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Sunday, October 18, 2026

Como a deusa grega Afrodite se tornou uma das figuras mais controversas da história da arte

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    • Author, Matthew Wilson
    • Role, BBC Culture*
  • Published

  • Tempo de leitura: 8 min

A nudez de Afrodite (ou Vênus, como era conhecida pelos antigos romanos) provoca debates há séculos.

Em 1880, o escritor Mark Twain (1835-1910), escandalizado, classificou Vênus de Urbino, de Ticiano (1534), como "a imagem mais repugnante, desprezível e obscena do mundo".

Em 1914, a sufragista Mary Richardson atacou Vênus ao Espelho (também conhecida como Vênus de Rokeby), de Diego Velázquez (1647-1651), com uma faca de açougueiro. Ela golpeou a tela pelo menos três vezes, em plena National Gallery, em Londres, no Reino Unido.

"Eu não gostava da maneira como os homens ficavam olhando para ela de boca aberta o dia inteiro", disse Richardson posteriormente, ao explicar um dos motivos do ataque.

A exposição Afrodite: A Criação de uma Deusa, aberta no Museu Ashmolean, em Oxford, também no Reino Unido, investiga a história da divindade e mostra como ela se tornou alvo de tantas controvérsias culturais.

O nascimento de Vênus

Existem duas versões sobre a origem de Afrodite: uma mitológica e outra histórica. Nenhuma delas dava sinais de que a deusa se tornaria uma figura tão controversa.

Segundo a mitologia grega, tudo começou quando o titã Cronos, pai de Zeus, castrou seu próprio pai, Urano, e lançou seus órgãos genitais ao mar. Da espuma que se formou na água surgiu Afrodite, já adulta.

A deusa deslizou sobre as ondas até a ilha de Chipre, onde flores brotaram milagrosamente do solo a cada passo que ela dava.

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A versão histórica da origem de Afrodite também começa no Chipre, onde ela surgiu como divindade por volta de 1200 a.C. Embora fosse uma novidade no conjunto de deuses cultuados na época, apresentava características aparentemente herdadas de deusas mais antigas do Oriente Médio, como Ishtar, Astarte e Hator.

"A sexualidade, o amor e a fertilidade eram suas principais características", explica Anja Ulbrich, curadora da exposição do Museu Ashmolean, à BBC. "Mas todas elas tinham mais de uma função."

O mesmo acontecia com Afrodite. No início, ela não era apenas a deusa do amor romântico, mas de todas as formas de amor físico e da procriação, tanto entre os seres humanos quanto entre animais e plantas.

A deusa também tinha outras facetas, talvez menos conhecidas. Ela participou da Guerra de Troia, e seu caráter guerreiro fez com que fosse cultuada pela marinha da Grécia Antiga.

Afrodite também pode ser considerada nada menos que a fundadora da civilização romana.

Um dos mitos conta que ela se envolveu com o príncipe troiano Anquises. O filho dos dois, Eneias, fugiu para a Itália após a queda de Troia. Segundo a tradição, seus descendentes teriam fundado a cidade de Roma.

Desde que surgiu no Chipre, por volta do século 13 a.C., Afrodite conquistou grande popularidade, e seu culto se espalhou por toda a Grécia Antiga.

O que explicava tamanho fascínio?

"A fertilidade, o amor e a procriação são questões universais para a humanidade, independentemente da cultura", afirma Ulbrich.

"Um dos nomes de Afrodite é Pandemos, a deusa de todo o povo. Ela não está ligada apenas aos guerreiros ou às mulheres. O amor afeta todas as pessoas e todas as coisas. Está presente em todos os aspectos da vida."

Uma nova forma de nudez

Escultura de mármore que retrata uma mulher nua tentando cobrir o corpo com as mãos

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A Afrodite de Cnido, de Praxíteles, se perdeu, mas cópias romanas posteriores, como a Vênus Capitolina, permitem ter uma ideia de como era a escultura original

Até então, a imagem de Afrodite não provocava grandes controvérsias. Durante séculos, os artistas a retrataram de maneira semelhante às outras deusas do Olimpo.

Nas primeiras representações, ela geralmente aparecia vestida e nunca nas poses provocantes que hoje associamos à sua imagem. Mas, por volta de 350 a.C., uma obra de arte mudou tudo.

A Afrodite de Cnido, de Praxíteles (cerca de 350 a.C.), foi a primeira escultura da Grécia Antiga a representar uma mulher completamente nua. Embora o original tenha se perdido, cópias romanas posteriores, como a Vênus Capitolina (160 a.C.), permitem ter uma boa ideia de sua aparência.

Antes de Praxíteles, apenas figuras masculinas eram representadas nuas.

"Exaltar a beleza física masculina por meio da nudez era uma prática comum desde os séculos 7 ou 6 a.C.", afirma Ulbrich, do Museu Ashmolean.

Praxíteles decidiu fazer o mesmo com a beleza do corpo feminino.

Mas a nudez de Afrodite era diferente. Um olhar mais atento revela uma diferença fundamental em relação às esculturas gregas de homens nus: a postura corporal.

Na obra de Praxíteles, Afrodite é surpreendida durante o banho. Parece tímida e vulnerável e tenta cobrir o corpo por pudor ou vergonha. Já os homens nus eram tradicionalmente retratados na arte grega em poses confiantes e heróicas.

"Isso se deve principalmente à maneira como ela aparece nos mitos, nos quais está constantemente tomando banho e cuidando de sua beleza física", explica Ulbrich.

Na escultura de Praxíteles, no entanto, as mãos de Afrodite ficam ligeiramente afastadas do corpo, permitindo que o observador contemple sua nudez de diferentes ângulos.

A obra convida o público a interagir com ela e recompensa a curiosidade sensual de quem a observa.

Essas inovações artísticas provocariam intensos debates nos séculos seguintes. A pose da escultura de Praxíteles ganhou até um nome: Vênus Pudica (Vênus recatada ou envergonhada).

A Afrodite de Cnido foi "revolucionária", afirma Ulbrich.

Antes de Praxíteles, Afrodite podia ser identificada nas esculturas por elementos como roupas, jóias e outros atributos. A partir de então, segundo Ulbrich, "a nudez passa a ocupar o centro das atenções".

É importante lembrar que o corpo nu é algo natural e não tem, por si só, nada de controverso.

O que tornou Afrodite tão provocante nos séculos seguintes não foi simplesmente sua nudez, mas a posição do corpo, concebida para despertar o desejo de quem a observava. Foi isso que a transformou em objeto de desejo sexual.

A escultura original de Praxíteles exerceu tamanha influência que foi reproduzida milhares de vezes por escultores romanos. A Vênus Capitolina é apenas uma das cópias mais conhecidas.

A Vênus Pudica inaugurou uma nova maneira de representar e contemplar o corpo feminino na arte. Essa visão se espalhou pelos territórios dominados pelo Império Romano, incluindo a Europa, o norte da África e o Oriente Médio.

O renascimento erótico de Afrodite

Em O Nascimento de Vênus, de Botticelli, a deusa aparece nua, com longos cabelos loiros. De pé sobre uma concha gigante que flutua na água, ela cobre a região íntima com os cabelos e um dos seios com a mão. Uma mulher se aproxima para cobri-la com um tecido vermelho, enquanto Éolo, abraçado a outra mulher, sopra em sua direção

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Afrodite voltou a ser retratada em diversas obras ao longo dos séculos, como O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli

Mas essa influência não ficou restrita à Antiguidade. Durante o Renascimento, os artistas passaram a buscar e reproduzir esculturas clássicas com mais empenho do que nos mil anos anteriores.

Entre as mais admiradas estavam as esculturas do tipo Vênus Pudica.

Assim, Afrodite, com sua nudez sedutora e ao mesmo tempo recatada, tal como concebida por Praxíteles, ressurgiu nas obras de Masaccio, Botticelli, Rafael e Ticiano, artistas que mais tarde se tornariam grandes nomes da história da arte.

Embora alguns artistas tenham adotado essa pose para retratar Afrodite, muitos a utilizaram para representar outras figuras femininas. Ela também inspirou a criação de novas poses baseadas no mesmo princípio: uma nudez marcada pelo pudor.

Com as sucessivas releituras da Vênus Pudica, a representação do corpo feminino como objeto passou a ocupar um lugar permanente no cânone da história da arte.

Rubens e Velázquez retomaram essa imagem no Barroco. No século 19, ela reapareceu nas obras de Cabanel e Manet e, no século 20, nas de Modigliani e Yves Klein.

A indignação de Mark Twain e Mary Richardson foi uma reação a essa longa tradição de erotização da imagem de Afrodite.

Ulbrich, do Museu Ashmolean, afirmou à BBC que a deusa foi retratada de muitas maneiras ao longo da história e que a escultura de Praxíteles não precisa ser considerada sua representação definitiva.

Uma das peças expostas no Museu Ashmolean, produzida em Northumberland, no Reino Unido, mostra Afrodite tomando banho.

Tão longe do Mediterrâneo, observa Ulbrich com um sorriso, a deusa "parece bastante incomodada com o frio".

Afrodite moderna

Beyoncé aparece sentada sobre uma concha gigante durante uma apresentação

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Em 2023, Beyoncé surgiu no palco dentro de uma concha gigante, usando um vestido decorado com desenhos de mãos inspirados na pose da Vênus Pudica

Mais recentemente, Afrodite passou a ser retratada de outras maneiras, sem seguir necessariamente o modelo de Praxíteles. Em algumas representações, tornou-se até um símbolo de empoderamento.

Em 2023, Beyoncé abriu um show surgindo no palco dentro de uma concha gigante. Ela usava um vestido decorado com desenhos de mãos que reproduziam a pose da Vênus Pudica.

Artistas como Björk, Lady Gaga, Kylie Minogue e o grupo Bananarama também compuseram músicas sobre a deusa.

Símbolo máximo da beleza e do poder de sedução, Afrodite vem sendo reinterpretada há 3.000 anos para refletir os desejos e as necessidades de diferentes públicos. E continua a ser reinventada, uma longevidade extraordinária para uma divindade da Grécia Antiga.

Também surpreende que uma única escultura, a Afrodite de Cnido, de Praxíteles, tenha influenciado tão profundamente nossa maneira de encarar a nudez.

Não há sinais de que a influência da deusa sobre a vida dos mortais esteja perto do fim, nem de que as controvérsias em torno de sua imagem vão desaparecer. A beleza e a maneira como é representada continuarão a despertar debates, acompanhando as mudanças de opinião da sociedade ao longo do tempo.

"Dependendo do contexto, as pessoas reduzem Afrodite àquilo de que precisam ou desejam", afirma Ulbrich. "Ela é muito versátil."

*Esta é uma adaptação para o português de uma matéria publicada pela BBC Culture (em inglês).

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