O golpismo de Bolsonaro faz vítimas até na própria direita


Até políticos da direita como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Valdemar Costa Neto vieram a público reconhecer o resultado das eleições de domingo. Alguns, como Silas Malafaia e o próprio presidente do PL, chegaram a criticar a postura de Flávio Bolsonaro, que fugiu do Brasil e escreveu uma carta tresloucada, autoproclamando-se presidente. Uma atitude golpista e de desrespeito ao processo eleitoral que lhe garantiu quase 60 milhões de votos e fez de seu partido a maior bancada do Congresso.
Na Bahia, porém, os eleitores ainda aguardam uma declaração pública do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), herdeiro político do carlismo, grupo fundado por seu avô, o ex-governador e ex-senador Antônio Carlos Magalhães.
ACM Neto deve estar envergonhado de ter mergulhado tão profundamente na onda bolsonarista. Derrotado mais uma vez na tentativa de conquistar o governo estadual, abandonou a disfarçada isenção e apostou suas fichas em Flávio Bolsonaro, talvez acreditando que essa aliança seria sua única chance de manter alguma relevância política.
Recebeu uma segunda derrota, talvez ainda mais amarga que a primeira.
Mesmo com o apoio de Neto e do prefeito de Salvador, Bruno Reis, Lula ampliou sua vantagem na Bahia. No primeiro turno, o presidente venceu Flávio Bolsonaro nas 19 zonas eleitorais de Salvador, com 65,26% dos votos contra 27,03% do adversário. No segundo, chegou a 73% dos votos válidos na capital.
Na Bahia, Lula alcançou 6.484.995 votos, 71,32%, um acréscimo de mais 820 mil votos em relação ao primeiro turno. Flávio cresceu pouco mais de 166 mil votos.
Ou seja, a adesão de ACM Neto e Bruno Reis ao bolsonarismo não impediu que Lula ampliasse sua votação. Foi uma escolha arriscada diante do histórico eleitoral baiano e da rejeição expressiva ao candidato apoiado pelos dois.
Mas a derrota eleitoral não é o único motivo para o silêncio de ACM Neto. No domingo, Salvador, Lauro de Freitas e Feira de Santana, cidades governadas pelo União Brasil, enfrentaram uma grave crise no transporte público. Vídeos, relatos e reclamações de eleitores que não conseguiam chegar aos locais de votação tomaram as redes sociais e a imprensa. O problema ganhou dimensão nacional e levou o STF, de forma inédita, a prorrogar o horário de votação.
A mobilização digital, impulsionada também pela militância de esquerda e pelo chamado Exército de Lula, articulado pelo deputado federal André Janones, ajudou a colocar o caos no transporte no centro do debate eleitoral.
O problema não se restringiu à Bahia. Outras cidades governadas por políticos de direita também enfrentaram dificuldades nos transportes. Em meio à onda vermelha que tomou as ruas e as redes no segundo turno, a falta de transporte atingiu justamente eleitores estimulados a exercer seu direito ao voto, inclusive muitos idosos.
ACM Neto também deveria se envergonhar de ter se associado a um movimento político que alimenta o ódio e a xenofobia contra nordestinos. Após o resultado, as redes sociais voltaram a ser palco de ofensas contra a população da região. É difícil conciliar essa postura com o discurso de quem afirma ter herdado do avô um amor incondicional pelo povo baiano.
O próprio Antônio Carlos Magalhães dificilmente embarcaria nessa aventura rumo à extrema direita bolsonarista. Em 2002, depois de ser reeleito senador pelo então PFL, ACM, o original, declarou voto em Lula no segundo turno contra José Serra, do PSDB. Justificou a escolha pelas propostas de erradicação da pobreza e combate às desigualdades regionais, justamente políticas que hoje são alvo de discursos xenofóbicos contra seus beneficiários.
O silêncio de ACM Neto chama atenção diante das atitudes de Flávio Bolsonaro após a eleição. A fuga, a recusa em respeitar o resultado e a postura golpista reforçam que seu projeto político está menos relacionado aos interesses do país do que à busca de proteção política e foro privilegiado diante das investigações que o cercam.
São muitos os casos que precisam ser esclarecidos, das suspeitas de rachadinha às investigações relacionadas a lavagem de dinheiro, corrupção, Banco Master e Daniel Vorcaro, além do financiamento do filme Dark Horse, da relação com o advogado Willer Tomaz e de outros negócios e operações financeiras, como bets de apostas e aquisição de ilha milionária.
Flávio precisava, sim, de um mandato para se preservar da Justiça. E ACM Neto, que também é alvo de investigações relacionados às operações Overclean e ao Master, escolheu se associar a esse projeto.
Ao fazer essa aposta, o ex-prefeito compromete um capital político que, mesmo sem ter conseguido conquistar o governo da Bahia, se consolidava em grandes cidades e na capital. Agora, enfrentará o desgaste provocado pelo apoio ao bolsonarismo e pela crise do transporte no dia da eleição.
A população está revoltada com a gestão municipal. Logo na segunda-feira, 25, estudantes ocuparam a Praça Municipal para pedir o impeachment de Bruno Reis, acusando-o de crime eleitoral. Vereadores da oposição também articulam a abertura de uma comissão de inquérito para apurar possíveis irregularidades. Nas redes sociais, o povo alerta que as eleições municipais estão próximas e que nada disso será esquecido.
A justificativa de que os ônibus não saíram das garagens porque sofreram ação de adesivagem por sindicalistas ligados à campanha petista é ridícula. Bastaria retirar os adesivos e liberar os veículos para as ruas, onde o povo os aguardavam por horas, nos pontos lotados, sob o sol e o calor soteropolitano.
Ao longo do dia e mesmo com as denúncias não se viu ação efetiva da prefeitura para resolver o caos. Sem a rede espontânea de solidariedade que ofereceu caronas, a situação poderia ter sido ainda pior.
A prefeitura já tinha motivos para prever o problema. No primeiro turno, a comunicadora Luciane Reis, colunista do portal Umbu, publicou o artigo "Votar também exige chegar: o custo invisível da democracia", alertando para as dificuldades de acesso aos locais de votação, por conta do transporte escasso aos domingos em Salvador.
Além da justiça eleitoral, as garagens receberam visita de políticos e de representantes do Procon e ouviram denúncias, que estão sendo investigadas, de que o cronograma montado pela Prefeitura e empresas de transporte, era o mesmo de um domingo normal, quando a frota é reduzida.
A Bahia registrou abstenção de 16,71%, abaixo da média nacional de 19,22%. O dado reforça a dimensão da mobilização eleitoral no estado, especialmente entre aqueles que não queriam ver o bolsonarismo novamente no comando do país. Os mais pobres, beneficiários de programas sociais e usuários do transporte público, estavam entre os grupos mais atingidos pelo negacionismo do governo Bolsonaro e pelo medo do prometido Tesouraço.
Cabe agora à Justiça investigar se o colapso do transporte foi resultado de uma ação deliberada e criminosa. O que já se sabe é que a falta de ônibus atingiu o direito ao voto e expôs mais uma das práticas antidemocráticas que o bolsonarismo disseminou pela política brasileira, contaminando partidos, governos e lideranças da direita.
O episódio mostrou que o bolsonarismo não prejudica apenas seus adversários. Ao tentar impor sua lógica autoritária, compromete também os projetos políticos de seus aliados.
ACM Neto escolheu abraçar esse movimento e viu encolher ainda mais o carlismo e a sua estatura no cenário político brasileiro. Devia, ao menos, vir a público se pronunciar, em respeito aos seus eleitores e ao legado familiar.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.