Se o futuro é dos robôs, ao menos que vistam saia

Qual essencial do quotidiano, que a própria comparou em tempos a uma t’shirt branca, Miuccia Prada (a mesma que viralizou à conta de um dos momentos mais inesperados do evento Vogue World desta semana) encheu a passerelle milanesa de 63 propostas, deixando claro que até com um divisivo micro top estamos prontos para estar em altas se tivermos a parte de baixo certa. No fim de contas, o interesse nesta coleção Spring/Summer 2027, apresentada no âmbito da Semana da Moda de Milão, recai em absoluto sobre uma peça universal, com inúmeras variações.
Com Raf Simons, com quem partilha os créditos criativos desde 2020, a saia como objeto chave surge em diferentes declinações no alinhamento: midi, mini, entre plissados, xadrez, estampas florais, algodão tratado com couro, e joias a embelezar os detalhes mais corriqueiros. “Projetada para a liberdade, a saia é uma obsessão Prada. Ao mesmo tempo autónoma e interdependente das roupas ao redor, sua silhueta gráfica definitiva, linear e modernista, oferece o único parâmetro fixo para projeção de ideias. A coleção permanece dentro da linguagem de forma particular desta saia específica, como um exercício de exploração dentro de parâmetros estritos, um quadro para criação incessante.”, define o caderno de intenções da marca italiana para a estação do próximo ano. Na wish list ficam ainda as carteiras com longas alças ou o habitual desfile de calçado porque, enfim, as melhores saias merecem a melhor companhia.
Com a Marni, a capital da moda italiana assistiu por estes dias a novo ensaio da belga Meryll Rogge à frente da etiqueta. À sua segunda coleção para a casa, não se trata tanto do que a marca precisa de acrescentar ao seu portfolio, muito menos de uma reinvenção estrutural, antes de reproduzir o exercício que costumamos fazer em casa a cada estação frente ao armário. O que manter? É aqui que entra em campo o papel de edição de guarda-roupa, ou uma curadoria atenta que continua a explorar alguns dos códigos mais familiares da marca milanesa fundada em 1994 por Consuelo Castiglioni e adquirida pelo grupo italiano OTB em 2015. Entre referências mod dos anos 60 e cinturas descaídas de começo do novo milénio, uma identidade lançada nos 90’s é um património no mínimo apelativo para tempos em que a estética da década é tão popular.
Inteligência artificial ou artesanal? E como não ser aborrecido com tanto minimalismo?
Ainda no certame italiano, o savoir faire da Tod’s repõe o lugar do made in Italy. A atitude e experiência dos artesãos da marca, conjugada com materiais de excelência e detalhes trabalhados à exaustão, contrapõe a “Inteligência Artesanal”, como definem, à tão discutida Inteligência Artificial. A lógica do diretor criativo Matteo Tamburini estende-se às saias visíveis no desfile. Em pele, claro, mas nada óbvias.
Antes, em Londres, Daniel Lee uniu esforços com Celia Birtwell para reimaginarem o famoso xadrez Burberry como uma treliça através da qual os motivos florais floresceram em muitos arranjos ricamente coloridos. À primeira vista, pode não ser fácil reconhecer de imediato os códigos da clássica etiqueta. Mas à segunda, a avaliação leva-nos a suspirar por chuva rapidamente, ou pelo menos uns breves aguaceiros, para não deixar os omnipresentes trench nos armários – até porque precisamos deles para proteger a nossa saia.
No arranque do mês da Moda, os polka dots não foram esquecidos, mas os motivos florais também dominaram o David H. Koch Theater, no Lincoln Center, pela mão de Wes Gordon, o criativo que quarenta e cinco anos após a estreia de Carolina Herrera em Nova Iorque apresenta uma celebração de tudo o que define o ADN de Herrera.
Virando a agulha, num mundo de neutros e formas estilizadas, a resposta à pergunta-título é dada com competência por suspeitas (cada vez mais) do costume. Para a Jil Sander, Simone Belloti serviu simplicidade num mundo caótico e provou que, sim, é possível ser competente no cleaness mas nem por isso maçador. Basta olhar o efeito de um slip dress que parece ter sido espremido ou para as saias lápis com paisagem japonesa, o único print da coleção.
“Minimalismo americano é a disciplina de remoção”, sentencia sem um único excesso na frase a Calvin Klein de Veronica Leoni, que de forma exímia mostra como o efeito decorativo é perfeitamente descartável quando o design é bom, a forma é boa, a silhueta é boa.
À Vogue, Catherine Holstein, disse que a mudança neste registo da Khaite, a marca lançada em 2016 no Soho novaiorquino para conquistar o mundo e as redes com o seu luxo assente em contrastes, começou “com um martini no Palácio Gritti, em Veneza”. Kaia Gerber abriu o espectáculo e o resto do show ficou entregue à aura romântica e diáfana, entre mousseline, tons pastel, rendas, bordados, e evocação de lingerie antiga. Veja a fotogaleria para ver estas e outras saias que antecipam a próxima primavera/verão.
Depois de Nova Iorque, Madrid e Londres, os desfiles e apresentações em Milão estendem-se até dia 28 de setembro. Paris é o destino seguinte, arrancando nesse mesmo dia e prolongando-se até 6 de outubro. Finalmente, a Lisboa Fashion Week traz para a fila da frente o melhor da criação nacional, entre 8 e 11 de outubro.
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