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Thursday, September 17, 2026

Desaprendemos a lidar com crianças?

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Desde 1960, a taxa de fecundidade no Brasil caiu de 6,28 filhos por mulher para 1,55, o menor patamar da história. Já o número de casais sem filhos dobrou entre 2000 e 2022: passou de 14,9% para 26,9%, segundo dados do IBGE.

Na prática, isso também significa menos irmãos, primos, sobrinhos e outras crianças na rotina dos adultos. Com menos convivência, muita gente perdeu a prática e percebe que não sabe mais como conversar, brincar ou agir quando elas estão por perto. Como lidar com essa dificuldade de conviver com crianças?

Medo de errar

Nos últimos anos, ganharam força as discussões sobre uma educação menos baseada no medo e na violência e mais pautada no diálogo, no acolhimento e no respeito à autonomia das crianças.

Como explica Maya Eigenmann, neuro pedagoga e cocriadora da educação positiva no Brasil, isso não significa ausência de limites, mas uma maneira diferente de estabelecê-los: "É claro que nós vamos guiar e educar. Não é sobre permissividade. Mas, se eu entendo que se trata de um filhote humano que está aprendendo a se desenvolver e a se comportar, percebo que devo ajudar, e não reprimir."

Para quem convive pouco com crianças, essas mudanças geram certa insegurança. Afinal, pode dizer "não" para o filho de alguém próximo? Como se aproximar sem forçar a barra? Dá para saber se ele só está tímido ou se precisa de acolhimento? Com medo de contrariar os pais ou agir de forma inadequada, há quem prefira manter distância.

"Adults Only"

Até pouco tempo atrás, era mais comum ver crianças brincando na rua, passando a tarde na casa de amigos ou circulando pelo bairro.

Hoje, devido às preocupações com a segurança e com a menor interação entre vizinhos e comunidade, adultos e crianças compartilham cada vez menos os mesmos espaços. Prova disso é a oferta crescente de lugares voltados só para maiores de idade —não porque envolvam álcool ou conteúdo impróprio, mas por uma proposta de mais silêncio e tranquilidade. Hotéis adults-only, restaurantes em que menores de 14 anos não são bem-vindos e áreas child-free em aviões são alguns exemplos.

O adulto da relação

Crianças muitas vezes são barulhentas, choram, testam limites, fazem birra... Não porque querem incomodar quem está ao redor, mas porque ainda estão aprendendo a entender o que sentem, a lidar com frustrações e a viver em sociedade. Estudos mostram que esperar delas comportamentos ou responsabilidades incompatíveis com a idade pode prejudicar o bem-estar emocional e até o desenvolvimento.

É por isso que a paciência precisa partir do adulto da relação, que já teve tempo para treinar essas habilidades. O desafio é que, em um mundo acelerado, esse recurso parece cada vez mais escasso. Daí a tentação de entregar uma tela em vez de acolher uma birra ou responder à décima pergunta. Mas as crianças precisam de pessoas dispostas a estar com elas.

E todos têm a ganhar com essa relação: dá para voltar a se maravilhar com coisas simples do dia a dia e lembrar que abraçar o lúdico não é perda de tempo, mas uma forma de redescobrir a curiosidade e a criatividade. "Estar perto de crianças é um poço infinito de alucinação, porque elas não têm os nossos medos, neuroses ou traumas. São muito mais livres e selvagens", disse a cantora, compositora e escritora Letrux ao Desenrola, o videocast do The Summer Hunter.

O diálogo resolve

Se uma criança estiver invadindo seu espaço de alguma forma —mexendo em algo que não deveria ou sendo desrespeitosa, por exemplo— vale conversar primeiro com os pais. Entender como eles costumam agir e quais combinados fazem sentido evita constrangimentos para todo mundo.

Também ajuda lembrar que a ideia de que crianças não entendem o que acontece ao redor é equivocada. Elas compreendem muito mais do que, às vezes, conseguem colocar em palavras. Incluí-las na interação, explicar o motivo de um limite e conversar com respeito costuma funcionar melhor do que simplesmente ignorá-las ou tratá-las como se não estivessem ali.

Não há nenhum problema em optar por ter mais ou menos intimidade com crianças ou desejar viver momentos só entre adultos. Também é natural achar difícil conviver com uma das suas primas ou com o filho de um amigo.

O problema é quando uma experiência individual vira generalização. Crianças não são um bloco único e, como qualquer outro grupo, merecem espaço para existir, brincar e fazer parte da vida em comunidade.

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