Empresas seguram novos investimentos à espera da política econômica do Lula 4
São Paulo O mergulho de 18% da Bolsa brasileira e o repique de 9% do dólar na semana passada foram a parte mais visível da reação dos investidores à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para o seu quarto mandato como presidente da República. De forma silenciosa, os dias que se seguem são marcados pela decisão de muitos gestores e empresas em pausar novos projetos.
Não existem levantamentos que possam medir esse movimento em tão curto espaço de tempo, mas empresários, economistas e consultores ouvidos pela Folha afirmam que o alto comando de companhias e fundos quer saber quem será o novo ministro da Fazenda e a política econômica do Lula 4 antes de definirem estratégias para os próximos quatro anos.
"A gente percebe que todo mundo está entrando numa espécie de piloto automático para tocar a operação no dia a dia e, no que se refere a novos projetos e expansões, principalmente no caso de quem depende de crédito, parou tudo", diz o banqueiro Ricardo Lacerda, fundador e CEO do BR Partners, banco de investimento voltado a fusões e aquisições, mercado de capitais e reestruturações financeiras.
O fundador e presidente da consultoria de infraestrutura Inter.B, Cláudio Frischtak, percebe um período de espera, mas diz que a reação varia conforme o setor. Quem atua pensando no longo prazo costuma aproveitar oportunidades quando elas surgem, mas o executivo lembra que juros elevados por si só reduzem o número de investimentos economicamente viáveis. "A desorganização das contas públicas cobra um preço altíssimo do investimento", afirma.
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À Folha, o estrategista-chefe do BlackRock Investment Institute para a América Latina, Axel Christensen, diz ter, já faz um tempo, uma visão otimista do Brasil, dadas as oportunidades oferecidas em energia verde, terras raras, agronegócio e inovação financeira, além do grande mercado consumidor. "Mas oportunidades não são garantia de sucesso. Para que se concretizem, é preciso execução", afirma.
"Quando se constrói um porto ou uma usina de energia, não se pensa no ano seguinte, nem mesmo nos próximos quatro anos de um governo Lula. Está-se pensando em vários mandatos presidenciais à frente. Mas, se um investidor não souber o que esperar, poderá escolher outro país que ofereça previsibilidade."
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Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesNa semana passada, a importância de o governo detalhar como vai tocar as contas públicas foi destacada pelo economista sênior João Machado, da S&P Global Market Intelligence, braço de pesquisa e análise econômica do grupo S&P Global. Em evento em São Paulo na quarta (28), voltado a investidores de ETFs —fundos de índice negociados em bolsa—, ele afirmou que o mercado estará atento não apenas ao anúncio das medidas, mas também à implementação delas.
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Adotar um compasso de espera é comum após eleições, mas especialistas apontam que o cenário agora é desafiador.
Outros governos enfrentaram inflação ou juros mais altos, ou déficits primários mais profundos. O Lula 4 se depara com uma combinação de juros e dívida elevados, desaceleração do crescimento e choques inflacionários: alta do petróleo, efeitos do El Niño sobre custo de alimentos, reforma tributária e o fim da escala 6x1.
Lula acrescentou mais uma fonte de incerteza ao assumir, durante a campanha, compromissos que exigirão aumento de despesas. Segundo estimativas apresentadas por Alexandre Andrade, diretor da IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão vinculado ao Senado, as promessas eleitorais podem representar um gasto adicional de R$ 40 bilhões a R$ 50 bilhões em 2027. Diante da dificuldade de acomodar esses compromissos sem cortes em outras áreas, Andrade questiona: "Vai remanejar de onde?".
O mercado, porém, não vê risco de calote. O CDS (Credit Default Swap) de cinco anos, um derivativo de crédito usado como termômetro do risco de inadimplência de um país, estava em cerca de 135 pontos na quinta (29), muito distante dos 2.000 pontos de 2002, na primeira eleição de Lula.
A resposta inicial do governo frustrou expectativas. Na quinta (29), o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), escreveu nas redes sociais que "quem está defendendo que Lula faça ajuste fiscal, cortando gastos em políticas sociais, não entendeu nada do que foi essa eleição". Em entrevista à Folha no sábado (31), não descartou a necessidade de economizar, mas classificou a pressão do mercado como "chantagem" e afirmou que ela não pode se sobrepor à vontade popular.
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Participantes do mercado financeiro, por outro lado, apontam a urgência da adoção de medidas. "Essa não é uma discussão ideológica, é matemática", diz o economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Barros. Para dar a dimensão da gravidade do momento, ele faz uma comparação com a recessão de 2015 e 2016, no segundo mandato de Dilma Rousseff, quando a economia encolheu cerca de 6,7%.
Em 2014, o déficit primário rompeu uma longa sequência de 16 anos de superávits. Desde então, o país só voltou ao azul em 2021 e 2022. Neste ano, de janeiro a setembro, os gastos federais somaram R$ 1,9 trilhão, alta de 5,4% acima da inflação sobre igual período de 2025. A arrecadação cresceu mais, 6,5%, mas não o suficiente: o déficit primário, que exclui os juros da dívida, chegou a R$ 90,2 bilhões.
Barros destaca que a dívida bruta também mudou de patamar. Equivalia a cerca de 56% do PIB em 2014 e chegou a 82,9% em setembro deste ano, patamar superado durante a pandemia, quando atingiu o pico de 86,9%.
O economista da ARX lembra que, com a Selic a 13,75% ao ano, descontada da inflação, o Brasil tem um juro real na casa de 8,8%, quase o dobro do registrado em 2014, quando ficou em 5%. Esse juro alto tem duplo efeito: acelera o crescimento da dívida, já que 51,6% dos títulos federais estão atrelados à Selic, e compromete a saúde financeira de famílias e empresas.
Em agosto, 82% das famílias estavam endividadas, um recorde. Naquele mesmo mês, 9,3 milhões de negócios estavam inadimplentes, com R$ 244,4 bilhões em dívidas negativadas, segundo a Serasa Experian.
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Mesmo não sendo a causa única, o crédito caro elevou o número de recuperações judiciais, afetando varejistas como Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok, e recuperações extrajudiciais, caso da Raízen e da Braskem
"Essa taxa de juros é inustentável, porque está comprometendo a renda das famílias e das empresas, e não vai cair se não houver uma melhora fiscal", afirma a economista e colunista da Folha Solange Srour, diretora de macroeconomia para Brasil do UBS GWM, resumindo o pensamento da maioria dos analistas.
Srour está particularmente preocupada com a velocidade de avanço da dívida. Historicamente, cresceu de 1 a 1,5 ponto percentual do PIB por ano. Mantido o ritmo atual, porém, ela estima que o avanço se estabeleça acima de 4 pontos percentuais por ano, levando os investidores a cobrar prêmios de risco cada vez maiores para comprar títulos da dívida brasileira. "A economia já está desacelerando e, se nada por feito, a gente pode ir para uma recessão", diz Srour.
Embora a defesa de um ajuste seja associada a economistas de orientação mais ortodoxa, há especialistas à esquerda que defendem revisão de gastos. É o caso de Nelson Marconi, que participou da elaboração dos programas econômicos das campanhas presidenciais de Ciro Gomes em 2018 e 2022. Marconi propõe, entre outras medidas, suavizar a regra de reajuste do salário mínimo e reformar o modelo da Previdência para o futuro.
"A campanha não discutiu propostas, e o cenário ruim, de taxas de juros e endividamento elevados, permanece. Enquanto essa situação se prolongar, investidores e empresários param para esperar. Agora, tudo depende de Lula. O governo ainda não deu nem um sinal de mudança, mas precisa mudar logo."
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