Por que o México está desmilitarizando suas escolas

- Author, Daniel Pardo
- Role, Correspondente no México, BBC News Mundo
Published
Tempo de leitura: 10 min
"Boa tarde, meu comandante", saúdam os estudantes do Colégio Moderno Alarid, na Cidade do México, ao seu diretor, Óscar Lira — mesmo não devendo mais chamá-lo desta forma.
O pátio da escola é decorado com um mural com os símbolos nacionais mexicanos: a águia, a serpente e o cacto. Nele, um professor convoca os estudantes com outra expressão em vias de extinção, mas que ainda resiste.
"Cadetes, sentido!" Ele se corrige em seguida: "Discentes, sentido!"
Os estudantes começam o ano escolar com novos uniformes, sem estética militar. Eles formam filas, com postura firme, os braços retos para o lado e olhar fixo para frente.
O instrutor, agora chamado de "prefeito", ordena que eles descansem. Os alunos, então, deslocam o pé esquerdo para receber as instruções de rotina.
"O militarismo faz parte da nossa história, mas acabou", afirma Lira.
Ele se refere a uma recente ordem do governo da presidente do México, Claudia Sheinbaum, de desmilitarizar as escolas inspiradas nos valores, na ornamentação e nos métodos do universo militar.
"O colégio, em profundo respeito a suas autoridades, acatou a situação de que, no México, não existe mais o modelo militarizado", explica o diretor. "E, a partir daí, passamos a nos reinventar, a nos reestruturar, a pegar o mais valioso... e continuar trabalhando."
Pule Mais lidas e continue lendo
Mais lidas
Fim do Mais lidas
Pule Promoção Agregador de pesquisas e continue lendo

Fim da Promoção Agregador de pesquisas
Óscar Lira é arquiteto e ex-aluno do colégio Alarid. Ele vem de uma família de militares e atende à reportagem em um escritório repleto de escudos, flâmulas e uma espada.
Dezenas de escolas mexicanas como o colégio Alarid (entre 20 e 50, segundo os registros, totalizando 10 mil a 20 mil estudantes) precisaram se reinventar nos últimos meses.
Em julho, a Secretaria da Educação Pública do México (SEP) ordenou a proibição das escolas militarizadas. O argumento foi que elas não contam com respaldo legal e que a educação militar é exclusiva das Forças Armadas.
A ordem conta com o apoio de Sheinbaum e foi emitida após a morte de Dafne Zapata, de 13 anos, em um acampamento de verão militar no Estado de Tamaulipas, no nordeste do México. A morte ocorreu por asfixia por submersão, segundo a autópsia.
O caso consternou o país. A família denuncia tortura e a promotoria investiga o caso como possível feminicídio. Três pessoas estão detidas.
O modelo militarizado mexicano chegou ao fim. Mas parece existir certa distância entre a teoria e a prática.
Na cultura mexicana, e não só nessas escolas, a liturgia militar está profundamente arraigada, perpetuando princípios e métodos do mundo militar.
Lira conta ter enfrentado "dias de profunda crise emocional".
Ele aceita eliminar a parafernália dos militares, mas espera "preservar os valores universais" que o mundo civil pode aprender com a ética militar: a honra, a disciplina, o sacrifício e o heroísmo, entre outros.

Defensores do modelo
As matrículas em muitas dessas escolas, incluindo o Alarid, caíram quase pela metade após a ordem da SEP. Algumas delas precisaram ser fechadas.
Em Puebla, na região centro-sul do México, fica a Academia Zaragoza. Mais de 50 pais de alunos se manifestaram bloqueando avenidas, aos gritos de "esta escola não se fecha".
A imprensa local noticiou que, segundo as famílias, a escola oferecia disciplina e valores, que não houve denúncias de maus tratos no local e que ela foi criminalizada injustamente devido a fatos ocorridos em outra instituição.
Em Zacatecas, no centro-norte do país, fica o Bacharelado Geral Militarizado, que é público. Nele, todos os instrutores militares foram substituídos por professores civis.
Os pais que protestaram qualificaram o novo modelo de "imposição". Para eles, sem a formação militar, optar por aquela escola perde o sentido.
Além disso, eles questionaram a substituição das matérias militares por educação financeira, esporte de alto rendimento e inteligência artificial.
Para muitos, escolher a educação militarizada faz parte do direito à livre expressão.
Uma pesquisa da consultoria Dinamic concluiu em julho que um terço dos mexicanos rejeita o fechamento em massa das escolas, mas pedem a realização de auditorias.
Dentre as pessoas consultadas, 27% apoiam o fechamento definitivo e quase a maioria dos restantes se mostra ambivalente.

Crédito, Getty Images
De militarizadas a militares
O caso de Dafne Zapata não foi o primeiro a consternar os mexicanos.
Em 2023, Zamir Pinto, de 16 anos, morreu no Colégio Militarizado Aztlán, no Estado do México, por diversos golpes violentos no estômago, segundo a necropsia. Uma pessoa está detida e a escola foi fechada.
Em 2025, Érick Terán Torbellín, de 13 anos, morreu em um acampamento da Academia Ollin, em Morelos, na região centro-sul do país. Uma instrutora teria arrastado o jovem no chão por 10 minutos e o agredido de forma violenta, segundo relatos dos seus colegas.
A entidade atribuiu a morte a uma "onda de calor". Três pessoas estão detidas.
Não existem registros oficiais que contabilizem os abusos ou mortes em escolas militarizadas. E, após terem permanecido por décadas em um limbo entre a supervisão civil e militar, as próprias escolas também não estão contabilizadas.
Existem mais informações sobre as escolas militares, que são os centros acadêmicos dependentes das Forças Armadas. São cerca de 40 instituições, com diferentes especialidades.
Estas escolas fazem parte dos ramos mais conceituados do mundo militar que, no México, registra os melhores índices de aceitação em comparação com outras instituições, incluindo a presidência do país.
No México, os militares são muito respeitados. E uma das suas instituições mais importantes é o Heroico Colégio Militar.
Criado no século 19, ele está localizado em um campus monumental de quase 400 hectares no sul da Cidade do México, desde 1976. Com imponente arquitetura brutalista, o colégio evoca os centros cerimoniais pré-hispânicos da Mesoamérica.
Dali, com alto nível acadêmico e complexos testes de admissão, saem os futuros comandantes do exército mexicano, que detém papel fundamental na política e, agora, na economia mexicana.
Mas também saíram do Heroico as denúncias de abusos mais chocantes da história recente do país. Trata-se dos famosos "trotes" para dar as boas-vindas aos "calouros" — principiantes que, segundo as crenças locais, seriam ineptos e precisariam de adestramento, como se fossem cavalos recém-nascidos.

Crédito, Gentileza Heroico
Santiago Sandoval frequentou um colégio militar. Ele foi protagonista do filme Heroico (2023), disponível na Amazon Prime Vídeo, que retrata os abusos, a corrupção e as sequelas psicológicas relatadas nessas instituições.
"Tenho amigos que tiveram os quadris fraturados, andam com placas, não conseguiram mais caminhar ou faleceram dentro do colégio", destaca ele, com a naturalidade de quem já repetiu o mesmo relato várias vezes. "Mas, para mim, o que mais me afetou foi psicologicamente."
"Você entra porque romantiza ou porque tem alta consideração pelos militares, que são aqueles que cuidam", ele conta.
Quando recebeu baixa, meses depois de apresentar o pedido, e conseguiu sair da escola, Sandoval ficou deprimido e tentou se suicidar "porque não encontrava meu lugar no meio civil", segundo ele.
O escritor e diretor de Heroico, David Zonana, relembra que o filme esteve para ser censurado em várias ocasiões. O então presidente do México, Andrés Manuel López Obrador (2018-2024), condenou a obra como parte de uma "campanha organizada" contra as Forças Armadas do país.
Alguns dos atores, a maioria sem formação na área de artes dramáticas, foram perseguidos e ameaçados.
"A cada seis meses, alguém me liga e diz: 'Veja, morreram alguns militares afogados porque estavam fazendo uma iniciação. Queremos conversar com você porque você fez este filme há três anos'... isso acontece a cada seis meses e a conversa é renovada", conta o cineasta.
O ex-cadete do Heroico Víctor Hernández Ojeda, hoje, é especialista em segurança.
Ele acrescenta que "a vigência destas práticas ocorre porque se acredita que elas formem o caráter. Mas é exatamente o contrário, segundo as evidências psiquiátricas."
"É uma deformação do caráter, as pessoas saem com estresse pós-traumático, hiper-reatividade e propensão à violência", afirma Hernández Ojeda.
Como era de se esperar, o filme desagradou grande parte do mundo militar.
No México, as Forças Armadas são uma instituição hermética, com seu próprio sistema judiciário. E, mesmo sendo acusadas de abusos contra os direitos humanos, elas contam com profunda aceitação no país.
Sobre as escolas militarizadas, as Forças Armadas alertam que se trata de entidades privadas, mas reconhecem que os abusos nelas cometidos prejudicam a imagem do Exército.
Os militares também reconhecem que a rigidez do adestramento faz parte de uma filosofia, um método, exigido pela adversidade inerente vivida pelas pessoas que vivem para defender.

'Sociedade militarizada'
Militares ou militarizadas, estas escolas existem em todo o mundo e têm um elemento em comum: sua pedagogia fundamentada em códigos de honra e disciplina consciente, que promove o autocontrole e a ética frente às adversidades.
A conduta militar defende que o espírito de equipe, a resiliência e a abnegação para subordinar o egoísmo pessoal ao bem-estar coletivo transformam a cultura do esforço em uma vocação de serviço cívico, orientada ao desenvolvimento da comunidade.
São estes conceitos que Óscar Lira, diretor do colégio Alarid, não quer perder com a desmilitarização decretada pela SEP.
"Uma escola que adaptasse bem o modelo retiraria o mais útil, o mais valioso, o que fosse aplicável para a educação, pois a honra é universal, a disciplina é universal e o sacrifício é universal."
Com os olhos abertos de emoção, Lira conclui que, "com este espírito heroico, o que buscamos é promover, não que você morra pelo México, mas que você viva pelo México".
A sociedade mexicana (e, consequentemente, seus sistemas e formas de educação) é marcada por um forte nacionalismo. Ele teve sua origem nas guerras travadas heroicamente pelo seu exército: a Independência (1810-1811) e a Revolução Mexicana (1910-1917).
O hino nacional do país deixa clara sua votação patriótica: "Mexicanos, ao grito de guerra [...] que o céu, em cada filho, te deu um soldado."

Crédito, Getty Images
Às segundas-feiras, por lei, todas as escolas do México devem homenagear os símbolos da pátria com cultos de inspiração militar, como escoltar a bandeira entre seis alunos ao som de uma banda de guerra.
Ao cantar o hino do seu país, o mexicano coloca sua mão firme sobre o coração, com a palma para baixo. O gesto é considerado civil, mas mantém a rigidez da disciplina militar.
A festa mais comemorada do ano, comparável apenas ao Dia de Finados e à festa da Virgem de Guadalupe, talvez seja o dia 16 de setembro, data da independência mexicana, quando cada município organiza um desfile cívico-militar.
Mais do que uma exibição de força, esta é uma festa familiar, em que a população tira fotos com tanques e soldados.

O antropólogo Joel Trujillo, estudioso das Forças Armadas, explica que "não é possível entender as escolas militarizadas sem o contexto do modelo educativo existente no México".
"O Estado moderno mexicano é o resultado do processo revolucionário", prossegue ele. "Foram 50 ou 70 anos de governos comandados por generais, que impuseram sua marca militar no sistema educativo."
"Não existe escola sem militarização. Até mesmo nas escolas particulares, você não deixa de homenagear a bandeira em meio à simbologia militar, às segundas-feiras."
Para Trujillo, "entre religião e militares, não há muita diferença. Você deve render homenagens iguais à bandeira e a Santo Inácio de Loyola."
"Vivemos em uma sociedade altamente militarizada e militarista em nível simbólico, cultural e social", conclui o antropólogo.
É por isso que, para os estudantes do colégio Alarid, é tão difícil deixar de dizer "meu comandante" para o seu diretor.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.



