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Friday, October 16, 2026

Gerir expectativas torna-se tão importante quanto negociar

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Os novos edifícios que dominam hoje as Avenidas Novas, Entrecampos, Saldanha e Avenida da Liberdade não são apenas mais modernos. São detidos por fundos institucionais e investidores de longo prazo, com maior capacidade financeira e menor necessidade de ceder em negociações. Uma mudança que alterou profundamente as condições contratuais disponíveis para empresas que procuram espaço.

Para empresas internacionais que escolhem Portugal como destino, esta transformação criou um paradoxo. Portugal tornou-se mais atrativo pelo talento disponível, custo de vida competitivo e qualidade crescente dos espaços de trabalho, mas o mercado tornou-se estruturalmente mais exigente. Para as equipas de Tenant Representation, que representam empresas na procura de escritórios, o desafio já não é apenas conseguir melhores condições, mas sim traduzir dinâmicas locais e gerir a dissonância entre expectativas globais e a nova realidade portuguesa.

Há uma década, o mercado de escritórios em Lisboa era fragmentado: family offices, edifícios antigos, reconvertidos e poucas opções verdadeiramente Grade A. Os proprietários competiam por ocupantes de qualidade, o que se refletia em condições negociais favoráveis para quem procurava espaço.

Hoje, a situação inverteu-se. A entrada de fundos institucionais nacionais e internacionais, com forte capacidade de investimento e visão de longo prazo, trouxe ao mercado uma nova geração de edifícios. Os projetos que chegaram nos últimos anos como o Oriente Green Campus ou o ALLO e os que estão em desenvolvimento como o Entrecampos, o Liberdade 201, o Camilo 43, o DNA ou o Polaris, são tecnologicamente avançados, com padrões ESG superiores e serviços diferenciadores: auditórios, espaços de refeições, salas de reuniões partilhadas e áreas de well-being. Esta mudança no perfil de proprietário transformou a qualidade da oferta e a dinâmica das negociações.

A evolução das prime rents reflete esta mudança: de 20€/25€ para 28€/32€ em zonas centrais entre 2020 e 2026, sem que isso travasse a procura. Mas mais revelador é a transformação da estrutura negocial. Garantias bancárias aumentaram significativamente, carências tornaram-se condicionadas ao compromisso de longo prazo, contratos alongaram-se e break-options apenas disponíveis em fases avançadas do contrato, frequentemente associadas a penalizações.

Decisores corporativos que gerem expansões internacionais operam com playbooks testados: conhecem padrões negociais de múltiplas geografias, dominam benchmarks e sabem onde os proprietários tipicamente cedem. São referências construídas ao longo de dezenas de transações.

Ao chegarem a Lisboa, essas expectativas encontram uma realidade que muitos ainda não antecipavam: o mercado evoluiu significativamente. Tal como já acontece noutras capitais europeias, investidores institucionais detêm ativos de excelência e operam segundo lógicas de gestão de portfólio de longo prazo, com menor pressão para ceder em pontos tradicionalmente negociáveis. O desafio passou a ser identificar onde existe verdadeira margem de flexibilidade num mercado que amadureceu e se profissionalizou, seguindo tendências já consolidadas noutras geografias.

Ainda assim, esta complexidade não está a travar a expansão corporativa em Portugal. Nos últimos dois anos, Lisboa consolidou-se como hub preferencial para tech companies, centros de serviços partilhados e sedes de empresas globais: a PagerDuty escolheu Portugal, a Kyndryl procurou escritórios de maior qualidade, a Cisco expandiu área e a Mediabrands renegociou o seu espaço.

Portugal continua a ser procurado pelo talento, custos competitivos e qualidade de vida. Agora, com maior oferta de edifícios Grade A, atrai procura ainda mais qualificada. Mas negociar nestas condições requer algo que benchmarks internacionais não traduzem: experiência local e compreensão das especificidades de um mercado em rápida transformação.

O papel de Tenant Representation ajustou-se. Num mercado com pouca oferta de qualidade face à procura crescente, e com uma base de proprietários significativamente mais profissionalizada, a balança negocial inverteu-se. Isso significa que já não basta uma simples negociação: é preciso preparar os clientes/ocupantes para esta realidade, explicar como a maturação do mercado português alterou a dinâmica negocial e ajudá-los a perceber onde existe real margem de negociação e onde as condições refletem constrangimentos estruturais de mercado.

À medida que mais empresas continuam a escolher Portugal como destino estratégico, a sofisticação do mercado não diminuirá, antes pelo contrário, tende a consolidar-se. Neste contexto, gerir expectativas tornou-se tão crítico quanto negociar condições. E é aqui que a experiência local faz a diferença: não apenas em conseguir melhores termos onde isso é possível, mas sobretudo em traduzir a realidade do mercado de forma clara, antecipada e estratégica, permitindo que decisões corporativas sejam tomadas com plena consciência do contexto português. Num mercado em transformação, informação contextualizada é poder negocial.

Este artigo foi publicado no âmbito do projeto Rota Imobiliária, em parceria com a JLL: https://observador.pt/seccao/rota-imobiliaria/

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