudo coordenado com a Indra, a empresa responsável pelos processos logísticos e tecnológicos nas eleições angolanas desde 2008. Neste contexto, os ativistas recusam caracterizar o que acontece em Angola como “eleições”, uma vez que o ato não é transparente ou justo. Antes, utilizam termos como “fraude”, “batota”, “simulação” ou “simulacro”.
▲ O ativista angolano Luaty Beirão procura mobilizar a sociedade civil através do movimento cívico "Mudei"
AMPE ROGÉRIO/LUSA
Não são apenas os movimentos de monitorização eleitoral, como o de Luaty Beirão, que procuram antecipar as eleições. Também o MPLA, sentindo os ventos de mudança, ajusta aquilo que os opositores classificam como “máquina de repressão”, com a aprovação de uma série de leis, como a chamada lei das fake news (que entrou em vigor em agosto), a lei da segurança nacional (que entrou em vigor em setembro de 2024) e ainda a lei das ONG (que entrou em vigor em março). Todas estas leis, alertam os especialistas e ativistas, podem ser instrumentalizadas contra a oposição num cenário pós-eleitoral semelhante ao de 2022.
“Com estas novas leis, o MPLA mostrou as suas verdadeiras cores de ser um regime autoritário. Estas leis são quase criminalizar a verdade. Tudo demonstra que estão com vontade de autoritarismo e, com isso, de violência”, acusa Paula Roque, em entrevista ao Observador. Hitler Samussuku, que também participou no evento, faz a mesma caracterização do Governo angolano, mas não se mostra surpreendido com esta reação mais agressiva à crescente sensibilização do povo angolano para a questão da justiça eleitoral.
“Geralmente em todos os regimes autoritários, [quando] estão nos seus últimos dias [a perder força], há repressão — os métodos de censura, de perseguição dos adversários. Angola está precisamente nessa fase. É como uma fera ferida que está a lutar pela sua própria sobrevivência”, considera o ativista.
"[A mobilização] vai requerer o esforço de todos os atores. A própria UNITA está bem consciente que se desta vez apelar ou não apelar, o povo sairá às ruas. Eu tenho plena certeza que desta vez ninguém vai esperar pelo apito ou pelo chamamento da UNITA ou do seu presidente."
Hitler Samussuku, ativista angolano
“O espírito da UNITA continua combativo” — mas a mobilização nas ruas transformou-se
Um mês depois das eleições gerais de 2022, reuniram-se nas ruas de Luanda milhares de pessoas. Respondendo ao apelo da UNITA, protestavam contra aquilo que diziam ter sido uma fraude eleitoral. Os sentimentos de desconfiança face ao processo eleitoral eram semelhantes aos que foram partilhados com a diáspora no encontro do passado sábado e os analistas descreviam a mesma tensão pré-eleitoral.
A grande diferença, passados cinco anos, está no facto de os protestos serem agora fruto de ação coletiva e não necessariamente da UNITA. Essa mobilização espontânea já ficou visível no último verão, quando o aumento do preço dos combustíveis motivou uma greve dos taxistas que evoluiu para um protesto generalizado sobre o aumento do custo de vida. Em três dias de tumultos, a polícia registou 30 mortos e 277 feridos. Na expectativa para as eleições de 2027, as pessoas ouvidas pelo Observador mencionam mais o protesto do ano passado do que as manifestações de 2022.
“Vai requerer o esforço de todos os atores. A própria UNITA está bem consciente que, se desta vez apelar ou não apelar, o povo sairá às ruas. Eu tenho plena certeza que desta vez ninguém vai esperar pelo apito ou pelo chamamento da UNITA ou do seu presidente”, pondera Hitler Samussuku. Luaty Beirão — ao lado de quem Samussuku foi a tribunal no mediático caso dos 17 ativistas angolanos julgados em 2015 — vai mais longe e defende um afastamento deliberado por parte do movimento cívico Mudei da UNITA, citando a falta de maturação da sociedade civil.
▲ A greve dos taxistas, em julho de 2025, evoluiu para protestos generalizados — e violentos
AMPE ROGERIO/LUSA
“Estamos muito desestruturados. A nossa melhor aposta é fortalecer a sociedade civil e fazer com que esta perceba que a cidadania está acima de qualquer inclinação partidária”, argumenta, ainda que recuse o título de “estratega”. Para além da divisão entre partidos e movimentos cívicos, Luaty Beirão cita ainda a divisão dentro das forças da oposição, que debatem ainda a possibilidade de ir novamente a eleições numa frente unida. O ativista não recusa que, pelo menos em parte, o “ego” pese nestas lutas internas.
A analista Paula Roque reconhece que se instalou entre os ativistas da sociedade civil uma “desilusão” face aos partidos da oposição, mas desafia a análise declaradamente pessimista feita por Luaty Beirão. “A UNITA não só não perdeu eleitorado, como o ganhou, aliás. O espírito da UNITA continua combativo”, defende, acrescentando que esse espírito se deve traduzir numa estratégia diferente, que aposte numa contagem paralela em todo o país (e não só em algumas províncias) e pela defesa mais vincada do voto nas ruas. “Quem faz a mesma coisa, pensando que vai obter um resultado diferente, não conhece estratégia — e a UNITA conhece”, antecipa. Ainda assim, a especialista antecipa o mesmo cenário que Hitler Samussuku: mesmo um apelo da UNITA à calma não tiraria os manifestantes, os movimentos cívicos, as organizações de juventude e os sindicatos das ruas.
▲ Um apelo à calma por Adalberto Costa Júnior não teria a mesma eficácia que em 2022
AMPE ROGÉRIO/LUSA
Escrutínio ao MPLA, solidariedade ao povo. A importância da atenção internacional
Na segunda quinzena de agosto do próximo ano, mais de 20 milhões de angolanos devem dirigir-se às urnas para eleger a próxima Assembleia Nacional. Mas antes das eleições em Angola, o continente africano vai ser palco de outras eleições relevantes: logo em janeiro, a Nigéria tem eleições gerais e no dia 10 de agosto é a vez do Quénia. A ida às urnas em duas potências regionais é, no entendimento dos especialistas, um evento importante para Angola.
Por um lado, a mobilização do povo nigeriano e queniano, que têm uma sociedade civil mais “madura”, “vibrante”, “ativa” e “vocal”, pode inspirar os cidadãos angolanos. Mas o Quénia e a Nigéria estão longe de ser as únicas potenciais inspirações. Entre conversas com ativistas, especialistas e intervenções no evento, os exemplos a seguir acumulam-se: Moçambique, Tanzânia, Uganda, Camarões, Zimbabué, Madagáscar. Para além de serem exemplos de inspiração, estes Estados africanos têm também um papel mais direto, de “solidariedade” para com Angola. A presença de Venâncio Mondlane, principal opositor político em Moçambique no evento da diáspora angolana e de um grande grupo de cidadãos moçambicanos é um reflexo desse sentimento.
"Nesta altura, não me parece que [as eleições em Angola] sejam uma coisa sexy o suficiente [para ganhar o interesse dos portugueses], quando há toda esta mortandade a acontecer no mundo."
Luaty Beirão, ativista angolano
Por outro lado, as eleições na Nigéria e no Quénia podem atrair atenções internacionais para o continente africano, o que colocaria o Governo angolano sob escrutínio. “Muitas pessoas ainda acreditam na ilusão que o MPLA está a vender há muito tempo de que Angola é um país estável que está a andar na direção correta. É importante desconstruir [esta ilusão]“, frisa Paula Roque.
Os dois ativistas ouvidos pelo Observador também procuram atenção internacional, mas o alvo é principalmente Portugal. Aliás, foi com esse propósito específico que contribuíram para o evento de sábado passado. Luaty Beirão não baixa os braços, mas procura ser “pragmático” na análise dos resultados obtidos: “Nesta altura, não me parece que [as eleições em Angola] sejam uma coisa sexy o suficiente [para ganhar o interesse dos portugueses], quando há toda esta mortandade a acontecer no mundo”, lamenta.
Hitler Samussuku também visa os portugueses, mas atira ainda mais alto, diretamente ao Governo, considerando que “os países europeus que colonizaram os países africanos ainda continuam a exercer uma certa influência”. O ativista aponta o encontro do ex-Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, com Adalberto Costa Júnior, líder da UNITA, em 2022, como um “dissuasor” da revolta popular e deseja que não se repita: “Exige-se de Portugal um posicionamento de neutralidade e também de transparência“.
[Annie conhece o ministro do Interior de Cuba há muito tempo, mas a paixão que os une é relativamente recente. É justamente nessa altura que Zé Manel, como ela lhe chama, vai ser implicado num dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro. O “Caso Ochoa” envolve droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Já pode ouvir o quinto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
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