Desigualdade na cobertura vacinal contra HPV deixa jovens desprotegidos
A geógrafa paranaense Maria Júlia Pimenta era adolescente quando descobriu, em uma consulta de rotina com a ginecologista, que deveria ter tomado a vacina contra o HPV (papilomavírus humano) anos antes. Até então, ela desconhecia a importância da imunização.
Hoje com 26 anos, Pimenta fez parte da primeira geração a ter acesso pela rede pública à vacina contra os quatro tipos mais comuns do HPV. O imunizante quadrivalente foi incorporado pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em 2014. Mas ela descobriu isso aos 17 anos, quando já estava fora da faixa-alvo, que é dos 9 aos 14 anos.
Na consulta, a médica explicou a Pimenta que ela ainda poderia tomar a vacina nonavalente na rede particular. No entanto, são requeridas três doses desse fármaco, que protege contra os mesmos quatro tipos e outros cinco, também frequentes. O custo total de cerca de R$ 2.700 fez com que até hoje ela não tenha se imunizado.
O Ministério da Saúde estabelece a meta de 90% de cobertura vacinal contra o HPV até 2030. O país está próximo do objetivo entre o público feminino (86,22% de adesão entre meninas de 9 a 14 anos em 2025), mas o índice cai para meninos da mesma faixa etária (74,55%).
A infecção pelo HPV se dá principalmente pelo contato sexual. É por esse motivo que o SUS determina que crianças e adolescentes sejam o alvo das campanhas. Nessa faixa etária, eles não tiveram exposição ao vírus e também têm uma melhor resposta imunológica.
A aplicação gratuita do imunizante fora dessa faixa etária se limita a casos específicos: pessoas imunossuprimidas de 9 a 45 anos; pessoas vivendo com HIV; transplantados; pacientes com câncer; usuários de PrEP (drogas antirretrovirais usadas antes da exposição ao HIV); vítimas de violência sexual e pessoas com papilomatose respiratória recorrente.
O HPV é responsável pela quase totalidade dos casos de câncer do colo do útero e também está associado a cânceres de pênis, ânus, vulva, vagina e orofaringe (região da garganta que fica entre o céu da boca e a glote). Mesmo assim, há desafios a vencer na conscientização sobre a importância da vacina.
Hesitação vacinal no Acre
Dados do Anuário VacinaBR 2025 mostram uma diferença acentuada entre as regiões Norte e Sul do país. Enquanto estados do Sul apresentam coberturas mais elevadas, a região Norte concentra alguns dos menores índices de vacinação.
A menor taxa é do Acre. Em 2024, a cobertura da primeira dose da vacina contra o HPV alcançou 61,1% das meninas no estado. No que mais vacinou, Paraná, a taxa foi de 113,1%.
Índices acima de 100%, como o do Paraná, ocorrem quando o número de vacinados supera a estimativa oficial do público-alvo para a região, porque a população cresceu e o dado não foi atualizado, ou porque entram na conta pessoas vindas de outras regiões.
Entre os meninos, a diferença foi ainda maior: 25,5% no Acre contra 85,4% no Espírito Santo, estado com maior taxa de vacinação entre meninos.
A baixa adesão no Acre pode estar relacionada ao medo. Nos anos de 2016 e 2017, adolescentes apresentaram quadros de desmaios, dores e convulsões após campanha de vacinação nas escolas do estado. Estudos concluíram que não foi a vacina, mas sim o estresse e o pânico que levaram aos sintomas físicos, um fenômeno chamado "reação psicogênica coletiva".
O diretor-executivo do Instituto Questão de Ciência, Paulo Almeida, criador do VacinaBR, acredita que a demora das autoridades acrianas em responder ao problema deu margem para a proliferação de teorias conspiratórias e grupos antivacina na região.
O pesquisador também aponta que alguns médicos manifestam descrença e se mostram receosos em recomendar o imunizante aos pais, intensificando o problema.
Para combater a desinformação —apontada pelo Ministério da Saúde como a principal força do movimento antivacina—, o governo federal retomou as campanhas de vacinação nas escolas.
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Segundo Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações, a iniciativa também conta com a parceria do Fundo das Nações Unidas para a Infância no Acre, a fim de mapear as particularidades locais e superar a hesitação vacinal.
Renda dos pais não eleva taxas
A educação ainda é o fator preponderante para elevar as taxas de imunização contra o HPV. Um estudo da ARO Einstein, braço de pesquisa do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, se debruçou sobre dados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar para entender as dificuldades da cobertura.
Eles analisaram o cenário nacional após 2024, quando o Ministério da Saúde adotou o esquema de dose única, por entender que ela protegia crianças e adolescentes tão bem quanto duas doses.
Os pesquisadores não encontraram correlação imediata entre renda e taxa de imunização.
Um dado inesperado para a equipe foi encontrar números mais baixos entre meninas de estratos sociais mais elevados. Para Lucas Ferreira, coautor do estudo, isso pode ter a ver com a hesitação vacinal entre parcelas mais conservadoras, "que tendem a ter menor adesão [a vacinas em geral]".
Um dos achados do estudo desmente um temor comum entre os pais, o de que a imunização contra uma infecção sexualmente transmissível (IST) estimule o início precoce da vida sexual. "Entre as meninas vacinadas, a atividade começou até mais tarde", esclarece Henrique Fonseca, pesquisador-sênior do estudo e líder da unidade de estudos clínicos em imunologia e vacinas da ARO Einstein.
Essas meninas são também as que têm melhor grau de educação sexual, reforçando a importância de informar diretamente o adolescente.
Para atender aos jovens que perderam a vacinação na idade certa, o Ministério da Saúde prorrogou até dezembro de 2026 a estratégia de resgate vacinal contra o HPV. Agora, adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que ainda não tomaram nenhuma dose podem procurar as unidades básicas de saúde próximas de casa para receber o imunizante gratuitamente pelo SUS.
Gatti explica que a prorrogação busca reverter a queda na cobertura vacinal ocorrida em 2021 e 2022. O Ministério descarta a ampliação de doses para maiores de 19 anos, focando o público de 9 a 14 anos por recomendação internacional, o que garante maior impacto coletivo na prevenção contra o câncer.
Esta reportagem foi produzida durante o 11º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha, que teve apoio do Einstein Hospital Israelita e do Laboratório Roche.
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