Luta interna agita Chega: chantagem e o perigo de Évora 2.0

União procura-se: do “triângulo mais criticado” ao “alvo a abater”
A união pedida por Ventura não tem reflexo nos corredores do Chega. Pelo contrário. Um pouco por todo o país falta calma entre os militantes, dirigentes e deputados. E as guerras internas estão ao rubro. Com base nas vitórias e derrotas nas eleições distritais, fazem-se contas aos delegados da Convenção e traçam-se cenários sobre a possibilidade de fazer mossa a oponentes.
Resta saber até onde é que os protagonistas das lutas internas estão disponíveis a ir quando têm consciência de que isso pode deixar Ventura em maus lençóis — não só porque o chumbo causaria danos internos (e pioraria o convívio no day after), mas também pela imagem que passaria para fora, numa altura em que o Chega ambiciona cada vez mais alcançar o Governo, à boleia das sondagens, e o líder se esforça para mostrar que o partido está pronto — dizer que está unido seria um enorme exagero.
Fontes ouvidas pelo Observador, desde militantes de base a altos dirigentes de norte a sul do país, apontam para um partido bastante mais dividido no pós-eleições distritais, em que vários deputados e dirigentes contrariaram as indicações de André Ventura e influenciaram as lutas internas. Há dois nomes que se destacam nas conversas: Pedro Pinto e Bruno Nunes. O secretário-geral do partido há muito que ganhou poder nas bases do Chega pela responsabilidade que tem na direção, desde logo através do trabalho feito em autárquicas, e Bruno Nunes tem vindo a consolidar apoio em distritos de peso para o Chega que podem ser relevantes na hora da decisão.
Tanto no partido como no grupo parlamentar alimentam-se teorias assentes em traições, ameaças e incontáveis mensagens com críticas e especulações. De um lado constrói-se a tese de que André Ventura está “mal rodeado” e “mal aconselhado”; do outro acredita-se que pode estar a ser construída uma alternativa à liderança e que o presidente do partido precisa de “proteção”. De ambos os lados sublinha-se uma certeza: “Não há Chega sem Ventura” — mas isto não é suficiente para que as lutas não existam num segundo plano.
Mas isso já não é suficiente para que André Ventura antecipe uma Convenção sem solavancos. Aos poucos, conta um deputado ao Observador, “muita gente afastou-se de Pedro Pinto”, que é visto externamente como um braço direito de Ventura — prova disso é o facto de ter substituído o líder do partido quando se sentiu mal em plena campanha eleitoral. Aliás, há uma frase dita numa dessas ações de campanha que aumentou o mal-estar em torno do líder parlamentar.
Pedro Pinto disse aquilo que o partido anda há anos a tentar transmitir — “O Chega, ao contrário do que muitos queriam passar, não é só a cara de André Ventura e o rosto de André Ventura. O Chega é um partido que está equilibrado, com futuro, e o partido que mais mobiliza em Portugal” —, mas a postura, num momento em que André Ventura estava numa cama de hospital, não agradou. “As imagens do Pedro Pinto depois de André Ventura se sentir mal em Odemira foram espalhadas por grupos internos e não caíram nada bem”, comenta uma fonte ao Observador, que considera que, naquela altura, “Pedro Pinto não devia estar a dar a entender que havia um plano B”.
Mas esse foi apenas um momento-chave. Nos meses seguintes, sentiu-se uma “mudança” dentro do Chega, com vários dirigentes a assumirem ao Observador que se afastaram do núcleo mais próximo do líder parlamentar por discordarem da forma como “tenta controlar o partido”. Além disso, há queixas sobre a forma como faz a gestão do próprio grupo parlamentar, desde a forma como se distribuem os tempos de quem fala — sendo que o Chega até é dos partidos em que se observam mais deputados a falar, como acontece em debates orçamentais — até à alegada “falta de reuniões” e organização. “Se não for o André Ventura a reunir por razões específicas, o líder parlamentar não o faz”, garante um deputado, sendo que o lamento é extensível em versões de outros parlamentares.
Pedro Pinto rejeita essa versão e, em declarações ao Observador, garante que “não se sente atacado” e que “não tem queixas do grupo parlamentar”. “Tenho sempre a porta aberta”, assegura, deixando claro que está disponível para ouvir todas as queixas e que estas não lhe chegam. Fonte próxima do líder parlamentar vai mais longe: “Se têm queixas que as façam. Se estão a falar nas costas só contribuem para piorar a situação.”
O descontentamento com Pedro Pinto propaga-se por outras pessoas do núcleo duro. O nome de Cristina Rodrigues, que nos corredores vai sendo apontado como uma possibilidade para André Ventura levar até à direção, começou por ser um problema dentro do partido por ter feito um percurso político no PAN, que em muitos casos defende valores opostos aos do Chega. Na altura houve até desfiliações quando o líder do partido a levou para o gabinete parlamentar.
De lá para cá, muito mudou. Cristina Rodrigues deixou rapidamente de ser uma mera assessora parlamentar. É o braço direito de Ventura em termos jurídicos e não há praticamente nada no trabalho parlamentar que não passe pelas mãos dela. Ascendeu rapidamente a deputada, lugar que já tinha ocupado quando foi eleita pelo PAN, tem um espaço de comentário fixo na televisão e não há como ignorar o poder que passou a ter dentro do partido — estando ou não na direção. A teoria de que Ventura pode levá-la até para esse órgão nacional não passa disso mesmo, de uma teoria, mas tendo em conta o percurso não seria surpreendente. Nos corredores garante-se que “o passado não está esquecido e que o nome não passaria”. Mas mesmo entre deputados que estranham o salto na carreira interna há uma certeza: “É uma trabalhadora nata.”
Acresce que, ao contrário do que se imaginava quando se filiou num partido tão distante daquele pelo qual entrou na Assembleia da República pela primeira vez, Cristina Rodrigues foi mesmo fazendo um caminho na vida interna e tem aumentado a influência principalmente junto dos jovens — o que é visto como uma tentativa de tentar “controlar o futuro”. Nas distritais, o vice-presidente da lista vencedora à distrital do Porto, Pedro Pinto Faria, com ligações ao grupo de extrema-direita Reconquista, publicou uma foto com a deputada do Chega e uma mensagem: “Há madrinhas que valem por muito.” A partir desse momento ficou claro que Cristina Rodrigues está cada vez mais próxima deste grupo de jovens que tem crescido no partido, tem apelado à “remigração” e, em entrevista à Vichyssoise, chegou a justificar que no Chega “não existe a censura que existe nos outros”. Agora, em declarações ao Observador, assegura que a tese que corre é mentira: “Apoio jovens e menos jovens no partido inteiro.”
Noutro dos vértices do “triângulo mais criticado” tem surgido o nome de Patrícia Carvalho. A ex-jornalista começou no Chega como assessora, foi-se tornando uma pessoa da confiança de André Ventura, entrou na direção nacional e alcançou o lugar de deputada. Mais do que isso, tem no partido uma função que a coloca numa posição sensível: é a responsável por toda a comunicação do Chega.
Em tempos, foi a cara da lei da rolha imposta aos deputados do partido. “Tem de passar tudo pela Patrícia”, iam repetindo os parlamentares contactados pelo Observador quando o Chega passou de um para 12 deputados. Nessa altura, Patrícia Carvalho era a assessora de comunicação e marcou presença numa reunião de deputados para implementar o novo modelo a seguir. A partir daquele momento, todos os deputados que falassem sem autorização estavam a desrespeitar as regras — o que resultou (e continua a resultar) em longas reuniões sobre fontes em off, com pressões a quem fala com a comunicação social sem autorização e onde se pretende descobrir quem diz o quê e a que jornalistas.
Além de queixas sobre a forma como tenta “controlar” os deputados, há acusações de que Patrícia Carvalho “cria problemas e alimenta teorias da conspiração sobre possíveis adversários de André Ventura”. A somar a isso, é uma das pessoas que têm sido associadas a lutas distritais.
Chega impõe lei da rolha aos deputados. Todo o contacto com os jornalistas passa pela assessoria
Do outro lado, Bruno Nunes é o “alvo a abater”. Durante muito tempo foi considerado uma persona non grata por muitos elementos do núcleo duro de Ventura e ainda há quem acredite que está a construir uma alternativa interna para, um dia, fazer frente ao presidente do Chega. Em 2024, foi o único deputado despromovido por André Ventura em comparação com as eleições anteriores. E, sabe o Observador, o tema foi discutido por membros da direção e houve pressão para que não fosse nas listas. À época, o Chega defendeu-se dizendo que o lugar era elegível, com base nas sondagens, e Bruno Nunes não só aceitou o sétimo lugar por Lisboa (quando tinha sido cabeça de lista por Setúbal em 2022) como conseguiu mesmo manter a cadeira na bancada.
Nos últimos meses, envolveu-se em lutas para as eleições internas — ainda que não tenha ido a votos —, tendo cantado vitória principalmente em Lisboa e Setúbal pela proximidade aos dois cabeças de lista. Deputados ouvidos pelo Observador consideram que Bruno Nunes acabou por sair beneficiado com o facto de vários dirigentes estarem de costas voltadas com Pedro Pinto. É como se “trocassem de equipa”, explica um alto dirigente, argumentando que tem havido uma tentativa de os descontentes se unirem para ganharem uma força que, por si só, pertenceria mais naturalmente ao líder parlamentar.
A “chantagem” que deixa Ventura em xeque
Apesar de deputados e dirigentes se sentirem desconfortáveis com algumas atitudes do “triângulo mais criticado”, a verdade é que Pedro Pinto, Cristina Rodrigues e Patrícia Carvalho são três das pessoas mais próximas de André Ventura.
E na próxima Convenção André Ventura pode ter de se deparar com a necessidade de fazer escolhas — e ser chamado a defender intransigentemente as suas convicções. O Observador sabe que há distritais com peso que se têm alinhado com o intuito de afastar pessoas próximas de André Ventura da direção, sendo que Pedro Pinto e Patrícia Carvalho são os nomes mais divisivos.
Tal como aconteceu em Évora, quando André Ventura só conseguiu dois terços dos votos da Convenção para eleger a direção à terceira tentativa e depois de ter chorado em palco, o presidente do partido volta a precisar desse número porque viu os novos estatutos chumbados. E o clima tem aquecido em várias distritais ao ponto de se estar a ponderar uma “reedição de Évora”. Dirigentes ouvidos por todo o país cenarizam a hipótese de André Ventura ter de “ceder” a alguns pedidos, “tendo em conta que os anticorpos têm vindo a crescer” na direção.
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