Inspirado na Toyota, método reduz em 25% o tempo de internação em hospitais do SUS
Mais de cem hospitais do SUS (Sistema Único de Saúde) implementaram uma estratégia de redução de desperdícios inspirada na linha de produção da Toyota, para agilizar o atendimento e reduzir a sobrecarga em unidades de urgência e emergência.
Gestado no âmbito do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS), o programa terminou o biênio 2024-2025 com redução de 25% no tempo de internação de pacientes de 104 hospitais, distribuídos em 20 estados e no Distrito Federal. Houve ainda uma redução de 45% no tempo de espera para atendimento e de 14% na permanência hospitalar geral.
A iniciativa contemplou 99 municípios no último biênio. A mior parte dos hospitais está em Minas Gerais, que lidera com 20 unidades adeptas.
Batizada de Lean nas Emergências, a estratégia consiste em revisar procedimentos em prática nos hospitais para cortar excessos e desperdícios, como atrasos na entrega de exames ou uso desnecessário de insumos. Parte-se da premissa de que o tempo do paciente (e dos profissionais) é valioso e não pode ser desperdiçado.
"O projeto é baseado na filosofia Lean, do sistema de produção da Toyota. Na indústria, é utilizado para reduzir desperdícios e deslocamentos desnecessários. A gente aplica a mesma lógica na saúde", diz Carina Tischler Pires, gerente de projetos do Sirio-Libanês e responsável pelo Lean.
A filosofia Lean é uma forma de organizar processos para evitar desperdícios e atividades que não agregam valor ao produto ou serviço, tornando o trabalho mais eficiente. A ideia é identificar etapas desnecessárias, esperas, deslocamentos e retrabalho e eliminá-los ou reduzi-los sem comprometer aquilo que efetivamente gera valor. Na saúde, a lógica é adaptada para o atendimento.
Segundo Carina, os cortes são feitos em etapas que não interferem na relação entre médico e paciente durante o atendimento.
"Uma consulta clínica, por exemplo, é fundamental para o médico compreender, no tempo necessário, as necessidades do paciente. Aí o médico faz a consulta, pede um exame que fica pronto em duas horas e demora três para chegar. O paciente perdeu cinco horas no hospital", diz.
"Ao esperar menos, o paciente permanece menos no hospital, reduz a lotação, reduz o gasto com insumos e aumenta a capacidade de atendimento com a mesma equipe", acrescenta.
Estatisticamente, ao permanecer menos tempo no hospital, o paciente é tratado com mais efetividade e reduz os riscos de contrair uma infecção hospitalar que vai exigir mais da assistência.
O Lean nas Emergências é coordenado por seis hospitais privados que integram o Proadi: Sírio-Libanês, Einsten, Moinhos de Vento, Hcor, Beneficência Portuguesa e Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
O Proadi-SUS é financiado com recursos correspondentes a contribuições sociais que os hospitais deixam de recolher em razão da imunidade tributária assegurada. Em contrapartida, as instituições devem aplicar valor equivalente em projetos e ações que beneficiem o SUS.
No último triênio do Proadi-SUS (2024–2026), o Ministério da Saúde projetou R$ 3,05 bilhões em gasto tributário associado às entidades participantes. O relatório, contudo, ainda não registrava valor executado para este ciclo, que está em andamento. Nos triênios anteriores (2009–2023), o total de valor executado registrado pelo ministério foi de R$ 7,48 bilhões.
Carina afirma que o Lean nas Emergências não é um projeto custoso, uma vez que utiliza apenas recursos disponíveis nos hospitais. O gasto envolve apenas a logística dos profissionais que viajam para os hospitais participantes a título de capacitar as equipes.
Quando um hospital passa a integrar o projeto, uma equipe vai até o local para inicialmente identificar as condições da unidade: recursos estruturais, capacidade de atendimento e pessoal.
Identificados os desperdícios, os coordenadores do Lean fazem uma capacitação in loco com os profissionais de saúde para apontar onde os cortes podem ser feitos. Os profissionais passam ainda por uma capacitação online, na qual conhecem experiências realizadas em outros hospitais.
"Uma vez que a mesma equipe atende mais pacientes, a gente consegue liberar mais leitos, atender os pacientes mais rápido e gastar menos recursos dos hospitais", afirma Luiz Augusto Rodrigues, coordenador de projetos do Sírio-Libanês.
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O acordo com o Ministério da Saúde prevê que, após a implementação da metodologia, os hospitais beneficiados deem continuidade ao trabalho.
Segundo dados do Proadi, ao longo do último triênio, os hospitais participantes implementaram 1.230 pequenas melhorias de processo, fizeram 1.417 visitas técnicas e propuseram 11.080 ações. O índice de execução das práticas pelos beneficiários é de 86%.
Nas unidades participantes, estima-se que 2.083 leitos foram liberados sem necessidade de expansão física, apenas reduzindo o tempo de ocupação.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
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