Suécia. Eleições marcadas mais por Rússia do que imigração

Sociais-Democratas estão à frente nas sondagens, mas debate centra-se na possível entrada da extrema-direita no Governo. Negociações para formar coligação podem até levar a um inédito bloco central.
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As sondagens não parecem deixar margem para dúvidas: quando este domingo, mais de oito milhões de suecos se dirigirem às urnas para escolher a nova composição do Riksdag, os Sociais-Democratas (S) deverão terminar o dia com mais uma vitória. Uma média dos estudos de opinião coloca o histórico partido da política sueca com 28% das intenções de voto, nove pontos percentuais à frente do segundo classificado, os Democratas Suecos (SD), partido da direita radical. A distribuição de votos é a mesma que resultou das últimas eleições legislativas, em 2022. E, tal como aconteceu nesse ano, um primeiro lugar nas eleições pode não ser suficiente para formar Governo.
Na verdade, como há quatro anos, o mandato para governar a Suécia não depende apenas do número de votos, mas da capacidade de negociação pós-eleitoral dos dois blocos do Riksdag. À esquerda, estão os Sociais-Democratas, os Verdes (MP), o Partido do Centro (C) e a Esquerda (V). Todos juntos somam cerca de 52% das intenções de voto. À direita, estão os Democratas Suecos, os Moderados (M), os Democratas Cristãos (KD) e os Liberais (L). Estes três últimos partidos integram atualmente um Governo de coligação, liderado por Ulf Kristersson, dos Moderados, com apoio parlamentar do SD.
▲ Ulf Kristersson fez uma concessão inédita a Jimmie Åkesson
Getty Images
A solução governativa surgiu da assinatura, em outubro de 2022, depois de semanas de negociações, dos acordos de Tidö. Mas a linha vermelha aí plasmada — o SD não poderia ficar responsável por nenhuma pasta ministerial — há muito se esbateu. Em abril deste ano, Kristersson anunciou um acordo entre o seu partido e a direita radical para “formar um governo de maioria forte [caso ganhem] a confiança dos eleitores”. A possibilidade de a extrema-direita integrar pela primeira vez um Governo na Suécia ultrapassou outros temas da campanha e transformou-se, na visão de vários especialistas, no tema-chave destas eleições. “A eleição é um referendo aos Democratas Suecos; se devemos ou não continuar no caminho da extrema-direita”, sintetizou o analista Jan Guillou, à Reuters.
A política migratória assinada pela extrema-direita que mudou o rumo da Suécia
Para chegar aos acordos de Tidö, democratas-cristãos, Moderados e Liberais cederam às exigências da direita radical no que toca a medidas a incluir no programa de Governo. Em linha com a sua família europeia, as prioridades do partido, liderado por Jimmie Åkesson, estão relacionadas com o bloqueio da imigração e redução da criminalidade — que tendo crescido estava, ainda assim, abaixo da média europeia.
Nos últimos quatro anos, a política de imigração sueca — outrora uma das mais permissivas da Europa — mudou profundamente: deixaram de ser atribuídas autorizações de residência permanentes e foram tornados obrigatórios os testes de cidadania. Desde o início do ano, o país investiu ainda 1,3 mil milhões de coroas suecas (cerca de 115 milhões de euros) num programa de “remigração“, que prevê o pagamento de 30 mil euros a cada imigrante de fora da União Europeia que escolha abandonar a Suécia. “Tem saudades de Mogadíscio? A bolsa de remigração ajuda-o a regressar a casa“, lê-se em cartazes colocados pelo SD a promover a medida.
"O crime baixou, a inflação baixou. Estes tópicos não são tanto o que as pessoas estão a discutir. As pessoas estão a discutir quem é que vai estar no Governo, a eleição está a ser sobre isso."
Zeth Isaksson, sociólogo especialista em comportamentos eleitorais na Universidade de Estocolmo
O plano foi de tal forma abrangente que a nova visão sobre a imigração tomou conta de todos os espectros políticos. Questionada sobre o tema, em entrevista ao Politico, a líder social-democrata e antiga primeira-ministra Magdalena Andersson considerou a política de fronteiras abertas — implementada sob um governo do seu partido — “insustentável” e defendeu uma política migratória “muito restritiva”. A única linha vermelha estabelece-se na retirada da autorização de residência permanente a imigrantes que já estão no país, medida proposta pelos Democratas Suecos.
Neste contexto, a imigração passou, nesta campanha, para segundo plano, erguida como bandeira apenas pela direita radical. “O crime baixou, a inflação baixou. Estes tópicos não são tanto o que as pessoas estão a discutir”, argumenta Zeth Isaksson, sociólogo especialista em comportamentos eleitorais na Universidade de Estocolmo. “As pessoas estão a discutir quem é que vai estar no Governo, a eleição está a ser sobre isso”, apontou à Associated Press.
Ao contrário de 2022, a possibilidade de um Governo sueco ter, pela primeira vez, ministros da extrema-direita está muito mais próxima. Ainda antes de a campanha ter arrancado, o primeiro-ministro Ulf Kristersson já prometera a Åkesson pastas num potencial Executivo — Executivo esse que seria liderado pelos Moderados, mesmo que estes ocupassem, como as sondagens preveem, um terceiro lugar. “Ele está a abdicar da sua carta de negociação mais forte antes da eleição, para obter algo que já tem”, criticava o jornalista e analista de política Torbjorn Nilsson no jornal Svenska Dagbladet, comparando o anúncio, feito no dia 1 de abril, a uma piada do Dia das Mentiras.
▲ Os sociais-democratas, pela mão de Andersson, adotaram uma postura mais restritiva relativamente à imigração
Fredrik Persson/EPA
O anúncio não incluía qualquer detalhe sobre que pastas ficariam para os Democratas Suecos, mas o líder do partido tinha os olhos fixos no prémio. “Eu acho que ministro das Migrações Åkesson soa muito bem“, afirmava nesse dia, ao lado de Kristersson. O chefe do Governo, em entrevista ao Aftonbladet, não recusou a hipótese. “Como se costuma dizer, não vamos vender as peles antes de matar o urso. No entanto, concordamos que, se o SD tiver lugar no Governo, é natural que se foque nos assuntos mais importantes da imigração”, acedeu.
A “ameaça da Rússia” que abriu uma brecha num país unido na questão da defesa
No final de agosto, Mats Engström, analista sueco no think tank European Council on Foreign Relations, notava uma diferença entre a campanha sueca e as restantes campanhas legislativas no resto da Europa durante os últimos quatro anos: “a defesa mal apareceu na campanha“, escrevia. Tal como a imigração, a questão da defesa parecia ser praticamente consensual no espectro político, um consenso visível na questão da adesão à NATO. Afinal, o processo foi iniciado ainda durante o Executivo de Magdalena Andersson, mas a adesão só foi concluída já sob a liderança de Ulf Kristersson.
“Todos os partidos levam a ameaça da Rússia a sério e todos a querem enfrentar como um só. Em vez [de ser sobre a defesa], a eleição está a ser travada sobre o Estado social, a migração, o clima, a economia”, escrevia o especialista num artigo de análise. Três dias depois da publicação deste artigo, caía na campanha uma bomba que colocou a “ameaça da Rússia” debaixo dos holofotes.
▲ A adesão à NATO e o apoio à Ucrânia são temas consensuais na Suécia
Johan Nilsson/EPA
No dia 3 de setembro, a revista da organização não governamental Expo expunha uma alegada presença russa na política sueca. Em causa estavam as ligações de uma funcionária dos Democratas Suecos a pessoas e organizações pró-Kremlin. Polina Malaberg era acusada de espalhar desinformação e propaganda russa relacionada com a invasão da Crimeia e do Donbass, de ter levado familiares russos ao Riksdag e de ter tido acesso a documentos sensíveis e que poderiam interessar à Rússia — se Malaberg passou ou não documentos aos grupos pró-Rússia a que pertencia, a revista não responde.
Malaberg continua a trabalhar para os Democratas Suecos no Parlamento, mas a sua ligação ao partido era mais profunda: a funcionária é companheira de Gustav Gellerbrant, figura importante do SD e apontado como “um dos arquitetos dos acordos de Tidö”. Åkesson rejeitou qualquer conhecimento das posições de Malaberg e prometeu investigar, e Kristersson reagiu imediatamente apelando à sua expulsão do partido. “Não há espaço para narrativas pró-Rússia na Suécia. Estamos numa guerra europeia. Isto são temas sérios”, afirmou ao Aftonbladet.
Porém, as reações não foram suficientes para Magdalena Andersson, que partiu ao ataque e exigiu uma posição mais firme ao primeiro-ministro. “Há informações relativas à segurança nacional que foram expostas? Que medidas tomou e que medidas pretende tomar?”, questionou, na entrevista ao Politico. O tema serviu ainda de gancho para a líder social-democrata questionar a integração dos Democratas Suecos num Executivo.
"Há algum, não direi medo, mas apreensão com a possibilidade de haver ministros dos Democratas Suecos e os sociais-democratas estão a explorar isso."
Nicholas Aylott, professor de ciência política na Universidade de Södertörn
“Podemos vir a ter um Governo sueco em que metade dos ministros, incluindo o ministro dos Negócios Estrangeiros e o ministro da UE, vêm de um partido que acha que devemos fazer um inquérito para a saída” do bloco europeu, condenava a candidata a primeira-ministra. O argumento é reflexo daquela que tem sido uma das estratégias mais visíveis dos sociais-democratas durante a campanha. “Há algum, não direi medo, mas apreensão com a possibilidade de haver ministros dos Democratas Suecos e os sociais-democratas estão a explorar isso”, considerou Nicholas Aylott, professor de ciência política na Universidade de Södertörn, ouvido pela Associated Press.
O crescimento dos Verdes e a linha vermelha entre Esquerda e Centro. Os desafios pós-eleitorais dos sociais-democratas
Apesar da vantagem que as sondagens dão ao partido de Andersson, estas não lhe trazem só boas notícias. Ao longo do verão, os Sociais-Democratas perderam terreno para os restantes partidos, com uma queda de quatro pontos percentuais desde maio. Questionada sobre estes resultados na televisão pública na semana passada, a líder social-democrata recusou sentir-se pressionada e afirmou que os resultados provam a importância destas eleições e o quão renhidos vão ser os resultados.
Os estudos mostram que o partido do centro-esquerda está a perder votos para os partidos do Governo, e, de forma mais expressiva, para os restantes partidos da oposição, cada um com 8% dos votos. O crescimento é particularmente visível para os Verdes que, nas últimas eleições, conquistaram 5%. Anton Sall, editor-executivo do jornal dinamarquês Altinget, vê os Verdes como o partido que melhor soube aproveitar o foco dos dois partidos do centro (M e S) na respetiva rivalidade e ainda como o partido preferencial para um governo de coligação entre os sociais-democratas e os ecologistas. “A Esquerda é apontada pela direita como incapaz de governar e o Partido do Centro como pouco confiável. Mas o Partido Verde é apontado apenas como ambientalista”, sintetiza numa coluna de análise.
▲ Andersson não exclui negociar ao centro e acredita conseguir resolver ultimatos
Anders Wiklund/EPA
Ora, é precisamente na Esquerda e no Centro que está o maior desafio pós-eleitoral para Andersson. O Partido do Centro recusou, de forma categórica, formar Governo com a Esquerda. Já a Esquerda declarou-se disponível para negociar com o Centro, mas não se coibiu de duras críticas: acusou o partido liberal — que era originalmente a “Liga dos Agricultores” — de querer “esmagar o Estado social” e de ser um “enorme obstáculo” à promessa de campanha da Esquerda de aumentar as pensões.
Apesar das acusações da líder da Esquerda, Nooshi Dadgostar, a matriz central que mais aproxima os quatro partidos é a sua aposta na preservação do Estado social e no aumento dos investimentos públicos, por oposição ao bloco dos partidos da direita. Mas as negociações para chegar a um acordo antecipam-se longas. Além das linhas vermelhas declaradas, os quatro partidos discordam nos detalhes de combate às alterações climáticas, na política externa (principalmente em relação ao Médio Oriente e não tanto à Europa e à Rússia) e no aumento de impostos sobre os multimilionários.
Sem nunca apontar preferidos entre os três partidos da esquerda, Andersson aponta apenas uma linha vermelha: o diálogo com o SD. Ou seja, a ex-primeira-ministra não exclui sequer virar-se ao centro para formar um governo minoritário, apoiado pelos Moderados e pelos Democratas Cristãos. Blocos centrais não são uma realidade inédita na cultura política sueca, mas a crescente bipolarização do espectro em dois blocos na última década torna um acordo ao centro em 2026 muito mais difícil de alcançar.
Apesar das divergências que afastam acordos fáceis, as negociações pós-eleitorais não parecem incomodar a líder social-democrata. Questionada sobre estes obstáculos no debate da semana passada, contra Ulf Kristersson, Andersson foi evasiva e não se comprometeu. “Estou na política há tempo suficiente, já vi ultimatos a ir e a vir“, respondeu. As semanas após as eleições permitirão perceber que ultimatos se irão manter e quais irão ser quebrados.
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