Violência importada? Só pela PSP, responde Acampada do Porto

Presença assídua nas 25 noites de protestos pela habitação na Praça D. João I, Sérgio Bastos passou a Assembleia Popular da tarde desta terça-feira com a atenção dividida entre os discursos dos manifestantes e o telemóvel, onde foi acompanhando a conferência de imprensa do primeiro-ministro. Levantou-se pouco depois de Luís Montenegro ter terminado as declarações e, já com resposta pronta, dirigiu-se aos manifestantes. Logo a seguir, falou aos jornalistas e repetiu as críticas: “A única coisa que vimos ser importada foram técnicas de violência policial”.
O porta-voz do movimento Acampada não gostou da acusação de Luís Montenegro — que pediu aos manifestantes para não “importarem modelos de protestos violentos” — e assumiu, com ironia, que partilha com o líder do Governo a preocupação pelo pacifismo. “Propomos como solução para que isso [a violência] não aconteça, não sermos espancados por protestarmos”.
Com 23 tendas montadas atrás dele, Sérgio assume que nunca pensou “ver a história sair dos livros”, acusando o Executivo da AD de recorrer a métodos de repressão policial para impedir os protestos que têm tido maior destaque no Porto e em Lisboa. “Se ele [Montenegro] teme assim tanto a violência: não nos espanque”, repetiu o porta-voz, criticando a constante demonização dos manifestantes, e até invocando Francisco Sá Carneiro para dizer que até o antigo primeiro-ministro estaria “bem chateado com o que está a acontecer neste país”.
“O que está a acontecer não é violência [dos manifestantes]. O que está a acontecer é repressão policial, repressão política do movimento pacífico, genuíno, português”. O porta-voz reconhece que a Acampada replica “táticas de visibilidade” de protestos de outros países (sobretudo de Espanha, onde houve, nos últimos dias, vários acampamentos semelhantes), mas sem “atitudes violentas da parte da organização ou de qualquer dos seus integrantes”. “Haverá situações [menos pacíficas] que temos que gerir e vamos continuar a tentar gerir”, assumiu.
A “pouca coragem” do primeiro-ministro é, para Sérgio, uma tentativa de escolher o caminho mais fácil, demonizando os manifestantes em vez de “tentar ouvir os seus argumentos”. “Luís Montenegro não nos apresenta contra-argumentos, apresenta-nos as mesmas medidas que estamos carecas de saber que não funcionam”.
“Pede-nos que esperemos. Já estamos à espera há muito tempo. As medidas que [Montenegro] apresenta respondem a um setor da população que não é o nosso. Ele continua repetidamente a chamar-nos uma minoria, esquece-se de que é um líder minoritário”, acrescentou o jovem porta-voz.
“Quando chegar a nossa vez de ser ouvidos, teremos coisas a dizer”, garante organização da Acampada
Apesar das críticas, Sérgio Bastos reconheceu que as mobilizações que já duram há várias semanas na cidade do Porto começam a ter reflexos nas movimentações do Governo. Prova disso é a vontade manifestada pelo primeiro-ministro de uma reunião entre o Governo e os partidos da oposição. “É uma vitória parcial. O Partido Socialista [PS] e o Chega não têm propostas que consideramos que vão suficientemente ao encontro das nossas reivindicações. Mas, ainda assim, pode ser que alguma coisa de positivo saia dali”.
Mesmo sem concordar inteiramente com as ideias dos partidos, o porta-voz acrescentou que essa discussão de ideias é a obrigação dos “representantes eleitos” e compara com o movimento da Acampada que, mesmo não sendo “representantes eleitos”, tem apresentado várias reivindicações. Mas confia que chegará o dia em que os manifestantes serão chamados. “Quando chegar a nossa vez de ser ouvidos, teremos coisas a dizer. Neste momento, de todas as audiências e todos os diálogos, esperamos resultados positivos porque somos pessoas esperançosas”, mesmo apontando às “limitações de orientação política” do Governo.
Antes de falar aos jornalistas, leu o discurso perante os participantes da assembleia e acusou o primeiro-ministro de ouvir apenas uma parte minoritária e poderosa dos portugueses. “Diz que o Governo auscultou a população e que não acordou agora. Arrisco-me a dizer que auscultou os fundos imobiliários. Expôs um programa incompleto e enganador e que, infelizmente, continua a dormir para a realidade do acesso à habitação”.
Disse que os apoios aos jovens também só ajudam uma minoria privilegiada e que os imóveis do Estado que deveriam ser dirigidos à habitação continuam a ser “vendidos para hotéis”.
“[Montenegro] diz que os indicadores estão sólidos, que a economia cresce e que a credibilidade do país é muito, muito reconhecida. Mas nós, apesar de preferirmos de facto juros baixos e propormos medidas fiscalmente responsáveis, não comemos nem vivemos dentro de ‘ratings’. Comemos pão e vivemos em casas. E é muito difícil aceitar um primeiro-ministro que não sabe que pão e casa estão muito caros para quem trabalha”.
Adeptos do Nápoles animaram praça, depois de assembleia em que se discutiu criação de equipa de representantes para reuniões com líderes políticos
Foi preciso esperar pelas 23h para ver maior animação na Praça D. João I e algum movimento policial. O motivo? O futebol. Terminada a assembleia, os manifestantes estiveram a assistir ao documentário “Acima das nossas possibilidades”, obra de Pedro Neves, gravada em 2014, que retratou a vida de várias pessoas que sofreram o impacto das medidas de austeridade impostas nesses anos. Depois de uma sessão de perguntas e respostas com o realizador, o silêncio voltou à praça.
Até que esse sossego foi interrompido quando se começaram a ouvir gritos de uma comitiva que subia a Rua de Sá da Bandeira. Assim que viraram para a praça, ouviram-se gritos de “Nápoles, Nápoles”, identificando esta multidão como adeptos do clube italiano que joga esta quarta-feira no Estádio do Dragão, para a Liga dos Campeões. Os adeptos abrandaram os passos quando cruzaram a praça, voltando a gritar pelo clube do sul de Itália, batendo palmas. O percurso foi sempre acompanhado por vários agentes e alguns carros da PSP, na primeira vez que estiveram mais visíveis na praça durante esta noite. Os napolitanos desceram a Rua do Bonjardim e a calma voltou a reinar no palco dos protestos pela habitação na cidade do Porto.
Antes, na própria assembleia, que contou com cerca de 150 pessoas, foi feito um pedido para que os presentes fizessem recomendações sobre o funcionamento da organização da acampada. Catarina dos Santos, uma das porta-vozes, também criticou Luís Montenegro, que falava ao mesmo tempo aos portugueses, acusando o primeiro-ministro de se submeter aos interesses dos poderosos. E terminou com uma recomendação de segurança dirigida aos presentes: “Se virem alguma coisa estranha, façam barulho e se possível filmem”.
Depois, a mesa da assembleia pediu desculpas aos presentes por não ter conseguido avançar com a intenção (aprovada anteriormente) de realizar uma greve geral ibérica a 11 de novembro. “Para convocar uma greve ibérica [a comunicação] teria que ser feita com dez dias de antecedência. Não reunimos condições para enviar o e-mail, também estamos a aprender”, disse um dos representantes do movimento, sentado na mesa da assembleia, terminando com um pedido de desculpas em nome da Acampada.
Antes das votações deu-se uma discussão para aferir quais seriam as preferências dos manifestantes em relação à criação de um comité que represente o movimento em reuniões futuras (com a autarquia ou com a Presidência da República). José Soeiro, ex-deputado do Bloco de Esquerda, lembra que já há representantes (desde porta-vozes a líderes de diferentes grupos de trabalho) e que não se deve abdicar de ter pessoas a falar em nome do movimento, desde que respeitem a vontade da maioria dos manifestantes. “Não houve recusa” em falar com Pedro Duarte, garantiu, depois, Sérgio Bastos. “Há um diálogo interno para percebermos quais os trâmites em que esse diálogo é mais interessante para o nosso movimento, como é perfeitamente normal”.
A maioria dos votantes apoiou a criação de um comité de representação para cada reunião — tema que não ficou fechado esta terça-feira e que será discutido em futuras assembleias.
[Duarte Lima chega ao Brasil 45 horas antes de Rosalina Ribeiro ser assassinada. Tinha encontro marcado com a milionária no Rio de Janeiro mas aterra em Belo Horizonte. Na reconstituição dos movimentos dele, a polícia percebe que o advogado nunca usou o telemóvel pessoal no Brasil. Mas foram detetados contactos a partir de dois telefones portugueses e um suiço. Um deles liga várias vezes para a casa da milionária. Já pode ouvir o terceiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
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