Noá Bonoba define protagonista em ‘Morte e Vida Madalena’ como ‘presente para uma atriz’

Morte e Vida Madalena, longa dirigido por Guto Parente (Estranho Caminho) e produzido por Ticiana Augusto Lima (A Misteriosa Morte de Pérola), estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 17 de setembro, com Noá Bonoba como Madalena, uma produtora de cinema que atravessa o luto pela morte recente do pai enquanto enfrenta uma gravidez de oito meses e tenta manter de pé uma produção de ficção científica B marcada por uma sequência de problemas.
Para Noá, interpretar uma protagonista com tantas camadas foi uma oportunidade rara. Em conversa com a Rolling Stone Brasil, a atriz falou sobre a preparação para o papel, a experiência de assumir uma personagem central, a luta histórica por espaço para pessoas trans no cinema brasileiro e a maneira como a arte se relaciona com sua própria espiritualidade. Confira a seguir:
“É um presente para uma atriz”
Ao falar sobre o primeiro contato com Madalena, Noá não esconde a importância que a personagem teve em sua trajetória. A atriz recebeu o roteiro meses antes das filmagens e começou a construir a personagem ainda em outubro de 2024. Os ensaios aconteceram em fevereiro, antes das filmagens, iniciadas em abril.
O que encontrou no papel foi uma personagem capaz de transitar por diferentes registros. “A Madalena é uma personagem que cai no seu colo e que é um presente justamente por isso. É um presente para uma atriz porque tem todas essas possibilidades, de interpretação em momentos distintos”, afirmou.
Além das diferentes exigências dramáticas, havia outro significado importante: “Conseguir fazer antes dos 35 uma protagonista, para mim, foi um grande presente, porque a gente sabe o panorama no mercado de trabalho para pessoas trans que trabalham com atuação no nosso país”, afirmou.
Por isso, a atriz conta que encarou o trabalho com a consciência de que oportunidades como aquela ainda são escassas. “Sempre parece que é o último trabalho”, contou. A percepção não era apenas uma preocupação abstrata. Segundo Noá, desde a realização de Morte e Vida Madalena, ela não recebeu outro convite para atuar em um longa-metragem.

Cinema também é profissão
Uma das coisas que mais interessaram Noá na personagem foi justamente o fato de Madalena ser uma profissional do cinema. Em vez de transformar a atividade cinematográfica apenas em pano de fundo, o filme mostra os mecanismos de um trabalho que costuma ser invisível para o público.
“É um filme sobre uma profissão, poderia ser qualquer outra profissão. Um filme que apresenta para o público uma profissão, apresenta para o público que o cinema é um lugar de trabalho, assim como qualquer outro”, afirmou.
“Foi um estudo bem profundo e eu tentei fazer um trabalho no máximo da minha excelência e entregar tudo que eu podia naquele momento”, explicou.

A luta que veio antes
Ao falar sobre sua relação com as ancestrais, Noá amplia a conversa para além da própria carreira. Para ela, ocupar aquele espaço no cinema brasileiro não pode ser separado das lutas travadas por outras pessoas trans antes dela.
“Se hoje estou aqui, tem a ver com toda uma luta histórica. Não tem como um corpo como o meu existir sem saber de onde, como é que eu vim parar aqui”, disse.
A atriz relaciona sua presença em Morte e Vida Madalena a um movimento político iniciado em 2015, liderado por Renata Carvalho e outras pessoas do Coletivo T, que passou a reivindicar que personagens trans fossem interpretados por pessoas trans. A discussão sobre o chamado transfake também ajudou a colocar em debate o acesso de atores e atrizes trans ao mercado de trabalho.
“Se eu estou hoje fazendo esse filme é porque houve uma luta política. E antes disso já existia uma dificuldade de pessoas trans estarem dentro da linguagem do cinema, até mesmo na atuação”, explicou.
Para Noá, não se tratava apenas de discutir quem poderia interpretar determinado personagem. “Não é uma interdição. Na verdade, é um pedido para que a gente adentre o mercado de trabalho”, afirmou.

O que significou ser protagonista
A experiência de interpretar Madalena também modificou a maneira como Noá enxerga o próprio trabalho. Além de atuar, ela trabalha com produção, direção e preparação de elenco. Depois de viver uma protagonista, passou a compreender de outra forma o peso físico e mental que esse tipo de papel exige.
“Fazer uma protagonista é um desafio imenso e é uma carga, um horário de trabalho que eu ainda não tinha vivenciado”, explicou. “Tem muita essa ideia de que fazer uma protagonista é um luxo, é um glamour, e não é. É um trabalho extremamente exaustivo”, afirmou.
Noá conta que passou a prestar mais atenção a questões como preparação física, organização da rotina, cronograma de filmagem e desgaste emocional. “Deu um up no meu trabalho de preparação de elenco depois dessa protagonista, porque eu consigo dialogar melhor com os atores que vão ter essa jornada maior e com a própria produção”, contou.

“A arte é a minha espiritualidade”
A relação de Noá com a arte vai além da profissão. Ao ser perguntada sobre a ideia de fazer cinema como uma espécie de religião, presente nas declarações de Guto Parente, ela define sua própria relação com o trabalho de maneira diferente. “De uma forma muito não romântica, a arte é a minha espiritualidade”, afirmou.
Para ela, cada trabalho transforma quem participa dele. O corpo e a percepção são modificados a cada encontro com novas pessoas, processos e linguagens. “A gente nunca mais vai ser a mesma. Então, eu já entendo isso na vida mesmo”, explicou.
Noá relaciona essa experiência também à própria compreensão da transgeneridade. “É sempre estar se jogando no abismo. E a arte, todas as linguagens que eu me insiro, são sempre me jogar no abismo do desconhecido e me desafiar ao máximo, ao extremo”, afirmou.
Nesse sentido, sua espiritualidade está menos ligada a uma ideia abstrata de fé e mais ao movimento e à transformação. “Eu acredito que a espiritualidade é o trabalho. É o movimento, é gerar movimento, é estar em movimento pelo mundo”, disse.
Noá, porém, faz questão de afastar qualquer visão idealizada sobre o poder da arte. “A arte não tem poder nenhum de salvar o que está acontecendo no mundo hoje. Mas eu acho que o que ela pode fazer é esse encontro que é capaz de mover, de fato, muita coisa e transformar muita coisa dentro da gente”, explicou.
É justamente o caráter coletivo desses encontros que dá sentido à sua relação com a criação. Em um momento em que, segundo ela, está cada vez mais difícil reunir pessoas em torno de uma experiência comum, criar junto se torna um gesto de resistência.
“Quando a gente consegue se reunir para fundar um ato criativo, isso é a construção de uma espiritualidade. A gente está refundando o mundo”, afirmou. E é nessa ideia que Noá encontra sua própria definição de fé: continuar criando, se transformando e participando desses encontros. “Eu vivo para isso. Vivo por isso”, concluiu.
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