Por que a ação do Nubank desabou com a possível compra do banco britânico Monzo
As ações do Nubank caíam 8,87% nesta segunda-feira, 28, por volta das 15h12 (de Brasília), na Bolsa de Nova York, cotadas a US$ 12,39. O movimento ocorre após relatos de que a Nu Holdings, controladora do banco digital, negocia a compra da britânica Monzo por até e £10 bilhões (R$ 68,8 bilhões, aproximadamente).
A possibilidade de aquisição foi noticiada no fim de semana pela Bloomberg, que informou que a Nu Holdings mantém conversas preliminares para comprar o Monzo. Segundo pessoas ouvidas pela agência, a operação poderia avaliar o banco britânico entre £ 8 bilhões e £ 10 bilhões. A Sky News havia publicado inicialmente a informação.
O Nubank afirmou que não comenta “rumores ou especulações” e reiterou seu compromisso com uma comunicação aberta sobre assuntos relevantes. O Monzo não comentou.
O negócio, se avançar, marcaria uma mudança relevante na estratégia de crescimento do Nubank. A empresa construiu sua expansão principalmente de forma orgânica e agora teria a possibilidade de comprar uma operação já estabelecida no Reino Unido, com mais de 16 milhões de clientes, £ 25,7 bilhões em depósitos e £ 1,7 bilhão em receita no ano fiscal de 2026.
É justamente o tamanho da possível transação que chama a atenção dos analistas. Para Danielle Lopes, analista da Suno Research, uma aquisição na faixa de £ 10 bilhões significaria pagar um múltiplo elevado sobre a receita e exigiria que o Monzo apresentasse crescimento e aumento de rentabilidade para justificar o desembolso.
"O Nubank estaria pagando bem caro por essa operação. Quando pensamos em um múltiplo de seis vezes a receita, esse preço já pressupõe que o Monzo terá crescimento. O banco tem cerca de 16 milhões de clientes, então é evidente que o Nubank está de olho nessa base e na possibilidade de monetizá-la. O Nubank já tem uma base muito relevante no Brasil e vem aumentando a receita por cliente à medida que suas safras amadurecem", afirma.
Para Lopes, a questão central seria a capacidade do Nubank de rentabilizar o investimento caso a aquisição seja realizada nesse patamar. O Monzo tem mais de 16 milhões de clientes e registrou £ 1,7 bilhão em receita no ano fiscal de 2026. Os depósitos cresceram 55%, para £ 25,7 bilhões. A instituição oferece contas para pessoas físicas e empresas, além de cartões de crédito e seguros residenciais.
O banco britânico também avalia alternativas à venda para o Nubank. Entre elas estão uma nova rodada de captação para financiar a expansão pela Europa e, segundo as informações divulgadas pela imprensa, possibilidades relacionadas a uma abertura de capital. O Monzo havia sido avaliado anteriormente em cerca de £ 4,5 bilhões em uma venda de ações entre investidores em 2024, segundo a Bloomberg.
Mercado vê operação com cautela e surpresa
A XP Investimentos avalia que uma possível aquisição representa uma mudança importante em relação ao modelo histórico do Nubank, baseado no crescimento orgânico. Em relatório, a casa afirma que uma operação desse tamanho introduziria uma complexidade de execução que a companhia ainda não enfrentou nessa escala.
A XP destaca que o Nubank já está expandindo suas operações nos Estados Unidos e que a aquisição do Monzo acrescentaria uma nova frente de atuação internacional. Na avaliação da casa, isso aumentaria as exigências sobre a capacidade de gestão e dividiria a atenção entre diferentes iniciativas estratégicas.
"Embora a iniciativa possa acelerar as ambições internacionais da NU, a encararíamos com cautela, dados os significativos riscos de execução, integração e alocação de capital envolvidos", afirma a XP.
O ponto financeiro também aparece no relatório da corretora. Segundo a XP, uma avaliação de £ 8 bilhões a £ 10 bilhões equivaleria a aproximadamente 4,7 a 5,9 vezes a receita do Monzo no exercício fiscal de 2026 e a 93 a 116 vezes o lucro antes dos impostos, considerando os números apresentados pela casa. O valor da aquisição corresponderia a cerca de 16% a 20% da capitalização de mercado do Nubank.
O BTG Pactual (do mesmo grupo controlar da EXAME) também classificou a possível transação como uma mudança relevante na trajetória do Nubank. Em relatório, o banco afirma que a notícia surpreende diante das iniciativas internacionais que a companhia já colocou em andamento, incluindo o lançamento de suas operações nos Estados Unidos e do Nu Global.
Ao mesmo tempo, o banco aponta que a lógica estratégica da aquisição é direta. comprar o Monzo daria ao Nubank uma operação de grande porte no Reino Unido, infraestrutura bancária local e uma base de clientes que poderia servir de plataforma para uma expansão na Europa continental.
O Monzo também apresenta uma operação de escala relevante. Segundo os dados reunidos pelo BTG, a empresa encerrou o ano fiscal de 2026 com cerca de 16 milhões de clientes, £ 25,7 bilhões em depósitos e £ 1,7 bilhão em receita anual. O lucro antes dos impostos ajustado foi de £ 173 milhões, alta de 20%.
A expansão internacional, porém, adiciona uma camada de complexidade à operação. O Monzo encerrou neste ano suas operações nos Estados Unidos, onde não conseguiu ganhar escala, para concentrar esforços no Reino Unido e na Europa. A companhia também está se expandindo para países como Irlanda e Espanha.
"Essa notícia nos pega de surpresa, especialmente considerando tudo o que a NU já tem em andamento. Há apenas duas semanas, a empresa lançou-se oficialmente nos EUA e apresentou o Nu Global (link), acelerando sua transição de uma empresa focada na América Latina para uma plataforma global de banco digital. Além disso, historicamente, fusões e aquisições não têm sido a rota preferida da NU para expansão", diz o banco.
Risco de perda de eficiência também explica queda da ação
Já Lopes avalia que o movimento precisa ser observado dentro da própria transformação do Nubank. A empresa já possui uma base de cerca de 135 milhões de clientes na América Latina e busca ampliar sua atuação internacional. No Brasil, segundo a analista, o Nubank já alcançou uma escala relevante, o que aumenta a importância de encontrar novas fontes de crescimento.
“O mercado está totalmente preocupado se essas novas operações anunciadas serão feitas e como serão feitas, de forma que a empresa continue mantendo a eficiência que ela sempre manteve”, afirma Lopes.
Essa eficiência é um dos pontos centrais do debate. Historicamente, segundos os especialistas, o Nubank construiu sua operação com uma estrutura de custos considerada baixa e forte alavancagem operacional. Uma aquisição de grande porte acrescentaria uma operação estrangeira ao mesmo tempo em que a companhia amplia sua presença nos Estados Unidos.
O financiamento também é parte da discussão. Segundo a XP, o Nubank tinha, no segundo trimestre de 2026, US$ 9,1 bilhões em capital total, incluindo US$ 2,9 bilhões em caixa e títulos na holding e cerca de US$ 2 bilhões de capital excedente nas entidades reguladas.
A casa ressalta, porém, que esse último montante não equivale à liquidez livremente disponível da holding, devido a exigências regulatórias e à necessidade de capital para sustentar o crescimento.
Uma eventual aquisição poderia envolver uma combinação de dinheiro e ações. Segundo a XP, na ausência de um financiamento significativo por dívida, uma parcela considerável em ações provavelmente seria necessária. O BTG também cita a possibilidade de uma estrutura combinando os dois instrumentos.
O desafio, portanto, não terminaria no preço pago pelo Monzo. Como observa a XP, uma aquisição não colocaria automaticamente novos recursos no banco britânico para financiar sua expansão futura. Caso fosse necessário capital adicional para acelerar o crescimento europeu depois da transação, esse valor teria de ser considerado separadamente.
Ainda não há cronograma definido para um eventual acordo, e as conversas permanecem em estágio preliminar. O Monzo também estaria avaliando outras alternativas, incluindo uma nova rodada de financiamento e uma possível abertura de capital.
Caso a aquisição avance, o Nubank passaria a ter uma presença imediata no Reino Unido e poderia acelerar sua expansão pela Europa. A operação também o colocaria em concorrência mais direta com a Revolut, que tem 80 milhões de usuários no mundo e também busca avançar nos Estados Unidos.
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