IPCA+ segue com juro real alto. Vale investir por 10, 20 ou 30 anos?
Mesmo depois do recuo observado desde os picos de 2026, o Tesouro IPCA+ continua oferecendo juros reais em níveis pouco comuns. Para quem consegue manter o investimento por muitos anos, a possibilidade de contratar uma rentabilidade superior a 7% ao ano acima da inflação chama atenção. A dúvida é se vale aproveitar o momento para travar essa taxa por dez, 20 ou até 30 anos.
Nas taxas do Tesouro Direto da terça-feira, 29, os títulos indexados à inflação seguem oferecendo juro real acima de 7% ao ano nos vencimentos mais longos. Na referência mais recente, o Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2037 pagava IPCA + 7,55%, enquanto o 2045 oferecia IPCA + 7,35% e o 2060, IPCA + 7,22%.
Na avaliação do head de renda fixa da Suno Research, Guilherme Almeida, as taxas atuais continuam elevadas quando comparadas ao histórico dos títulos. Em seus cálculos, a média dos papéis IPCA+ estava recentemente entre 7,40% e 7,42% ao ano, ante uma média histórica de 5,71% desde 2005.
"Hoje a gente tem taxas historicamente bastante atrativas", disse o especialista, porém a decisão não pode ser tomada apenas olhando para a remuneração. O investidor precisa avaliar, principalmente, se terá condições de manter o título até o vencimento.
O especialista em investimentos no Sistema Ailos, Rodrigo Girolamo Belz, também considera o momento favorável. Ele vê que o investidor consegue garantir por muitos anos um ganho expressivo acima da inflação, embora juros elevados também reflitam uma percepção maior de risco no mercado.
Quanto mais longo, maior a oscilação
O ponto central está no prazo, já que alongar o vencimento permite manter a taxa real contratada por mais tempo e reduz o risco de reinvestimento caso os juros estejam menores quando chegar a hora de reaplicar o dinheiro. Em contrapartida, títulos mais longos tendem a oscilar muito mais antes do vencimento.
Belz destaca que "quanto maior o prazo maior a exposição às oscilações de mercado." Por isso, ele considera que títulos longos podem fazer sentido para objetivos como aposentadoria ou planejamento patrimonial, enquanto metas de médio prazo tendem a combinar melhor com vencimentos intermediários.
Almeida destaca que essa sensibilidade cresce de forma relevante conforme aumenta a duration do papel, medida que indica quanto o preço do título tende a reagir às mudanças nas taxas de juros. Movimentos de 100 pontos-base na curva podem provocar variações que vão de cerca de 8% nos títulos de menor duration a mais de 30% nos mais longos.
Isso significa que o investidor pode contratar uma boa taxa e, ainda assim, ver o valor do título cair bastante no extrato. A perda só se torna efetiva se houver venda antes do vencimento. Para quem permanece até o fim, a remuneração contratada é preservada, acrescida da correção pela inflação.
Dez anos pode oferecer mais equilíbrio
Os próprios níveis atuais de juros ajudam a explicar por que nem sempre faz sentido escolher o vencimento mais distante. Mario Leonetti, sócio-fundador da Private Investimentos, vê nos vencimentos intermediários uma combinação mais equilibrada.
"Os vencimentos intermediários, entre dez e 15 anos, apresentam hoje uma relação mais equilibrada entre a taxa contratada, o potencial de valorização e o risco de oscilação."Mario Leonetti, sócio-fundador da Private Investimentos
Isso não elimina o espaço para títulos de 20 ou 30 anos. Para quem tem um objetivo igualmente distante e consegue atravessar períodos de forte volatilidade sem precisar vender, travar uma taxa real acima de 7% por décadas pode reduzir o risco de reinvestimento, ou seja, a possibilidade de encontrar remunerações menores quando chegar a hora de reaplicar o dinheiro.
Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, chama atenção para esse risco, mas quem pode investir por mais tempo pode se beneficiar. "Para quem tem um horizonte longo, travar essa taxa por décadas garante esse patamar de retorno real independentemente de como o cenário político e fiscal evoluir."
O ideal, no entanto, é não concentrar toda a carteira nos vencimentos mais distantes. O especialista em investimentos da Nexgen Capital, João Pedro Moreno, defende a diversificação entre prazos para evitar tanto o excesso de liquidez quanto o alongamento excessivo da carteira.
O head de investimento da Ludo Capital, Mateus Hammes, também vê mais espaço nos vencimentos intermediários. Na avaliação dele, o núcleo da posição pode ficar entre 2032 e 2037, enquanto papéis de 2040 e 2045 podem ser usados para objetivos com horizonte semelhante.
Já os vencimentos de 2050 e 2060 fariam mais sentido como uma parcela menor da carteira, destinada a metas de longo prazo, como aposentadoria, conforme Hammes.
*Este texto não é uma recomendação de investimento da EXAME, apenas trás análises de mercado.
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