Montenegro, o novo ombro amigo de Ronaldo

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Vamos à edição de domingo de Juventude na Rádio Observador. Hoje as notas de 0 a 20 são dadas pela Mafalda Pratas e também pelo Nuno Vinha. A condução desta edição de Juventude é contigo, Miguel Cordero.
Vamos falar nesta edição de um tema que se tornou transversal a todos os setores esta semana. É um tema que vai muito para lá do setor de origem, o desporto. Vamos falar de Cristiano Ronaldo, mas não só, vamos também falar de Pedro Sánchez e das manifestações que estão a decorrer em Espanha e naturalmente, há espaço também para falar de Brasil, que hoje tem a primeira volta das eleições presidenciais. Nuno, Mafalda, bem-vindos a esta edição. Eu vou começar por ti, Nuno, aqui em estúdio, por esta relação entre Luís Montenegro e o futebol. Eu quero recuar, por exemplo, para te lançar, ao que aconteceu na campanha de 2024, quando Montenegro foi questionado sobre qual era o clube que apoiava e, nessa resposta, esqueceu o clube que apoiou a vida toda e declarou-se como adepto da seleção nacional.
Olá a todos, em primeiro lugar. Sim, ele é adepto da seleção nacional. É tão adepto que ele até, aparentemente, está a tentar meter um pouco na vida da seleção nacional. Aqui o problema é o Luís pode telefonar ao Pedro, pode telefonar ao Jorge, pode telefonar ao Cristiano as vezes que ele quiser. Aqui é quando o primeiro-ministro telefona ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, ao selecionador nacional de futebol e ao jogador de futebol. Eu vou só dar aqui três casos de primeiros-ministros que se envolveram em questões. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, mediou o conflito entre os Estados Unidos e o Irão. O ministro indiano, Narendra Modi, esteve nos bastidores a tentar encontrar propostas entre a Ucrânia e a Rússia. E há uns anos, para quem se lembra, Olof Palme foi convidado pela ONU, foi chamado pela ONU para ser mediador especial para a guerra Irão-Iraque. O que eu acho que acontece aqui é o seguinte: é uma coisa curiosa também pensar, os primeiros-ministros, quando se metem nas coisas, é para resolver, é para ter a última palavra. Imaginemos um conflito laboral entre um sindicato e uma grande empresa. Se o primeiro-ministro se mete nesta coisa, é para resolver, é imediatamente chamado a mediar essa questão e a resolver e a responder por ela. E, portanto, a pergunta que nós temos que fazer é: já se passaram quatro dias e o primeiro-ministro ainda não resolveu o conflito entre Cristiano Ronaldo e a Federação Portuguesa de Futebol.
Mas achas que ele tentou resolver ou tentou inteirar-se?
Aqui a questão é inteirar-se. Tudo bem, há aqui uma coisa: é que nós ficamos a saber que houve esse telefonema, portanto alguém teve interesse em que se soubesse, nomeadamente. Eu acredito que pode ter vindo do próprio primeiro-ministro, do gabinete do primeiro-ministro. Saber-se que ele tentou inteirar-se desta coisa, porque isto é um tema que afeta e diz respeito a muitos portugueses. E claro que sim, é um tema importante para os portugueses, é um tema importante para a marca da Seleção Nacional, da Federação Portuguesa de Futebol. Até pode ser um tema importante para o mundial, mas inteirar-se de uma coisa, no caso de um primeiro-ministro, quanto a mim, é imediatamente tentar resolver, porque senão ele não iria perder aquilo que é o seu tempo precioso e o nosso tempo precioso como primeiro-ministro, para se afastar daqueles casos que dominam a nossa vida. A crise de custo de vida que nós temos, a questão da falta de produtividade, a questão da falta de competitividade das empresas portuguesas, essas reformas, ele não se pode desviar delas para se inteirar de uma coisa como: houve um jogador que se sentiu desrespeitado por não jogar 30 minutos de um jogo e bateu com a porta. É um jogador, é o maior símbolo do futebol nacional de sempre. Vamos ser claros, obviamente, ninguém está aqui para retirar isso, mas é um problema do Jorge Jesus e do Pedro Proença. A meu ver, é um problema dele, não é um problema do primeiro-ministro.
Mafalda, queres também falar sobre esta novela Cristiano Ronaldo, que inundou a atualidade desta semana?
Sim, e parte da minha nota é também para isso. Obviamente, eu concordo com o Nuno Vinha, que isto não é uma matéria para o primeiro-ministro se ocupar e tentar resolver. Obviamente, que não resolveu nada, porque não é uma matéria onde o primeiro-ministro tem o mínimo de capacidade, nem sequer jurisdição, digamos assim, para resolver questões futebolísticas da Seleção Nacional e da Federação Portuguesa de Futebol. Há aqui um pouco, e é principalmente essa a nota que eu quero dar, acho que a reação foi completamente desproporcional. Ou seja, eu percebo que sempre que há a saída de Cristiano Ronaldo, pelos anos todos que ele esteve na seleção, pelo fato de ser o melhor jogador português de todos os tempos, essas coisas todas iriam sempre causar uma grande consternação mediática, coletiva, etc, sobre a sua saída. E, obviamente, isso é agravado pelo modo como aconteceu. Mesmo que ele não saia agora, o que a meu ver seria errado, a federação também, e especialmente Jorge Jesus, acho que não deveria voltar atrás quando um jogador sai do treino desta maneira e abandona a seleção e os seus colegas desta maneira, e um capitão de seleção. Portanto, acho que uma pessoa deve ter consequências para os seus comportamentos ultra impulsivos como ele teve. Mas mesmo que ele ainda volte para a seleção, acho que todos já percebemos que será por muito pouco tempo e será para breve, até que não haja novamente algum choque, mesmo que um choque dentro de portas fechadas e, portanto, sem este aparato todo Mas ainda assim, eu acho que a reação foi completamente desproporcional. Nas televisões, nos jornais, não se falou de outra coisa nos últimos dias, desde quinta-feira, como se o país não tivesse problemas importantes, seja custo de vida, preço da energia, preços da habitação, o novo orçamento de Estado, política econômica para o próximo ano, os planos do governo, não sei, alguma coisa. O caso das gêmeas, que também surgiu recentemente. Há, obviamente, política internacional muito importante e eu não percebo como é que o país dá tanta importância a este caso, que é, no fundo, uma autêntica telenovela entre pessoas, obviamente, com muito dinheiro, não apenas Cristiano Ronaldo, mas todas as pessoas envolvidas. Parece-me que há aqui uma incapacidade de separar os erros. Apesar de muita gente, pelo que eu tenho percebido, estar do lado, digamos assim, de Jorge Jesus ou do lado da seleção nacional, no sentido em que reprova o comportamento que Cristiano Ronaldo teve, a verdade é que há ainda muita gente, e isso vê-se também nas televisões, a quantidade de pessoas e de comentadores a defender Cristiano Ronaldo e a exigir que é necessário ter respeito por Cristiano Ronaldo. Obviamente que uma pessoa tem respeito por toda a carreira dele, mas não tem que ter respeito por este ato específico, que foi um ato absolutamente, a meu ver, como eu já disse, impulsivo e nocivo para a equipa. Por acaso a equipa resistiu bem e teve uma boa performance contra a Dinamarca, mas isto não é um ato, digamos assim, de capitão de equipa. Qualquer pessoa que saísse assim do seu emprego, e de um emprego muito importante, muito high stakes, digamos assim, e tivesse uma situação de desfiliação, eu duvido muito que no dia seguinte voltasse como se nada se tivesse passado. Portanto, acho que também temos que ser profissionais. E as pessoas têm muita dificuldade também em separar esta ligação emocional a Cristiano Ronaldo e aos grandes jogadores da seleção, especialmente a Cristiano Ronaldo, como eu disse, das questões de gestão e questões financeiras da Federação Portuguesa de Futebol. E eu acho que deve haver mais essa separação, porque a Federação Portuguesa de Futebol também se aproveita disso, aproveita-se do fato de haver pouco escrutínio em relação a muitas das suas decisões, que são movidas por interesses financeiros e não pela qualidade desportiva da seleção nacional. E os portugueses acabam por desculpar, porque lá está, amam a sua seleção nacional e gostam muito dos jogadores, etc. Mas acho que devia haver mais escrutínio e mais capacidade crítica em relação não só a Cristiano Ronaldo, mas também, principalmente, à Federação Portuguesa de Futebol.
Ti, a tua nota vai para quem?
Sim, a minha nota, obviamente, vai para Cristiano Ronaldo, vai para a Federação Portuguesa de Futebol, mas vai também para o excesso. Acho que houve um excesso absoluto mediático deste caso nos últimos tempos. Não há razão para esta consternação tão grande. E, portanto, eu vou dar uma nota negativa, obviamente, vou dar um sete.
O teu caso é para Montenegro, nota?
É. Eu dei um nove quando ele foi ao mundial, ele e outras altas figuras do Estado, que eu continuo a achar que há aqui uma intromissão muito grande nesta emoção, que é uma emoção dos portugueses, mas os políticos querem fazer-se valer disso. Dou um oito hoje.
Muito bem, fica essa nota negativa, neste caso, para o primeiro-ministro. Vamos ao que se passa em Espanha. Mais um fim de semana de protestos, e os protestos que vão assumindo aqui uma dimensão brutal, principalmente em Madrid. Pedro Sánchez tem aqui um problema, Nuno Vinha?
Tem um problema, mas não é de agora. O problema dele é de há muito tempo. Tu sabes disso. Eu trabalhei em Espanha, na altura, conheci, lidei com o Pedro Sánchez na altura em que eu era jornalista e estava acompanhando a realidade. Eu lembro uma frase dele de março de 2015, isto é prévio às eleições: "Nós o que dizemos é que se há dinheiro para resgatar os bancos, tem de haver dinheiro para resgatar as famílias endividadas e as empresas em nome individual, que é os autônomos endividados. É esse o meu compromisso. Não haverá despejos em Espanha enquanto houver um governo socialista. É o meu compromisso." Este gênero de frase, a coligação e a forma como ele acabou mais tarde por formar governo com entidades e várias forças partidárias muito avessas até àquilo que eram as próprias linhas fundamentais e fundacionais do próprio PSOE. Na verdade, o que trazem é um problema muito grande que ele vai ter que lidar. Ele acaba por ter que agradar a várias entidades, organismos, sindicatos, forças, manifestações e emoções que lhe chegam. Este caso Mari Carmen é um caso sério e tem aqui alguma complexidade. Em primeiro lugar, estamos a falar de uma senhora de 87 anos que ia ser despejada de sua casa, que travou uma guerra e um conflito muito forte contra uma entidade que era a dona da casa dela. Havia uma regra, uma lei que não se podia aplicar no caso dela. Ela não deixou de pagar, não foi um caso de despejo por falta de pagamento, foi uma regra de dupla transmissão daquilo que era o contrato de arrendamento. Mas ainda assim, Pedro Sánchez acabou por pegar nisto, depois de oito anos em que podia ter, de fato, aprovado uma série de regulamentação a propósito disso, aprovar dois decretos vindos assim do nada. E o que acontece? O que acontece é que neste momento tem gente a continuar na rua a defender coisas como, eu vou só dizer qual é a principal linha vermelha do Sindicato das Inquilinas e dos Inquilinos: contratos indefinidos obrigatórios. Contratos sem termo, contratos de arrendamento obrigatórios sem termo. Em vez de ser cinco ou sete anos com condições, não, indefinidos. Segunda: congelamento e descida dos arrendamentos em 50%. Proibição dos despejos sem alternativa. Uma reforma radical do arrendamento por temporada, eles querem acabar com o arrendamento temporário e com aquilo que é o aluguer de quartos, porque consideram que isso é uma coisa que visa contornar aquilo que são os contratos de arrendamento, etc. É óbvio que quando nós estamos dispostos como governante, como primeiro-ministro, como presidente do governo, quando estamos dispostos a admitir uma série de reivindicações como benéficas, etc., e não estamos a resolver o problema base, e o problema base vai continuar a ser aquilo que é segurança do proprietário em pôr no mercado arrendamento e oferta, é isso que determina o preço, essencialmente. E depois, obviamente, com regras bem estabelecidas, bem definidas e bem aplicadas, e se for preciso dar aquilo que se chama uma castada nos proprietários que estão a desrespeitar, é isso mesmo que tem que acontecer. Mas quando se abre a porta a isto, temos pessoas nas ruas que já não lhes chega que o caso da Mari Carmen tenha sido resolvido a bem por parte da empresa, já não chega que exista proteção para o inquilino e proteção para o proprietário, agora querem outro tipo de coisas, cada vez mais. Aliás, a frase que se ouvia nas ruas em Madrid há pouco tempo é: se nós conseguimos resolver em oito dias o que o Pedro Sánchez não resolveu em oito anos. E portanto, isto vai acelerar. A minha nota é para Pedro Sánchez, porque a forma como ele tem gerido não só este caso, mas outros casos, e eu acho que é de uma forma algo populista, apesar de ele muitas vezes vir dizer isso em relação à extrema-direita espanhola, que também é, vamos ser claros.
Para sobreviver no atual quadro político em Espanha, por vezes ou algumas vezes dessa necessidade de populismo.
Mas há alternativas a sobreviver. Há alternativas a sobreviver dessa forma. Há uma forma dos partidos que são partidos tradicionais, com valores da social-democracia coerentes uns com os outros. Neste caso, o PSOE e o PP chegarem a um acordo. E será que isso vai acontecer em Portugal mais cedo ou mais tarde? Não sei, mas esse é o teste que é posto às lideranças dos partidos nessas alturas, que é: o que os senhores querem? Se vocês estão contra aquilo que são as raias, os extremistas, de um lado e de outro, com todo o seu discurso, que muitas vezes extravasa aquilo que são questões económicas, mas vai por questões até mesmo de direitos humanos, etc., têm uma boa opção. Vocês podem chegar a um acordo e podem abafar todos os extremismos sendo coerentes ao centro com aquilo que precisa de ser feito por um país. E Pedro Sánchez, quanto a mim, não passou nesse teste, mas isso é uma posição pessoal. Fez aquilo que precisava para aquele momento? Sim. Não sei, e este é o meu ponto de término deste comentário, eu não sei o que isso vai fazer ao PSOE também, porque o PSOE, tal como o PP, tem sido muito fustigado por casos de corrupção na imprensa espanhola. Não injustamente, tal como o PP, não foram injustos, estes também não são injustos, tudo aquilo que tem vindo a acontecer mesmo nas autonomias. E juntar a isso essa propensão de Pedro Sánchez de se unir a qualquer pequeno bloco, por muito que sejam partidos que resultaram do Bildu, o Junts, Esquerra Republicana Catalana, independentistas, ou seja, unir todo esse aglomerado de interesses muito conflituantes entre si, pode ter consequências também para aquilo que é a confiança dos espanhóis naquilo que é um partido supostamente estável e histórico como o PSOE.
Mafalda, esta crise de habitação ou crise nas políticas de habitação em Espanha pode ser a gota final neste governo? Podemos estar mesmo perante esse cenário de eleições?
Sim, podemos estar perante o cenário de eleições, mas é preciso relevar aqui que em Espanha, basicamente, a única forma de termos eleições antecipadas, neste momento, é se o próprio Pedro Sánchez as convocar. Por quê? Porque, ao contrário de Portugal, não há ninguém com a capacidade de dissolver a Assembleia da República ou o Congresso dos Deputados, neste caso. E a moção de censura em Espanha, a meu ver corretamente, também deveria haver em Portugal, e eu não percebo como é que em Portugal, por exemplo, nas últimas presidenciais, ninguém sugeriu este instrumento, que é um instrumento construtivo, que é todas as moções de censura têm que ser moções de não confiança construtiva. Isto é, quem quer chumbar ou censurar a queda de um governo, tem de ter uma maioria alternativa. E o que isto significa, neste caso, em Espanha? Que isto obviamente dá estabilidade num país fragmentado, dá estabilidade ao primeiro-ministro em funções. O que isto significa? Que a não ser que haja, os partidos, neste caso seriam os partidos, o Junts da Catalunha, que apesar de serem independentistas, são do ponto de vista económico, mais liberais, no sentido de serem mais ao centro, mais até centro-direita, e depois o Pene Ube e a Coligação Canária, que mais uma vez, sendo partidos regionais, são do ponto de vista Do ponto de vista económico e cultural, até mais também de centros de centro-direita, se eles decidissem abandonar a base legislativa do governo e passassem pra direita. E não há indicações de que isso venha a acontecer, porque em Espanha esta dimensão da política regional e territorial é muito importante e, portanto, eles não querem passar para o lado onde está principalmente o Vox, mais até do que o PP. E portanto, neste momento só há eleições se Pedro Sánchez assim o quiser. E Pedro Sánchez, parece-me, está a tentar perceber se pode ganhar com esta crise ou não. E eu passo a explicar. Esta crise de habitação, evidentemente, veio da situação de Mari Carmen, que é uma situação de uma só pessoa e eu considero sempre que estes casos não é o caso em si que suscita todo o protesto ou toda a situação. Não é um caso em si, no fundo é um pretexto para haver um símbolo ou uma gota d'água que faz com que uma certa demanda social generalizada ganhe ou não mais uma forma mais concreta, neste caso, em termos de protestos da habitação. É evidente que as pessoas que estão acampadas na Puerta del Sol não são representativas da população espanhola. Aliás, basta perceber o tipo de ativismo social que permite a uma pessoa estar acampada durante uma semana, não é obviamente a família espanhola média. E portanto, a maior parte das pessoas que lá estão são estudantes, são pessoas com profissões ligadas muitas vezes, por exemplo, à cultura, são pessoas, muitas delas, se calhar até ativistas profissionais, ligados a organizações não governamentais, essas coisas. Mas a questão aqui que me parece relevante e que Pedro Sánchez disse que iria pensar durante o fim de semana e que irá anunciar na segunda-feira se vai ou não convocar eleições, é perceber o que é que o país real acha em relação à questão da habitação e das políticas de habitação. É evidente que se Pedro Sánchez estivesse realmente interessado em resolver essa questão, já teria tomado medidas antes. Agora o que se está a pôr aqui é uma questão meramente tática, estratégica, que é o quê? Que é Pedro Sánchez está a pesar duas coisas. No fundo, ele só tem mais um ano no governo até às próximas eleições, vale a pena eu adiantar as eleições com a possibilidade de ter resultados eleitorais que são melhores do que aqueles que eu teria daqui a um ano.
Sim, se posicionar quase como vítima. Como já vimos, por exemplo, em Portugal.
Como vítima, porque os dois decretos chumbaram, portanto, havia um decreto mais radical que iria sempre chumbar, que é o tal decreto dos contratos indefinidos, mas havia também um decreto menos radical, mais pragmático, que também chumbou devido ao voto do Junts da Catalunha. E portanto, dado que os dois decretos chumbaram na sexta-feira e dado que parece grande parte da população espanhola tem uma posição ou está preocupada com a habitação, as sondagens demonstram que é uma das principais preocupações, qual é que é aqui a questão? É que se o tema das eleições não for a habitação, que é o que provavelmente irá acontecer daqui a um ano, os outros dois temas são a corrupção, em que o PSOE seria completamente prejudicado nas urnas, ou a imigração, que, por exemplo, com o caso recente de Ceuta, mas não só, e portanto, que mais uma vez iria prejudicar muitíssimo o PSOE. E portanto, o que eu acho, o cálculo que Pedro Sánchez está a fazer é: compensa eu ir a eleições agora e tornar as eleições num referendo sobre a habitação ou esperar um ano, ok, estou mais um ano no poder, e nós sabemos o quanto os políticos como Pedro Sánchez gostam de estar no poder, mas possivelmente ter uma derrota muito maior daqui a um ano.
Mafalda, temos que ir pra nota.
Exatamente, que me parece que ele está a fazer durante este fim de semana e é um cálculo meramente estratégico.
Dá a nota a Pedro Sánchez.
Exatamente, vou dar uma nota a Pedro Sánchez, que vou dar uma nota negativa, porque apesar de tudo, ele é um político estratega e não um político que está preocupado com políticas públicas, e foi assim desde o início, mas é um político que taticamente tende a ter decisões, por muito que nós não gostamos dele, tende a ter decisões com um grande faro tático, de sobrevivência política. Por isso é que ele até hoje ainda não foi deposto. E portanto, eu vou dar um oito com a expectativa de ver o que é que vai acontecer na segunda-feira.
Fica essa nota. Nunovinha, tua nota também e mais um ponto para concluir.
Eu também lhe dou oito, mas há aqui um ponto interessante na análise da Mafalda, que é se os espanhóis estão preocupados com a habitação. Eu diria que sim. Aqui a questão é de que lado é que eles estão, porque os dados do Banco de Portugal dizem que 70% dos espanhóis são proprietários de uma casa. E portanto, tal como em Portugal, é muito parecido, até um bocadinho mais em Espanha, se calhar, do que em Portugal. Portanto, eles estão preocupados como proprietários ou como inquilinos, ou estão a pensar nos seus filhos que podem vir a ser inquilinos porque não têm dinheiro pra comprar casa? É uma questão interessante, mas eu não tenho a certeza que os espanhóis estejam tão preocupados do ponto de vista só do inquilino e não como eles próprios como proprietários de um ativo, exatamente.
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