De olho em 2028, J. D. Vance aproveita holofotes na convenção de Trump
Os republicanos desembarcaram em peso em Dallas nesta semana com o objetivo declarado de ajudar seus candidatos a vencer as eleições de meio de mandato em um cenário político difícil.
Mas, para o vice-presidente J. D. Vance, o momento representou uma excelente oportunidade pessoal para um ambicioso vice. Ao subir ao palco na noite de quinta-feira (10) para fazer o discurso principal, Vance não fez nenhum esforço para esconder o quanto apreciava os holofotes.
"Tenho que dizer que é muito legal ouvir uma multidão tão empolgada gritar o seu nome", disse o vice-presidente, enquanto apoiadores entoavam suas iniciais, J. D. "Podem fazer isso de novo."
O incomum encontro de dois dias de candidatos republicanos, ativistas e superfãs do Maga (Make America Great Again) em Dallas foi concebido para manter as atenções totalmente voltadas ao presidente Donald Trump. Ele exigiu que o partido financiasse e organizasse o evento, e um orador após o outro o cobriu de elogios. O presidente pediu aos participantes que "finjam que estou na cédula" e os conduziu em um juramento de lealdade a ele próprio.
Mas, por trás dos balões e das roupas do Maga adornadas com pedrarias, os republicanos discutiam o futuro do partido quando Trump deixar de ser seu líder. No centro dessas conversas está a questão de saber se uma sigla desmontada e refeita à imagem de Trump transferirá seu apoio ao vice-presidente, que já demonstrou interesse em concorrer para sucedê-lo.
De sua parte, Vance tomou na quinta-feira algumas de suas medidas mais concretas para tentar se posicionar como herdeiro da fiel base de Trump.
Em seu discurso, Vance evitou a maioria das questões mais espinhosas que vêm prejudicando seu partido. Fez apenas uma referência indireta à guerra com o Irã. Não mencionou as tarifas que agravaram as preocupações econômicas dos eleitores nem abordou a aposta de Trump de dar US$ 5.000 (R$ 25.571) aos eleitores caso os republicanos mantenham o controle do Congresso.
Em vez disso, Vance deu grande ênfase à própria história pessoal, falando mais sobre a esposa do que sobre qualquer candidato na disputa eleitoral. O vice-presidente recorreu ao recente nascimento de seu quarto filho e ao aniversário da morte de Charlie Kirk. E pareceu saborear o papel de cão de ataque, lançando por vezes provocações contra os democratas e dispensando com satisfação um manifestante que interrompeu seu discurso.
A fala mais convencional e ensaiada de Vance contrastou fortemente com o estilo espontâneo e improvisado de Trump. Na verdade, foi a resposta improvisada de Vance ao manifestante, que desfraldou bandeiras do México e da Palestina, que mais pareceu empolgar a multidão.
"Meu amigo, se você ama tanto o México, leve essa sua bunda para lá", disse o vice-presidente, levando a multidão ao delírio. "Eu compro sua passagem de avião."
Republicanos afirmam que Vance, antes um crítico declarado de Trump e que depois se tornou um firme apoiador, continua sendo o favorito incontestável à indicação presidencial do partido —em determinado momento, a multidão começou a gritar "48", em referência ao 48º presidente. Mas reconhecem que ele ainda precisa trabalhar para consolidar o apoio da base de Trump, sobretudo entre aqueles que não votam com frequência nem acompanham a política.
"Ele tem essas relações com os apresentadores de podcasts —Theo Von, Joe Rogan— que esse pessoal ouve", disse Jack Posobiec, comentarista de extrema direita e apoiador de Vance. "O trabalho que ele terá de fazer é convencê-los a voltar em 2028."
Com esse objetivo, Vance procurou fazer um apelo direto aos eleitores céticos e indecisos —especificamente àqueles insatisfeitos com algumas das políticas do governo.
"Não joguem fora o bebê com a água do banho", disse ele. "Não entreguem o país a um bando de malucos só porque vocês discordam de nós sobre uma ou outra questão política."
E prosseguiu: "Não estou pedindo a ninguém que concorde com todas as políticas do governo. O que estou pedindo é que reconheçam o contraste com os radicais e reconheçam as conquistas dos últimos 18 meses."
Lá Fora
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A guerra com o Irã tem sido um tema particularmente delicado para o vice-presidente, que declarou apoio a Trump em 2023 sob o argumento de que ele não arrastaria o país para nenhuma guerra no exterior. Vance se opôs em privado ao conflito desde o início. Em público, porém, vem defendendo a guerra, mesmo diante da revolta de setores da base.
Embora as manobras para 2028 já estejam em curso, o encontro em Dallas deixou claro que Trump não tinha nenhum interesse em abrir mão de seu controle absoluto sobre o partido. Isso deixou Vance na posição incômoda de tentar preparar o terreno para uma possível candidatura presidencial sem desagradar seu volúvel chefe.
Trump sugeriu que Vance é o favorito à indicação, mas não declarou formalmente seu apoio e costuma perguntar a assessores e apoiadores quem eles acham que deveria sucedê-lo. Algumas pessoas próximas a Trump afirmam que o presidente pode adiar por algum tempo seu apoio formal, preferindo deixar que se desenrole uma competição ao estilo de "O Aprendiz".
Trump menciona com frequência Marco Rubio, seu secretário de Estado, como possível sucessor, embora Rubio tenha dito que não concorreria à Presidência se Vance o fizesse. Rubio não compareceu ao encontro em Dallas porque estava viajando pela América Latina.
Outros, entre eles o senador Ted Cruz, do Texas, que também discursou na convenção na quinta-feira, demonstraram interesse em uma possível candidatura presidencial em 2028.
O vice-presidente também aproveitou o encontro para tentar estreitar seus laços com ativistas e doadores. Na manhã de quinta-feira, circulou por cafés da manhã de delegações estaduais e participou do "The Charlie Kirk Show" para homenagear o influenciador trumpista no aniversário de seu assassinato. (A viúva de Kirk, Erika, que compareceu à primeira noite da convenção, já declarou apoio a Vance para presidente.)
À tarde, Vance foi a principal atração de um evento de arrecadação de fundos no Ritz-Carlton, em Dallas.
No local, Vance atacou Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado por Michigan, por comentários anteriores sobre os atentados de 11 de setembro de 2001, e brincou que teve de acrescentar 95 minutos ao discurso que faria na noite de quinta-feira porque não queria ficar atrás de Trump depois da longa fala do presidente na quarta-feira, segundo duas pessoas presentes. Vance falou por cerca de 40 minutos na convenção.
Trump voltou ao palco depois de Vance e o cumprimentou com um aperto de mão e um abraço. Antes de deixar Dallas, Trump, conhecido por suas manifestações efusivas, avaliou o discurso de Vance.
"Ele tem sido um ótimo vice-presidente", disse a jornalistas antes de embarcar no Air Force One de volta a Washington. "Acho que ele se saiu muito bem."
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
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