Bradesco vê crescimento de inadimplência generalizada, mas carteira protegida, diz CEO
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O banco Bradesco (BBDC4) prevê que a pressão sobre a inadimplência e o custo do crédito persistirá por mais tempo, afirmou o CEO Marcelo Noronha nesta sexta-feira, 23. No terceiro trimestre, o lucro recorrente subiu 14,6% em um ano, para R$ 7,1 bilhões, mas as provisões avançaram 24,3%, para R$ 10,6 bilhões. A inadimplência acima de 90 dias chegou a 4,6%.
O Bradesco (BBDC4) espera que a pressão sobre a inadimplência e o custo do crédito continue por um período mais longo, diante do comprometimento da renda das famílias, dos juros elevados e da desaceleração da economia. É que o avalia o CEO do banco, Marcelo Noronha. Em coletiva de imprensa nesta sexta-feira, 23, após a divulgação do balanço do 3° trimestre da instituição financeira, o executivo afirmou que, apesar do cenário mais difícil, está confiante na qualidade da carteira e na capacidade da instituição de manter a rentabilidade.
“Tem um macro pior. A previsão dos economistas é de um crescimento de [Produto Interno Bruto] PIB de 1% para 2027. Ainda não temos um guidance, nada disso, mas estou olhando para o macro, para o comprometimento de renda das famílias. Os dados remetem a um crescimento de inadimplência generalizada no mercado”, disse Noronha.
“De uma forma geral, para o mercado, não só para nós, há uma pressão no índice de inadimplência e tem pressão de crédito, sim”, afirmou.
O executivo ponderou, porém, que o perfil atual da carteira do Bradesco é mais conservador do que em ciclos anteriores, com maior participação de operações que contam com garantias. Entre elas estão os financiamentos imobiliários, de veículos e consignados, além de linhas com cobertura de fundos garantidores do governo federal, o FGI e o FGO.
“Quando você olha para as carteiras, vai ver que algumas organizações como a nossa têm um mix diferente do que se tinha anos atrás, que é um mix mais seguro”, disse.
O CEO também chamou atenção para o comportamento das operações garantidas por fundos públicos. Segundo o executivo, os atrasos dessas linhas podem pressionar o indicador de inadimplência acima de 90 dias, mas não necessariamente provocam um aumento proporcional no custo do crédito, já que parte das perdas é coberta pelas garantias.
“Então eu vejo um horizonte de maior pressão de crédito, de custo de crédito, de uma estrada de inadimplência um pouco maior, mas eu tenho uma segurança aqui de que a nossa carteira é uma carteira muito mais comprovada do que a do mercado, do sistema financeiro, como é divulgado pelo Banco Central”, afirmou.
Noronha acrescentou à imprensa que a piora dos indicadores não significa, necessariamente, que o banco deixará de gerar resultados suficientes para absorver as perdas. “Isso não significa que não se tenha lucro suficiente para pagar a inadimplência”, disse.
Provisões avançam mais que o lucro
O alerta do executivo ocorre após um trimestre no qual o Bradesco voltou a ampliar o lucro, mas também precisou reservar mais recursos para cobrir possíveis calotes. No balanço, divulgado na noite desta quinta, 22, o banco registrou lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões entre julho e setembro, alta de 14,6% em relação ao mesmo período de 2025 e de 0,8% na comparação com o trimestre anterior.
Mas as despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD) expandida somaram R$ 10,6 bilhões, avanço de 24,3% em um ano e de 6,6% ante o segundo trimestre. Enquanto o custo do crédito subiu de 3,5% para 3,7% entre os dois períodos.
A inadimplência acima de 90 dias chegou a 4,6% em setembro, ante 4,3% em junho e 4,1% um ano antes. A deterioração foi mais acentuada entre micro, pequenas e médias empresas, segmento em que o indicador passou de 3,7% para 4,9% em 12 meses.
Segundo o banco, cerca de metade do avanço trimestral da inadimplência veio de operações de capital de giro para pequenas e médias empresas com garantias de fundos do governo federal, como o FGI e o FGO. Também pesaram atrasos sazonais na carteira rural do Banco João Dias, ligado ao financiamento agrícola.
Na apresentação dos resultados, o diretor de Relações com Investidores do Bradesco, André Carvalho, afirmou que a instituição tem priorizado segmentos e modalidades de crédito com garantias e clientes de melhor classificação de risco, como vem sendo apontado pelo banco. Ao mesmo tempo, reduziu a exposição a linhas consideradas mais arriscadas, como o crédito pessoal sem garantia e o rotativo do cartão.
A carteira de crédito expandida do banco cresceu 11,1% em 12 meses, para R$ 1,15 trilhão. A estratégia, segundo a administração, é manter o crescimento sem abrir mão dos critérios de concessão.
“O nosso crescimento é principalmente em pessoa jurídica. Pessoa física, onde as questões de pressão de inadimplência, qualidade de ativos, estão um pouco mais pressionadas, a gente cresce em clientes com bons ratings, e mais na pessoa jurídica do que particularmente na física”, afirmou Carvalho.
CEO descarta mudança de estratégia e defende continuidade do lucro
A pressão sobre o crédito também levantou dúvidas sobre a sustentabilidade da recuperação do Bradesco. O banco completou 11 trimestres consecutivos de crescimento do lucro, mas enfrenta um ambiente de juros elevados e uma perspectiva de desaceleração econômica no país, segundo a cúpula da instituição financeira.
Questionado sobre o risco de o avanço dos resultados ser um “voo de galinha”, com uma expansão do crédito seguida de uma deterioração da inadimplência, Noronha afirmou que a instituição mantém a estratégia e que a composição da carteira mudou em relação aos ciclos anteriores.
“Às vezes temos alguns espasmos, isso não nos tira do nosso caminho. Aqui fazemos gestão. Quando você faz gestão, estratégia, não mudamos todo dia. Estamos seguindo com o nosso batidão”, disse.
O executivo citou a expansão da carteira e o desempenho das diferentes fontes de receita para defender a consistência dos resultados. Segundo Noronha, desde o fim de 2023, o banco ampliou a carteira em 31%, enquanto o custo do crédito, embora tenha aumentado no terceiro trimestre, permanece no mesmo patamar nominal daquele período.
“A nossa receita cresceu quase 30%, nosso passivo cresceu quase 30%, crescemos em todas as linhas de receita. E olha que não temos pouca linha. Estou falando do banco, das coligadas financeiras, das empresas de pagamentos e do grupo segurador de uma forma geral”, afirmou.
O CEO do banco disse que não trabalha com a perspectiva de interrupção do crescimento do lucro, embora o Bradesco ainda não tenha divulgado projeções para 2027.
“Ainda não estamos dando guidance para 2027, mas o nosso horizonte é continuar crescendo, sim. Temos uma expectativa de crescimento de receita e estamos crescendo em todas as linhas, temos mostrado tração. Então eu trabalho com expectativa de crescimento”, afirmou.
'Vento de popa, vento de proa'
Na sequência, o CEO reconheceu que a conjuntura econômica pode limitar o ritmo de expansão. Para explicar a diferença entre o desempenho do banco em ambientes mais ou menos favoráveis, recorreu a uma metáfora ligada à navegação.
“Se você estiver navegando no barco a motor, no barco a vela, e o vento, com aquele vento de popa, você vai mais rápido. Ele te empurra a uma determinada velocidade. Agora, se você pegar o vento de proa, aí você vai mais devagar”, disse.
“Dentro de um ambiente em que há um comprometimento de renda maior e, obviamente, endividamento das próprias empresas com esse nível de taxa de juro maior, a gente tem que ter mais cautela, então a gente anda mais devagar”, complementou.
O executivo acrescentou que um cenário de juros menores e crescimento econômico mais forte permitiria ao banco ampliar a concessão de crédito e o lucro.
“Se tivessemos o vento de popa, com a economia crescendo mais, a taxa de juro abaixo de 10%, podíamos estar crescendo 20% nossa carteira de crédito e entregando um lucro líquido talvez R$ 400 milhões, R$ 500 milhões a mais aqui agora. Por quê? Porque teria crescido mais no topo. Mas isso está fora do nosso controle”, disse.
Eleições não entram na estratégia, diz Noronha
O Bradesco também foi questionando sobre possíveis efeitos das propostas dos candidatos à Presidência sobre o mercado de crédito e sobre como uma eventual mudança no cenário político poderia afetar a estratégia do banco. Isso porque no debate entre os presidenciáveis Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), na Band, no domingo, 18, o senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, prometeu suspender por até um ano cobrança de dívidas de empresas e cidadãos.
Noronha, porém, evitou comentar sobre o tema e as eleições. “Eu prefiro não comentar aspectos de campanha eleitoral, até ninguém dizer depois que eu estou fazendo campanha. Sem comentários aqui. Respeito as opiniões divergentes, está tudo certo para mim”, afirmou.
Sobre a possibilidade de mudanças no cenário eleitoral alterarem as perspectivas para os juros, o executivo reforçou que a estratégia do banco permanece a mesma.
“Eu prefiro não entrar no mérito eleitoral. Então, para seguir uma linha lógica aqui, temos uma estratégia e continuamos com ela. O ambiente macro, como eu falei, você está dentro dele e navega com ele. Aspectos táticos você revisa todos os dias. Agora, a estratégia está dada, seguimos o nosso caminho”, disse.
Balanço foi antecipado
O balanço do terceiro trimestre inicialmente estava previsto para ser divulgado no dia 4 de novembro. Mas foi antecipado para quinta, segundo Noronha, por conta de um compromissos no exterior do CEO do banco na próxima semana, que o impediriam de participar da apresentação dos resultados na data original.
“Eu viajo para o exterior semana que vem. Íamos divulgar resultado dia 4 de novembro e aí eu chegaria aqui de volta no Brasil dia 3. Então era impossível fazer, porque uma empresa de capital aberto tem ritos. Temos de passar no conselho, aprovar as contas com base nos pareceres do conselho fiscal, tem comitê de auditoria, auditoria independente. Você debate o resultado no conselho, então seria inviável”, afirmou.
“Ou eu adiaria, nós adiaríamos, ou anteciparia. Então a opção foi antecipar aqui os resultados”, disse o CEO.
O resultado do terceiro trimestre manteve a sequência de crescimento do lucro do banco, mas também evidenciou o desafio de conciliar a expansão dos negócios com o aumento das perdas esperadas com crédito.
'Perguntas frequentes'
Por que o Bradesco espera maior pressão sobre a inadimplência? +
Segundo o CEO Marcelo Noronha, o comprometimento da renda das famílias, os juros elevados e a desaceleração da economia devem prolongar a pressão sobre a inadimplência e o custo do crédito. O executivo citou a previsão dos economistas de crescimento de 1% do PIB em 2027.
Qual foi o lucro do Bradesco no terceiro trimestre? +
O Bradesco registrou lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões entre julho e setembro, alta de 14,6% ante o mesmo período de 2025 e de 0,8% na comparação trimestral. Foi o 11º trimestre consecutivo de crescimento do lucro do banco.
Quanto aumentaram as provisões do Bradesco? +
As despesas com provisões para devedores duvidosos expandida somaram R$ 10,6 bilhões no terceiro trimestre, avanço de 24,3% em um ano e de 6,6% ante o trimestre anterior. O custo do crédito passou de 3,5% para 3,7%.
Qual é o índice de inadimplência do Bradesco? +
A inadimplência acima de 90 dias chegou a 4,6% em setembro, ante 4,3% em junho e 4,1% um ano antes. Entre micro, pequenas e médias empresas, o indicador subiu de 3,7% para 4,9% em 12 meses.
Por que os créditos garantidos podem elevar a inadimplência sem aumentar as perdas na mesma proporção? +
Segundo Marcelo Noronha, atrasos em operações cobertas por fundos públicos podem pressionar o índice de inadimplência acima de 90 dias, mas parte das perdas é absorvida pelas garantias. De acordo com o Bradesco, cerca de metade do aumento trimestral da inadimplência veio de linhas para pequenas e médias empresas garantidas pelo FGI e pelo FGO.
O Bradesco pretende mudar sua estratégia de crédito? +
Não. Marcelo Noronha afirmou que o Bradesco manterá sua estratégia, com uma carteira mais conservadora e maior participação de operações garantidas, enquanto André Carvalho, diretor de Relações com Investidores, disse que o banco prioriza clientes de melhor classificação de risco e reduz a exposição a linhas sem garantia.
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