Como as duas Acampadas lidam com proximidade dos jornalistas

Num momento, os manifestantes admitem que é a presença da comunicação social que lhes garante a própria “segurança” em relação a eventuais investidas da PSP; no momento seguinte, os jornalistas são impedidos de aceder com câmaras a algumas zonas da “acampada” porque isso compromete a imagem de quem há dias se instalou numa das principais praças de Lisboa para defender o acesso à Habitação. O ambiente nas manifestações oscila entre a gratidão e a rejeição, entre a abertura e alguma animosidade — há regras restritivas aprovadas em “Assembleia”, de braço no ar, e conversas interrompidas a meio por indicação de outros manifestantes. Nas acampadas de Lisboa e Porto, a relação com a comunicação social é tudo menos linear.
“Aqui não, não podes fotografar”. A mensagem, em tom agressivo, é deixada a uma fotojornalista do Observador que já esta segunda-feira à noite retratava, no meio das tendas, a Acampada montada desde sábado na praça D. Pedro IV, no Rossio. Quando se aproximava de uma zona central do espaço, para fotografar alguns objetos — como garrafas e cartazes —, foi avisada que não poderia estar ali.
Horas antes, os participantes na Acampada de Lisboa tinham deliberado, em Assembleia Popular, a restrição da circulação de jornalistas na zona das tendas, por uma questão de “privacidade” e para proteger “pessoas mais vulneráveis” tanto a nível psicológico como laboral, explicou a organização. No Porto, não foi votada qualquer proposta nesse sentido, embora alguns jornalistas no local tenham também sido avisados de que não poderiam estar na zona das tendas enquanto decorria aquilo que a organização classificou como “uma reunião privada”.
Em Lisboa, os participantes da Acampada têm feito notar aos jornalistas, esta segunda-feira, que não podem filmar nem fotografar a zona das tendas. Tanto os jornalistas do Observador no local como jornalistas de outros órgãos de comunicação social, sobretudo televisões, receberam o alerta. À jornalista e ao repórter de imagem de uma televisão foi pedido, “amigavelmente”, que não estivessem na zona das tendas. À fotojornalista do Observador foi dito que poderia fotografar à vontade, mas apenas se fosse “para a zona dos media”, ou seja, fora do perímetro das tendas e numa zona da praça ocupada que tinha sido previamente definida pelos manifestantes numa votação feita de braço no ar. “Foi o que ficou definido e é preciso cumprir”, explicava uma das participantes.
Contactos mínimos entre participantes e jornalistas na zona das tendas
Uma outra jornalista do Observador, que cobriu a manifestação durante esta segunda-feira, viu o trabalho no terreno condicionado por duas vezes durante a tarde, enquanto falava com manifestantes que disseram estar disponíveis para prestarem declarações dentro da zona das tendas: alguns dos elementos que participavam do protesto fizeram sinal a outros manifestantes, quando estes prestavam declarações, para que parassem de o fazer; ao mesmo tempo, outros manifestantes interrompiam entrevistas, passando também a mensagem de que deviam evitar essas interações com a comunicação social.
Ao Observador, um dos porta-vozes da Acampada do Rossio, João Veloso, argumentaria que a decisão de restringir a circulação de jornalistas na zona das tendas foi tomada em Assembleia Popular depois de, alegadamente, várias televisões terem filmado, esta segunda-feira de manhã, manifestantes em situações vulneráveis, nomeadamente a nível psicológico e laboral. “O que aconteceu hoje de manhã foi que os jornalistas começaram a filmar pessoas que estavam a sair das tendas, muito em cima das pessoas. E isso desagradou a várias pessoas”, disse o porta-voz, acrescentando que, “durante a manhã, os jornalistas foram muito incisivos em filmar” a banca, ou seja, uma mesa montada pela organização que serve para dar informações aos manifestantes e recolher donativos.
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