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Sunday, November 1, 2026

Seinfeld levou os amigos a um Coliseu sem surpresas

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“Têm todos a versão física do bilhete?”, pergunta um funcionário do Coliseu dos Recreios àqueles que se juntam às duas filas que se formam na entrada principal do edifício. Nas mãos dos recém-chegados aparecem folhas A4 impressas, quem não tomou essa iniciativa é encaminhado para a bilheteira, onde se disponibiliza a versão física dos ingressos. Depois da confirmação dos documentos, todos os espectadores são submetidos a uma inspeção, que pretende controlar a entrada no recinto de objetos considerados perigosos, como garrafas de água com tampa. Essas não entram e devem ser depositadas num caixote ali colocado.

Dentro da sala de espetáculos, o burburinho é poliglota — além do português e do inglês, ouvem-se dialetos irreconhecíveis. Um casal turco conspira na sua língua, ciente de que ninguém consegue entender o que dizem. Vieram a Lisboa de propósito para ver Jerry Seinfeld, aqui e na MEO Arena, onde atua a solo domingo à noite.

No palco, os adereços de sempre: um banco, onde repousa uma garrafa de água, e um microfone de pé, iluminado pelo feixe de um projetor pendurado no teto. A sala não está cheia — nem vai ficar, uma vez que uma porção dos lugares da plateia não foi vendida. Os preços dos bilhetes variavam entre os 130 euros na Segunda Plateia e os 300 nas cadeiras da Orquestra, sendo que os lugares nas bancadas e nos camarotes não foram sequer disponibilizados. “[O preço] equivale a vários dias de NOS Alive”, comenta um espectador (ainda que, no próximo ano, os passes de acesso ao festival custem 178 euros, para dois dias, e 210, para três). “Mas tu és super fã”, conclui, justificando o investimento, em conversa com um amigo. Apesar dos lugares vagos, o Coliseu parece razoavelmente preenchido, uma vez que a acústica do espaço amplifica a sensação de sala cheia.

Casamentos, parentalidade e as “coisas estúpidas” que as pessoas fazem

A música Theme of New York, New York, de Frank Sinatra, diminui de volume à medida que as luzes baixam. “Thank you, thank you! Obrigada! Olá!”: assim se apresenta Tom Papa, num atentado à língua portuguesa que, ainda assim, merece aplausos do público. O primeiro “amigo” de Seinfeld a subir ao palco é também um dos humoristas mais influenciados pelo gigante do humor norte-americano, com quem trabalhou noutros projetos — como o reality show de comédia protagonizado por Papa, The Marriage Ref, ou o filme A História de uma Abelha (2007), que coescreveu e Seinfeld dobrou.

Além de ser um aficionado por panificação artesanal, Papa também é adepto de uma comédia clean, que privilegia assuntos familiares, dispensa palavrões e discurso sobre violência ou sexo explícito. O humorista é conhecido por confecionar pão caseiro e criou um podcast que mistura comédia com o amor por carboidratos, intitulado Breaking Bread with Tom Papa (Partilhando o Pão com Tom Papa, que também referencia a série Breaking Bad).

De facto, nota-se uma elevada contenção ao nível dos temas tratados, acessíveis para a faixa etária dos 9 aos 99, e que cruzam atualidade — a praga Ozempic — com reflexões sobre a meia-idade e a vida familiar. A experiência de Papa é idêntica à dos comediantes que se seguem, pais de família aparentemente desinteressados e cansados das mulheres, que descrevem de forma pouco abonatória — apesar de as amarem “de morte”.

O casamento de 26 anos é anunciado com um orgulho contido (aplausos) antes de fazer uma apologia melosa do amor. Mas, chegada a hora, há que expulsar os filhos de casa. Se a crise da habitação for um problema — como sinaliza um membro da audiência, que talvez tenha a cabeça nos protestos do Rossio — o conselho de Papa é que sejam recambiados para outro lado qualquer. Afinal, “ninguém vos explica quão triste é fingir que se está triste [quando os miúdos saem de casa]. Eu não estou triste, de todo!”

George Wallace é o “best friend” número dois, mas que vem em primeiro lugar na lista onde figuram os amigos de facto de Seinfeld. Partilharam casa em Nova Iorque durante 13 anos, décadas antes do sucesso da sitcom, que tornou Jerry no comediante mais rico do mundo (a sua fortuna ultrapassa o milhar de milhão de euros), e da residência que fez de Wallace Mr. Vegas. Atuou dez anos seguidos na capital do Nevada, mas pouco importa: antes disso foi padrinho de casamento de Seinfeld — que deu o nó com Jessica Sklar em 1999 — e (reza a lenda que) é pai dos seus filhos.

Com 74 anos, Wallace é um veterano dos comedy clubs, que cativa com o seu tom insolente, queixoso e ligeiramente agressivo. “Compram bilhetes em desconto, recebem piadas de desconto”, avisa, ao perceber que o público pagou metade do preço que costumava cobrar em Las Vegas. Move-se com lentidão até chegar à boca de cena, onde permanece quase imóvel, porque a idade não perdoa. Mas se o corpo se ressente, a cabeça não: Wallace “be thinkin’”, isto é, tem pensado — em tudo e mais alguma coisa. A frase icónica que cunhou vem escrita na boina que traz enterrada na cabeça, e que casa com um blazer de cabedal e uma gravata colorida.

“As pessoas fazem coisas estúpidas”, é o mote de um set de stand-up em que Wallace repete todos os sítios onde esteve no dia anterior. E foram muitos: Kentucky, Xangai, Hong Kong, Chicago, Tóquio, Miami, Amesterdão e, para concluir, uma loja do IKEA. À medida que se somam cidades, estados e países, o público começa a entender o refrão, que surte efeito bem além da tradicional regra dos três. Daí, o comediante começa a ladrar insistentemente — e durante aquilo que parece ser meia hora. “Quero chatear-vos como aquele cão idiota me chateou”, explica, invocando um Chihuahua que teve o prazer de conhecer no avião.

Jim Gaffigan, por sua vez, declara-se um “pai medíocre”, que ama Portugal e “o fado” em específico. Conhece a palavra “saudade” e já leu a página da Wikipedia sobre o país, mas o esforço de pesquisa não compensa pelo segundo atentado à língua portuguesa — e que será renovado daí a meia hora, quando a estrela da noite subir ao palco. Como Tom Papa antes dele, reflete sobre banalidades, as atuais e as intemporais, o amor ao scrolling face ao desprezo dos laços de parentesco.

“Amo a minha família, mas acho que a amo mais quando estou longe dela”, compete com a possibilidade de não fazer nada, diante da qual “os anjos cantam”. Gaffigan é pai de cinco adolescentes e é justo dizer que faz um roast dos filhos, utilizando as armas que a própria Gen Z aponta às gerações mais velhas: a gíria que os adultos não costumam entender. Cospe palavras como rizz ou suss, evidência de que “há raras alegrias maiores para um pai do que chatear os filhos”. “Se os envergonhar, então, ganho a lotaria”.

“Se pensarmos sobre o caso, ter filhos é uma doença sexualmente transmissível”, explica o norte-americano, uma vez que os adolescentes são equiparáveis aos países menos diplomáticos do mundo. Rússia, China e Coreia do Norte são os exemplos elencados, “mas a piada tinha mais graça antes de começarmos a rebentar com o Irão”, afirma, numa explosão de risos que põe em causa a atual administração da Casa Branca.

Gaffigan participou no filme Unfrosted (A Batalha do Biscoito Pop-Tart, de 2024), onde contracenou com Jerry Seinfeld (que também realizou), além de Amy Schumer, Melissa McCarthy e Hugh Grant. A longa, produzida pela Netflix, é inspirada na rivalidade entre a Kellogg’s e a Post durante a década de 1960, que culminou na criação das Pop Tarts — o primeiro pastel de pequeno-almoço que pode ser aquecido na torradeira e que continua a ser comercializado nos EUA. O filme foi considerado “um dos piores da década” pelo Chicago Sun Times.

Sem alarmes e sem surpresas

O momento tão aguardado chegou, e Jerry Seinfeld toma o palco de calças de ganga, blazer cinzento e gravata preta, além de um par de sapatilhas brancas — que ficarão para sempre associadas à personagem que representava na série homónima. De resto, note-se a energia surpreendente com que toma as rédeas do espectáculo, numa demonstração de experiência e à-vontade que cativa o público e faz esquecer os 72 anos que já carrega às costas. Bem diferente de George Wallace, que tem 74, Seinfeld move-se com uma agilidade notável, gesticula e brinca com a entoação da voz, ora segura e límpida, ora esganiçada, rouca e aguda.

A expressividade é a chave para procurar a reação do público e tocar no nervo onde a punch-line não chega. Os temas repetem-se e, se a homogeneidade aborrece, o ato final consegue capitalizar anos de nostalgia e a admiração dos fãs, cultivada à distância. Na faixa etária dos 40-60, a audiência recorda a juventude plasmada naquela voz, no nariz alongado e nome sonante. É o comediante mais rico do mundo, mas também pensa nas consequências da Inteligência Artificial e vai de férias com a família e bebe café. E tem um jato privado, joga golfe e anda de jet ski em destinos paradisíacos — mas tem um casamento com problemas, como toda a gente.

“Os comediantes não são bom material para casamento, mas o casamento oferece ótimo material aos comediantes” é a justificação para uma conjuntura que, da forma como é descrita pelo humorista, soa ligeiramente opressiva. Na mesma senda dos antecessores, Seinfeld repete piadas gastas sobre a mulher, que parece inspirar menos excitação nele do que um copo de café — “o companheiro mais indispensável da vida humana”.

Sem nunca passar a linha do politicamente correto — que, de forma mais ou menos explícita, o comediante já criticou — Seinfeld mantém-se à margem de problemas. A audiência também é meiga com o humorista, e o espectáculo decorre sem nenhum dos confrontos ocorridos noutras situações. Depois dos cancelamentos acima relatados, seria de esperar algum tipo de levantamento de simpatizantes da causa palestiniana, o que não acontece, mesmo quando o comediante facilita um momento de perguntas do público.

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