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Saturday, September 26, 2026

De Belo Horizonte ao País Basco: “Vicentina Pede Desculpas"

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Gabriel Martins (Belo Horizonte, n. 1987) não dava notícias desde a revelação de Marte Um, filme que representou o Brasil na candidatura aos Óscares de 2023 (inédito em Portugal) e que, de certa forma, esteve na antecâmara do recente êxito internacional do país alcançado por Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles, e O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho.

No seu novo trabalho, Vicentina Pede Desculpas, Gabriel voltou a trabalhar com a também mineira Rejane Faria, que já protagonizara Marte Um. Ela é uma das mais sólidas revelações do teatro e do cinema brasileiros dos últimos anos, com a particularidade de ter iniciado tarde o seu percurso artístico, já depois dos 40 anos. Formada em Teatro pela Universidade de Minas Gerais, é co-fundadora do grupo Quatroloscinco – Teatro do Comum, muito activo em toda a América Latina. A Vicentina que interpretou no único filme de língua portuguesa a concurso em San Sebastián é um ponto de viragem no seu percurso. No filme, é secundada por Maira Azevedo, Thalma de Freitas e Grace Passô, que também interpreta outro filme brasileiro presente em San Sebastián, A Professora de Francês, de Ricardo Alves Jr., que compete na secção paralela Horizontes Latinos.

Na Berlinale, brilha a Belo Horizonte de Grace Passô

Em breve ao dispor da audiência da Netflix, que comprou os direitos de distribuição e planeia lançá-lo a 20 de Novembro, Vicentina Pede Desculpas segue os dilemas de consciência da senhora idosa do título, professora reformada que perde um dos seus dois filhos, motorista de um autocarro que se despenha de um viaduto. Quase todos os passageiros morrem e surgem indícios de que o motorista pode ter provocado deliberadamente o acidente, num acto suicida. Sem ter culpa alguma, Vicentina sente-se culpada. Decide então procurar os familiares das vítimas, caso a caso. Quer pedir-lhes perdão.

Estivemos à conversa com realizador e actriz poucas horas antes da estreia do filme em solo basco (depois da sua passagem em Toronto). Foi o último apresentado ao concurso pela Concha de Ouro e ao júri presidido por Ira Sachs, que anunciará o palmarés nesta noite de sábado.

Qual é a origem de Vicentina Pede Desculpas?
Gabriel Martins (G.M.)
— O projecto é antigo, tem mais de dez anos. Houve dois momentos que me inspiraram. O primeiro foi o terrível acidente da Germanwings, em que se provou que um dos pilotos se trancou no cockpit e lançou deliberadamente o avião contra as montanhas dos Alpes num acto suicida. Também importante foi o documentário brasileiro Ônibus 174, co-realizado por José Padilha e Felipe Lacerda, e aquela imagem muito forte da mãe de Sandro do Nascimento, o homem que sequestrou o autocarro, sozinha no velório. Aquela mãe negra, sozinha, exposta numa situação de comoção pública, mexeu comigo. Comecei a pensar em tudo o que pode acontecer à volta de um acidente. Andei muito de autocarro a vida toda, sempre vivi em Contagem, na periferia de Belo Horizonte, precisava de duas horas de viagem para chegar à faculdade. O autocarro é uma espécie de microcosmos da grande cidade: entram pessoas que não se conhecem e, de repente, acontece qualquer coisa — o transporte quebra — e, de repente, está toda a gente envolvida. Queria pensar numa ideia de colectividade a partir da morte, sobretudo a morte inesperada de muita gente, tal como acontece no filme. Como é que esse choque junta as pessoas? Talvez seja preciso acontecer um acidente para pararmos e olharmos uns para os outros.

Quando recebeu o convite para interpretar Vicentina, qual foi a sua reacção?
Rejane Faria (R.F.) — O Gabriel falou-me deste projecto há muitos anos, numa conversa informal. E eu pensei logo: “Não sou eu.” A personagem tinha 75 anos de idade, era 20 anos mais velha que eu na altura.

G.M. — Eu tinha, aliás, pensado nela para outra personagem.

R.F. — Tempo depois, chegou o convite, li o guião e senti-me imediatamente desafiada. Nós já temos um processo de trabalho em curso desde 2013 e eu confio totalmente no Gabriel, nas escolhas dele e na forma como dirige os actores. Então imaginei: aquilo de que eu não for capaz, ele vai fazer-me ver.

Começámos pela caracterização. Fui procurando o corpo daquela mulher, o visual. Primeiro trabalhámos com a Mari Figueiredo [caracterização e maquilhagem], depois veio a figurinista Diana Moreira com o guarda-roupa. Todos os dias aparecia qualquer coisa: uma peça, uma marca. Quando finalmente percebi a mulher que estava ali, fomos procurar a alma dela. O Gabriel já tinha uma imagem muito clara da Vicentina e foi-me retirando essa personagem de dentro. Eu entreguei-me. O olhar era dele, porque ele já conhecia a Vicentina. Fomos descobrindo juntos. Foi difícil, mas ao mesmo tempo o processo foi muito leve. Nunca senti que aquela mulher me estivesse a esgotar.

Vicentina tinha tudo para ser uma personagem dominada pela piedade, pelo sentimentalismo. No entanto, o filme encontra nela uma forma de nobreza. Como se ela se tornasse uma detective da consciência do espectador.

G.M. — Tenho a sensação que, no mundo de hoje, a ideia de perdão quase deixou de existir na sociedade em que vivemos. Estamos numa sociedade muito individualizada e ensimesmada. Romper a barreira entre nós e outra pessoa tornou-se muito mais difícil embora comuniquemos cada vez mais depressa. É uma contradição: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, estamos a perder coisas muito básicas, como saber perdoar alguém ou simplesmente dar prioridade e deixar uma pessoa passar à nossa frente. Eu quis que este filme falasse também do constrangimento das relações sociais. Os encontros da Vicentina são constrangedores. Há silêncios estranhos, ninguém sabe muito bem o que dizer. Parece que as pessoas estão a esquecer-se de ser humanas.

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