A madrugada da "revolução" sem polícia na Praça D. João I

Fechada a assembleia, com um “Bella Ciao”, apelos à demissão de Pedro Duarte e pedidos de “por favor, não desmobilizem”, a garantia deixada por uma das manifestantes e que foi recebida com entusiasmo pela multidão: “Vamos montar aquela que será a melhor acampada desta cidade.”
Em poucos minutos, as tendas multiplicam-se e passaram a ocupar metade da praça. Ao megafone, foram deixados avisos: “Se quiserem beber, se quiserem fumar coisas ilícitas, saiam da praça. Vamos também manter a praça limpa”.
Pelo microfone passou também uma certeza: “As nossas tarefas revolucionárias estão concluídas com sucesso”.
O “FODASE”, as rondas para “desescalar situações” e “vigiar outros”: a segurança na praça
Ainda antes de a assembleia popular ter início, numa esquina da praça decorre uma reunião da “equipa de segurança” do movimento. Durante toda a tarde e noite em que centenas de manifestantes se concentraram na Praça D. João I, o movimento da Acampada do Porto pela Habitação tinha uma equipa de pessoas a fazer a vigilância da concentração. “Nunca andavam sozinhos” e grande parte estavam de caras tapadas. Além de quererem “garantir que ninguém está sozinho”, os objetivos destes elementos passavam por “desescalar situações” e “vigiar outros grupos”.
A organização foi lembrando ao longo da assembleia o “protocolo de segurança” criado para a manifestação: o FODASE:
F: “Ficar calmo. Ninguém foge à toa, ninguém cede à paranoia ou à pressão e ninguém fica sozinho”;
O: “Observar-nos uns aos outros”;
D: “Distância de segurança”;
A: “A cidade” que ‘é a nossa arma e é nossa’;
S: “Segurança pessoal”, que “garante a segurança coletiva”;
E: “Estrilho total contra o capital”
Com medo de um novo confronto com a polícia, além do protocolo, a organização distribuiu também capacetes, cotoveleiras e pedaços de cartão para serem colocados por dentro das camisolas.
Mais atrás, operava a unidade de primeiros socorros. Jo Rodrigues, médico, explicou ao Observador que a equipa médica estaria em permanência no terreno, pronta a intervir. Ao início da noite, com lanternas presas na cabeça e ajoelhados no chão, já tinham tratado de um homem: limparam uma ferida ligeira no braço direito, desinfetaram com gaze. Ainda assim, ao Observador explicam que a situação que mais têm tratado são ataques de pânico e crises de ansiedade.
Apesar de ter sido esta equipa a prestar os primeiros socorros a alguns dos feridos da carga policial da madrugada de quinta-feira, foram os bombeiros que socorreram oito feridos da noite. Já durante a noite deste sábado, a tensão também subiu no quartel de bombeiros a poucos metros da praça.
De acordo com os operacionais que ali estavam neste sábado à noite, um grupo vindo da manifestação veio acusá-los de estarem a encobrir o tipo de ferimentos registados naquela noite, dizendo: “Os bombeiros estão do lado da polícia”. Ana Casado, do movimento, manteve-se a tentar acalmar os ânimos junto do quartel, assegurando que se tratava de pessoas que não são da organização. Os bombeiros permaneceram, porém, em alerta porque um deles viu uma lata de tinta preta no casaco, com medo de vandalismo num dos seus carros.
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