CEO da Yara vê queda na demanda por fertilizante e na produção de alimentos
A redução do uso de fertilizantes em diferentes regiões agrícolas do mundo preocupa a Yara International. Segundo Svein Tore Holsether, CEO da companhia, a menor aplicação de nutrientes pelos agricultores, motivada principalmente pelos custos elevados, pode ter efeitos sobre a produtividade das lavouras no longo prazo e, consequentemente, sobre a produção global de alimentos.
Em entrevista a jornalistas brasileiros em evento da companhia na Holanda, Holsether afirmou que aproximadamente metade da produção de alimentos do mundo é resultado direto do uso de fertilizantes.
A preocupação, explicou o executivo, está no fato de que agricultores podem estar aplicando quantidades de nutrientes inferiores ao nível considerado adequado do ponto de vista agronômico. Embora os efeitos dessa redução possam não aparecer imediatamente, “se os agricultores estão em uma situação em que colocam menos do que o nível agronomicamente ideal em seus campos, isso terá uma consequência para a produção de alimentos tanto no curto quanto no longo prazo”, afirmou.
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O efeito dessa decisão sobre a produção agrícola, contudo, não é necessariamente imediato, segundo o executivo. Segundo ele, determinados produtores podem adiar ou reduzir a aplicação de nutrientes por algum período sem observar uma queda proporcional na produção. No entanto, essa estratégia teria limites.
“Você pode atrasar a aplicação por um tempo, mas, eventualmente, isso vai aparecer e resultar em menores produtividades”, disse.
A resposta das lavouras depende também das condições climáticas e do tipo de nutriente utilizado. No longo prazo, porém, a companhia considera mais claro o risco de perda de produtividade caso a reposição de nutrientes permaneça abaixo do necessário.
Para o CEO, o cenário atual merece atenção justamente pela possibilidade de diferentes fatores se combinarem. Uma redução na aplicação de fertilizantes pode coincidir com condições climáticas adversas e, ao mesmo tempo, com interrupções ou encarecimento de matérias-primas e energia.
"Se tivermos uma combinação de condições climáticas severas, não colocar o tipo correto de fertilizante e talvez um El Niño mais forte, a combinação de tudo isso poderia ser bastante grave", disse.
A empresa, no entanto, evita projetar neste momento qual será o impacto sobre a produção mundial. "No curto prazo, é bastante desafiador ser muito exato", afirmou o executivo. Para ele, o principal ponto é acompanhar a evolução dos diferentes fatores que estão pressionando o sistema simultaneamente.
“Choques” na cadeia global
A sucessão de choques que atingiu o mercado de fertilizantes nos últimos meses expôs, na avaliação da Yara, a fragilidade das cadeias globais de alimentos.
"Este ano passamos por múltiplos choques em todo o sistema de alimentos, e isso ilustra como todo o sistema é frágil e como ele depende de determinados pontos para garantir o abastecimento", afirmou Tore Holsether.
Pressão sobre os custos dos produtores, redução no uso de nutrientes em alguns mercados, problemas de oferta de matérias-primas, energia mais cara e tensões geopolíticas passaram a atuar simultaneamente sobre um setor considerado estratégico para a produção agrícola, segundo o executivo.
O executivo destacou ainda aspectos geopolíticos, como o fechamento do Estreito de Ormuz. Além de ser uma rota estratégica para o comércio de energia, a passagem é relevante para o mercado internacional de fertilizantes. Segundo a Yara, cerca de 30% da ureia comercializada internacionalmente passa pelo estreito.
O impacto não se restringe à ureia. A região também influencia o mercado de enxofre, matéria-prima importante para a produção de fertilizantes fosfatados. Ao mesmo tempo, a elevação dos custos de energia afeta diretamente a indústria de fertilizantes, cuja produção é intensiva em energia.
O CEO, no entanto, destacou que a Yara teria uma espécie de vantagem competitiva em relação a outras companhias do setor por ter unidades fabris que não requerem enxofre para a quebra da rocha fosfática, o que “é útil no cenário atual”.
Segundo ele, no entanto, é impossível estimar quando a situação do segmento e da matéria-prima poderia melhorar. A estratégia, afirmou, está relacionada à criação de resiliência e à capacidade de lidar com as condições atuais. “É mais sobre criar resiliência e lidar com isso”, disse.
Brasil
A preocupação da companhia vai além do desempenho imediato das vendas de fertilizantes. Em América do Sul e América do Norte, a demanda vem caindo, enquanto na Europa permanece estável.
Segundo o executivo, o cenário brasileiro ganha importância adicional porque, embora o país reúna condições importantes para a produção de alimentos, como disponibilidade de terras agricultáveis, boas condições climáticas, sol e água, seus solos demandam reposição significativa de nutrientes para manter a produtividade.
Por isso, uma redução prolongada na quantidade adequada de nutrientes devolvida aos solos poderia, segundo o executivo, provocar impactos sobre a produtividade.
“Se continuar a situação em que a quantidade correta não é colocada de volta nos campos, isso terá um impacto sobre a produtividade”, afirmou.
Para a Yara, isso torna o mercado brasileiro particularmente sensível à evolução dos preços e à disponibilidade de fertilizantes.
Alta dos custos
Segundo o CEO, o principal fator por trás da redução do uso de fertilizantes é econômico. Os agricultores estão ajustando seus custos diante dos preços dos insumos e das condições de seus negócios. "Os agricultores também administram negócios. Então, precisam fazer o que é certo para o resultado final deles", afirmou.
A questão, segundo ele, envolve também uma dimensão de política agrícola. O executivo defende que governos considerem os efeitos de longo prazo de decisões que levem produtores a reduzir a aplicação de nutrientes, especialmente em um ambiente de maior volatilidade climática e de preços.
"Os formuladores de políticas [públicas] também têm um papel a desempenhar para apoiar os agricultores, tendo em mente o que potencialmente pode acontecer se não tivermos as produtividades adequadas em todo o mundo", disse.
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