No quarto de D. Carlota Joaquina: o que (re)descobrimos?

Uma outra hipótese sugeria que tivesse regressado ao primeiro piso do palácio, onde viveu durante a sua primeira estada em Queluz, antes da fuga da família real portuguesa para o Brasil fruto das invasões francesas. No entanto, não só essa zona do edifício sofreu um incêndio em 1934, apagando quaisquer vestígios dessa eventual segunda passagem, como os problemas de saúde que se agravaram tornam improvável que se mantivesse num local onde fosse necessário subir escadas.
Os investigadores conseguiram então apurar que D. Carlota Joaquina veio a ocupar uma zona do palácio no piso térreo e que antes tinha acolhido D. Pedro Carlos, filho de Mariana Vitória de Bragança [filha de D. Maria I e irmã de D. João VI] e que, depois da morte da monarca, teve várias vidas. Tendo Queluz entrado em estado de abandono a partir de meados de Oitocentos, na viragem para o século começou a ser submetido a intervenções de restauro e, nesse âmbito, estas salas tornaram-se uma carpintaria. Mais tarde, dando acesso ao pavilhão D. Maria I, residência dos chefes de Estado estrangeiros em visita a Portugal, foi uma mera zona de passagem e de estar. E por breves momentos, no início dos anos 70, Marcello Caetano, Presidente do Conselho do Estado Novo, mandou aqui instalar o seu gabinete temporário enquanto o Palácio de São Bento era intervencionado.
“Esta documentação permitiu perceber que D. Carlota Joaquina ocupou uma ala completamente oposta do palácio e que o fez nos últimos cinco anos de vida. A rainha desce ainda em vida desse piso superior e ocupa, por questões de mobilidade, esta zona que ficava muito perto da Sala do Trono”, explica Hugo Xavier, garantindo que o espaço escolhido é aquele onde se pode “evocar esta figura de uma forma genuína e autêntica”.
Ao todo, foi possível reconstituir 60% dos aposentos da rainha, correspondentes a divisões que estavam a ser usadas para expor objetos do palácio como parte do circuito museológico. As restantes, no entanto, já tinham sido sujeitas a obras ou à afetação a outros espaços — parte delas, por exemplo, veio a ser ocupada pela loja do palácio, construída no século XX. No entanto, os quartos que foram recuperados já dão uma boa ideia do que era o quotidiano de D. Carlota Joaquina nos seus últimos anos de vida.
Este circuito inicia-se pela Sala de Entrada, que dá lugar à Ante-Câmara. Revestida a telas pintadas com cenas de caça e paisagens florestais, esta divisão tem como destaque um luxuoso relógio de mesa [ver caixa] e esconde uma curiosidade reveladora das dinâmicas sociais da época. “Esta era uma dependência onde as visitas da rainha poderiam aguardar, mas tinham de permanecer de pé. Apesar de ter cadeiras, tinha de se esperar de pé pela rainha, não se podia sentar, por uma questão de protocolo”, explica Hugo Xavier.
Segue-se então para a Câmara, termo equivalente ao que hoje consideramos um quarto de dormir. Esta, tal como as outras divisões, é dominada pela decoração e o mobiliário em estilo império, uma vertente do neoclássico em voga no período de vida de D. Carlota Joaquina, “que se preocupou sempre em estar atenta às tendências da época, aos estilos e às novidades”. Isso fica bem aparente nos móveis adornados com metal dourado e no leito de dossel no centro da divisão. Outra particularidade é o pequeno compartimento onde se encontra uma “cadeira-retrete”, versão aproximada de uma casa de banho onde uma cadeira com o assento amovível oculta um penico em cerâmica.
Antes de se avançar para o interior do palácio, rumo à Sala do Trono, uma pequena divisão de gaveto ligada à Câmara apresenta-se como o Oratório, descrito por Hugo Xavier como o “coração dos aposentos”. “Há um elogio fúnebre que é publicado por João de São Boaventura e que refere que, nos últimos anos de vida, D. Carlota Joaquina recolhia-se aqui muito em oração. É algo que percebemos que fazia parte das dinâmicas do quotidiano, daí a comunicação que normalmente os oratórios faziam diretamente com o quarto de dormir”, explica. Além de ter sido revestido de damasco encarnado, como era costume à época, este espaço tem como grande destaque uma “maquineta” dourada, nome dado às estruturas de madeira concebidas para expor imagens religiosas, contendo ao centro uma escultura do Calvário de Cristo.
Por fim, após cruzar a Câmara no sentido oposto, chega-se ao Camarim, uma sala privada onde D. Carlota Joaquina podia estar com os seus convidados, mas não só. “Podia servir para momentos musicais, para trabalhos de costura e até para jogos — sabemos que a rainha tinha uma caixa de jogo em laca chinesa, com fichas em madrepérola, para jogar whist e voltarete, que estavam em voga”, afirma o investigador. Este espaço demonstra assim que a monarca não vivia apenas em devoção cristã, representando “este seu lado mais lúdico e de descontração”.
Em busca das peças de Carlota
Para tentar replicar os aposentos de D. Carlota Joaquina, a equipa de investigação não se ficou por um trabalho de reconstituição aproximada nem por fabricar réplicas, tendo encetado uma busca pelo maior número de objetos originais que pertenceram à rainha. “80% dos objetos que estão expostos pertenceram à rainha”, garante Hugo Xavier, dado que muitos têm etiquetas próprias que confirmam essa titularidade.
A questão é que uma percentagem significativa encontrava-se ou dispersa ou como propriedade alheia, já que o seu espólio foi sujeito a partilhas entre herdeiros e vendido em leilão, como prova um documento com cerca de 800 páginas encontrado pelos investigadores. Este foi um dos documentos matriz que permitiu “ir construindo todo um corpus de informação com associações às peças que existem, às que estão por identificar, às que existem noutros palácios ou em coleções privadas”.
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