O que Portugal deve aos seminários

Há instituições que têm o azar de ficar para a história através dos seus inimigos. Outras, através dos seus melhores escritores. Não é evidente qual das duas coisas aconteceu aos seminários portugueses depois de Vergílio Ferreira ter publicado Manhã Submersa. O certo é que, para várias gerações, o seminário passou a ser visto como um lugar sombrio, habitado por adolescentes contrariados, padres severos e uma infelicidade que só a literatura consegue tornar suportável.
No entanto, não é possível compreender Portugal sem compreender os seminários. E, suspeito que também não é possível compreender inteiramente a crise do nosso espaço público sem perceber o que desaparece quando os seminários entram em crise.
Comecemos pelo princípio. A grande intuição que esteve na origem dos seminários não residia em oferecer o estudo de teologia a futuros padres. A intuição foi outra, bastante mais ambiciosa: a educação não se esgota na instrução. A formação de uma pessoa depende, antes de mais, do ambiente em que vive. Neste sentido, concebidos como instituições destinadas à formação integral, os seminários não se limitavam a transmitir conhecimentos: ordenavam hábitos, disciplinavam a inteligência e educavam a sensibilidade. No fim de contas, constituíram uma das primeiras experiências globais de educação integral organizada em larga escala, ultrapassando largamente as elites universitárias.
As consequências foram enormes, embora raramente apareçam nas histórias que contamos sobre nós próprios. Existe uma historiografia preguiçosa, particularmente apreciada por quem confunde anticlericalismo com cultura, segundo a qual a Igreja Católica teria passado séculos a manter os portugueses na ignorância, até que a modernidade apareceu para lhes ensinar o alfabeto.
Durante séculos, e muito antes de o Estado conseguir assegurar uma presença educativa regular em todo o território, a Igreja criou e manteve uma rede de homens com formação intelectual, capazes de ler os clássicos, escrever, ensinar, interpretar textos e produzir registos. Tanto assim é que uma parte substancial do que sabemos hoje sobre a população portuguesa depende precisamente dessa rede paroquial e da cultura escrita que a sustentava.
Mas não é esse o contributo mais importante dos seminários. Nem sequer é, a meu ver, a formação de gerações de homens que vieram a desempenhar funções na administração, no ensino, na cultura ou na política. O seu contributo decisivo foi outro, hoje particularmente difícil de reconhecer: os seminários introduziam na sociedade uma instância de distanciamento em relação aos dois poderes que mais facilmente capturam uma pessoa. O poder do Estado e o poder da tribo.
Um rapaz que entrava no seminário aprendia que o Estado não era a origem de todas as legitimidades. Mas aprendia também a distanciar-se da família, da aldeia, dos costumes e das lealdades que tinham organizado a sua infância. Passava a viver numa comunidade onde a origem social não desaparecia, mas deixava de constituir o princípio exclusivo da sua identidade. Desde a Academia de Platão que assim é: a educação pressupõe alguma forma de questionamento das origens e de resistência perante o mundo. Ora, foi esta dupla distância que contribuiu, mais tarde, para o desenvolvimento da sociedade civil em Portugal. O clero formado nos seminários foi um dos grandes dinamizadores da imprensa portuguesa, um importante agente de divulgação cultural e um dos poucos contrapoderes com verdadeiro peso na sociedade.
Há, por fim, outro equívoco que vale a pena desfazer: os seminários não foram essencialmente instrumentos de ascensão social. Uma instituição pode produzir mobilidade social sem ter sido concebida, ou socialmente entendida, como um mecanismo de ascensão social. É evidente que muitos rapazes encontraram neles oportunidades de formação que dificilmente teriam tido noutro lugar. Negá-lo seria absurdo. Mas existe aqui um enorme anacronismo. As famílias portuguesas dos séculos XVIII ou XIX não encaravam o seminário como hoje uma família encara a entrada de um filho numa universidade prestigiada. As sociedades não funcionavam assim. A própria família não desempenhava o papel que hoje lhe atribuímos. A ideia contemporânea de que a educação dos filhos deve acontecer sob a supervisão permanente dos pais é muito mais recente do que gostamos de admitir. Sobretudo, esquecemo-nos de que o catolicismo não era simplesmente uma opção religiosa entre outras. Era a atmosfera cultural em que se vivia. Entrar num seminário podia ser tão natural para um rapaz como hoje é, para uma criança de três anos, entrar numa escola de futebol.
Criados na sequência do Concílio de Trento, os seminários não se reduziram a uma política agressiva de Contrarreforma. Foram também um prolongamento dos movimentos de renovação que já atravessavam a Igreja e a Europa antes de Lutero, Calvino e Henrique VIII, procurando, ao mesmo tempo, ampliar o espírito do Renascimento. Naturalmente, não foram os únicos lugares onde isso aconteceu, nem estiveram sempre à altura do ideal que lhes dava sentido. Mas seria um erro concluir que os defeitos de uma instituição – e todas têm os seus – esgotam o seu significado histórico.
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