Fiéis rompem com igrejas tradicionais e reinventam a prática da fé em pequenas comunidades
A analista de laboratório Ana Caroline Quirino da Silva, 25, estava no ensino médio quando passou a questionar as certezas que acreditava ter sobre sua existência, sua sexualidade e como praticava sua fé. Alguns anos depois, já na faculdade, decidiu que não iria mais à igreja que frequentava desde os 13 anos.
"Eu percebi que tinha coisas com as quais eu não concordava mais. Aquele ambiente não me fazia bem e saí", afirma Ana Caroline, que em 2021 começou a frequentar os cultos da Igreja Redenção Baixada, comunidade que reúne não mais do que 30 pessoas aos domingos pela manhã em uma sala de coworking em Nilópolis, na Baixada Fluminense.
A mudança de Ana Caroline não foi um ato isolado. Ela integra um movimento de evangélicos insatisfeitos com o excesso de demandas institucionais de suas igrejas e que passaram a frequentar pequenas comunidades de fé.
A maioria são coletivos progressistas que se tornaram uma espécie de refúgio para cristãos que se sentiam excluídos por questões sociais, raciais, políticas e de gênero. Ao promover os direitos humanos, o combate ao racismo e acolher a comunidade LGBTQIA+, essas comunidades disputam a narrativa do que significa ser cristão.
No caso de Ana Caroline, a mudança ocorreu quando ela assumiu ser bissexual e percebeu que os LGBTQIA+ não eram bem-vindos na igreja. Ela lembra que, quando ainda frequentava a igreja anterior, orava pedindo que Deus a mudasse.
"Eu achava que estava em pecado. Hoje ficou tudo mais leve para mim. Está tudo bem ser uma mulher bissexual e cristã. Hoje eu sei que Deus não vai deixar de me amar por isso", afirma.
Para o pastor Fillipe Gibran, o esgotamento religioso se intensificou a partir de 2018. O motivo, segundo ele, foi uma onda conservadora que levou a pauta moral ao Congresso Nacional, com temas ligados ao aborto, à união homoafetiva e à educação domiciliar.
"Algumas igrejas viraram um centro de destruição da diversidade. Mas, de 2018 para cá, ficou insustentável. A gente tá vendo as igrejas discutindo sobre proibir os filhos de ir para faculdade, que dirá falar sobre diversidade", diz Gibran, que rompeu com sua igreja e, no meio da pandemia, abriu a Comuna do Reino, em Belo Horizonte.
Segundo Gibran, o descontentamento de cristãos com suas igrejas tem se espalhado por todo o país. Ele faz parte de um presbitério que reúne 18 microigrejas como a Comuna do Reino, com cerca de 30 membros cada.
O pastor Vladimir de Oliveira Souza, da Igreja Redenção Baixada, também vê a busca por pequenas comunidades de fé em crescimento. "É um movimento que ainda não tem musculatura, mas está acontecendo em velocidade grande. O que vai acontecer daqui para frente ainda não sabemos", diz.
Ainda não há números que mostrem o tamanho dessa transição de evangélicos para pequenas comunidades, mas, segundo levantamento do Datafolha em 2024, 5% dos evangélicos da cidade de São Paulo se diziam desigrejados.
"Desigrejados são pessoas que se desinstitucionalizaram. Elas continuam crendo em Deus, orando, lendo a Bíblia e desejando aplicar o evangelho no seu cotidiano. Porém, não querem mais o fardo da instituição", afirma o pastor Carlos Bregantim, que há 20 anos está no Caminho da Graça - Estação São Paulo, comunidade que agrega muitos dos que ele chama de "feridos da guerra religiosa".
Brega, como é conhecido, conta que foi influenciado pelo pastor Caio Fábio, que foi líder da Igreja Presbiteriana do Brasil nos anos 1990. "A partir de uma releitura do Evangelho, nosso objetivo foi aplicar o Evangelho no chão da vida, no dia a dia. E a forma que escolhi é como eu enxergo no modelo de Jesus, o que eu chamo de espiritualidade ao redor da mesa", disse.
No Caminho da Graça, os cultos acontecem no domingo pela manhã em uma sala na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, sem palco, sem púlpito e ao redor de uma mesa de café da manhã. Brega diz que as reuniões são singelas, com pouca liturgia, onde as pessoas compartilham suas vidas. "E, em algum momento, aquilo vira um culto", afirmou.
A proposta de viver o Evangelho "puro e simples" foi o que atraiu a estudante Fabiana de Oliveira Fernandes, 47, para o Caminho da Graça há 20 anos. Ela conta que a leitura de um dos livros de Caio Fábio a fez despertar para uma nova forma de viver o que Jesus pregava.
"Eu fui seduzida por essa proposta de viver o Evangelho no chão da vida, o que é muito mais desafiador justamente porque ela te convida a ir para o cotidiano para ser sal e luz", diz, ao lembrar que antes ficava inserida em uma agenda da igreja que incluía apenas pessoas que pensavam como ela.
A administradora de empresas Bianca Oliveira Costa, 33, também percebeu que a igreja que frequentava não fazia mais sentido para o que passou a entender como Missão Integral, teologia cristã que une a proclamação da Palavra de Deus à responsabilidade social. Ao ler sobre o tema, percebeu que fazia sentido e decidiu se fixar na Igreja Redenção Baixada.
"O que eu tinha aprendido de Jesus realmente levava para o social", afirma Bianca, que hoje trabalha no Baixada Lab, o braço social da Redenção no Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ).
O teólogo Alexandre Gonçalves, pastor da Igreja de Deus, afirma que muitos evangélicos estão cansados das "igrejonas" e querem lugares mais simples, um caminho que alguns devem seguir. Porém, faz uma ponderação com relação aos líderes dessas comunidades. Ele entende que é necessário um preparo teológico para instruir conforme a Bíblia.
"Minha ressalva é com relação à independência dessas igrejas e ter desvios ou controle excessivo sobre a vida das pessoas. Se não houver um preparo teológico, pode ser um problema", afirmou.
Na avaliação do sociólogo Rodrigo Toniol, professor de antropologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e colunista da Folha, a busca por novas formas de culto é resultado da fragmentação comum entre os evangélicos. Esse grupo é formado por duas gerações: filhos de pais convertidos, que já nasceram em lares cristãos, e cristãos convertidos entre 1990 e 2000, que desejam outros repertórios daqueles que lhes foram oferecidos.
Em comum nas duas gerações, segundo ele, há o esgotamento da maneira como eles se relacionavam com a religião, algo comum na história do cristianismo, principalmente a partir da Reforma Protestante, em 1517, e a formação de diversas denominações de igrejas.
"O universo evangélico ao redor do mundo sempre foi fragmentado, de circulação. Por isso, as próprias igrejas se fragmentam", afirma.
A socióloga Nina Rosas, professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), concorda que esse movimento não é novo, mas é crescente. Um dos fatores, segundo ela, é uma reação ao conservadorismo de parte da igreja, principalmente com relação à bancada evangélica no Congresso.
"Quando isso [conservadorismo] se associa ao fato de que eu estou vivendo um período em que a religião não tem mais essa função de aferir sentido a todas as esferas da vida, isso me dá margem para eu poder sair e para eu poder viver outras possibilidades de exercício da minha fé e da minha espiritualidade fora daquilo que está institucionalmente estabelecido", afirmou.
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