Muito barulho, pouca receita: o gargalo da IA na indústria de consumo
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Um levantamento da Deloitte enviado com exclusividade à EXAME reuniu respostas de 963 executivos da indústria de consumo. Apenas 18% das empresas relatavam aumento de receita com inteligência artificial, enquanto 75% esperavam alcançar esse resultado. O acesso às ferramentas cresceu, mas o redesenho do trabalho e os controles sobre agentes autônomos ainda eram limitados. As respostas foram coletadas entre agosto e setembro de 2025.
A inteligência artificial (IA) passou a fazer parte da operação das empresas de consumo, mas transformar seu uso em mais receita ainda era um desafio. Em levantamento da Deloitte enviado com exclusividade à EXAME, apenas 18% das empresas pesquisadas relatavam aumento de faturamento atribuído à tecnologia. Outros 75% esperavam alcançar esse benefício no futuro.
O estudo State of AI in the Consumer Industry: The untapped edge reuniu respostas de 963 executivos de negócios e tecnologia envolvidos nas iniciativas de IA de suas organizações. O retrato mostra uma adoção em velocidades diferentes: o acesso às ferramentas cresceu, enquanto mudanças na organização do trabalho e controles sobre agentes autônomos ficaram atrás.
As respostas foram coletadas entre agosto e setembro de 2025, dentro de uma pesquisa global com 3.235 líderes de 24 países. O recorte setorial foi publicado em março de 2026 e divulgado pela Deloitte no Brasil em setembro. O aumento de receita é um dos benefícios avaliados: empresas que não relataram esse resultado podem ter obtido ganhos de produtividade ou redução de custos.
Acesso à IA não significa mudança no trabalho
Nas empresas consultadas, a parcela de trabalhadores com acesso autorizado à IA dobrou em um ano, de menos de 30% para cerca de 60%. Mas, segundo as estimativas dos líderes, apenas 25% daqueles com acesso utilizavam a tecnologia em mais de 60% da rotina de trabalho.
A dificuldade aparecia também na organização das equipes: 82% das empresas ainda não haviam redesenhado cargos ou a natureza do trabalho em torno da IA. A insuficiência de habilidades dos profissionais foi apontada como a maior barreira à integração da tecnologia.
A resposta mais frequente estava na capacitação: 54% concentravam esforços em ampliar o conhecimento das equipes sobre IA, enquanto 49% adotavam programas de atualização de habilidades ou preparação para novas funções.
Havia diferentes graus de mudança na operação. Enquanto 35% começavam a transformar profundamente produtos, processos ou modelos de negócio, 28% redesenhavam processos-chave sem alterar o modelo comercial. Outros 37% usavam IA com pouca ou nenhuma mudança nos processos existentes.
“A indústria de consumo está deixando de tratar a IA como experimento e começando a colocá-la no centro da operação, mas essa passagem exige mais do que ferramenta disponível”, afirmou Paulo de Tarso, sócio-líder para a indústria de consumo da Deloitte, em comunicado.
Levar uma experiência à operação exige integração com sistemas existentes, revisões de segurança e monitoramento contínuo, segundo o estudo. Aplicações de preços, promoções e previsão de demanda precisam funcionar em diferentes canais e mercados. A preparação dos dados faz parte dessa passagem.
Agentes avançam; os controles ficam atrás
A próxima etapa da adoção inclui agentes de IA, sistemas capazes de executar tarefas em múltiplas etapas com graus de autonomia definidos. Eles podem influenciar preços, promoções, estoques e comunicação com clientes — atividades nas quais uma falha pode afetar a operação.
No momento da pesquisa, 24% das empresas relatavam uso ao menos moderado desses sistemas. A expectativa dos entrevistados era chegar a 73% no horizonte de dois anos considerado no levantamento. Trata-se de intenção de adoção, não de resultado já alcançado.
A preparação para supervisionar agentes era menor: apenas 20% afirmavam ter um modelo maduro de governança. Privacidade e segurança dos dados preocupavam 75% dos líderes, à frente de questões como qualidade das respostas e capacidade de supervisão.
No setor de consumo, esses controles têm consequências sobre o negócio. Segundo a Deloitte, falhas em agentes que participam da definição de preços, da distribuição de estoques ou do atendimento podem afetar margens, reputação e conformidade regulatória.
A IA também sai da tela
Outra frente era a chamada IA física: sistemas que percebem o ambiente, tomam decisões e acionam robôs, máquinas ou equipamentos. No levantamento, 65% das empresas de consumo relatavam algum grau de uso, com expectativa de alcançar 87% no horizonte de dois anos.
Essas aplicações estavam concentradas em centros de distribuição e instalações dedicadas à preparação de pedidos, mais do que nas lojas abertas ao público. Custos, ciclos de desenvolvimento e exigências de segurança limitavam uma expansão maior, segundo a Deloitte.
“A indústria de consumo lida historicamente com grande volume, margens apertadas e uma cadeia logística complexa, o que ajuda a explicar por que a automação física avança tanto em centros de distribuição e operações de fulfillment”, afirmou Paulo de Tarso, no comunicado.
“O próximo passo é levar parte dessa disciplina para a loja e para o contato direto com o cliente, onde o comportamento humano ainda impõe limites à automação”, avaliou.
Perguntas frequentes
O que a pesquisa da Deloitte mostrou sobre receita e IA?
Entre as empresas de consumo pesquisadas, 18% relatavam aumento de receita atribuído à IA, enquanto 75% esperavam obter esse benefício no futuro. São avaliações dos executivos entrevistados, não resultados auditados.
Isso significa que as demais empresas não tiveram benefícios?
Não. Crescimento de receita é uma medida diferente de produtividade, eficiência ou redução de custos. O percentual não permite concluir que as outras empresas perderam dinheiro com IA.
O que são agentes de IA e IA física?
Agentes executam tarefas em múltiplas etapas com graus definidos de autonomia. A IA física atua no ambiente real, por meio de robôs, máquinas e equipamentos, em aplicações como logística e automação.
Quem respondeu ao levantamento e quando?
O recorte da indústria de consumo reuniu 963 executivos de negócios e tecnologia envolvidos em iniciativas de IA. A pesquisa global foi realizada entre agosto e setembro de 2025.
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