Jon Fosse: "O Nobel fez-me facto histórico. Quem quer isso?"

Vestido de preto da cabeça aos pés, o cabelo grisalho apanhado num rabo-de-cavalo, Jon Fosse pede para conversarmos no exterior. Sentamo-nos no terraço do hotel onde está instalado, a vinte minutos de carro de Óbidos, onde decorre o Fólio, o festival literário que motivou a vinda do autor norueguês a Portugal (e que termina no domingo, dia 18). Ao longo dos trinta minutos de entrevista ao Observador, o mar está ali, ao alcance do olhar e do ouvido.
Tudo na fala do autor de 67 anos tem uma cadência própria: as frases avançam e recuam como a maré a bater contra as escarpas dos fiordes do oeste da Noruega, onde nasceu e cresceu, e que serve de pano de fundo a quase tudo o que escreve.
Depois de ter figurado no topo das bolsas de apostas ao longo de quase uma década, a Academia Sueca atribuiu-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 2023, consagrando a “prosa lenta” do “escritor em busca do indizível”. Escritor profícuo, a sua produção era já colossal: dezenas de romances e narrativas curtas, ainda mais peças de teatro, livros de poesia, além de ensaios e literatura infantil. O autor continua a escrever em nynorsk (neo-norueguês), uma variante linguística minoritária falada por cerca de 10% do país, mas que o aproxima da sonoridade e da fonética da sua infância.
Com obra em Portugal editada pela Cavalo de Ferro e com uma presença há muito regular nos palcos nacionais pela mão dos Artistas Unidos, Fosse é um dos dramaturgos contemporâneos mais encenados em todo o mundo — galardoado em 2010 com o Prémio Ibsen. Mas o teatro, como espectador, pouco lhe interessa. Tal como o cinema, ou a música.
Como conta ao Observador, prefere o prazer contemplativo de se plantar diante de um quadro de Mark Rothko, passar os dias a escrever. Difícil de impressionar, mostra-se, celebrando a raridade dos dias em que descobre algo que vale a pena: como a literatura do húngaro László Krasznahorkai, Nobel em 2025.
Sobre o prémio que também ele recebeu em 2023, admite o receio de que o transforme num facto histórico. Talvez por isso, a nova trilogia que está a publicar seja uma reação ao seu magnum opus, Septologia. Ainda que garanta que já estava escrita antes de receber o galardão.
Do tom da conversa emerge a atmosfera que atravessa a sua obra, uma sensação de que o essencial fica suspenso no ar. “Não se consegue explicar aquilo que é a coisa mais importante”, diz-nos, a dada altura. “Se tentarmos reduzi-lo a uma declaração, a uma teoria, perde-se.”
▲ "Cenas de uma Infância" chegou às livrarias portuguesas no verão e reúne num só volume o melhor da prosa curta do escritor
A maioria dos escritores começa com o desejo de contar uma história, passar uma mensagem. A sua obra parece nascer do impulso oposto: uma tentativa de afastar o ruído para escutar alguma coisa. É assim?
Sim. Sabe, na minha juventude, no início da adolescência, a música era uma parte enorme da minha vida. Tocava muito e ouvia muita música, mas, por várias razões, parei de o fazer. Depois comecei a escrever, e o que tentei transportar para a escrita foi aquela sensação do universo em que mergulhava através da música. Portanto, escrever para mim é muito parecido com tocar, não se trata de um compromisso em contar uma história ou passar uma mensagem. Claro que há uma mensagem até na música e na minha escrita também, seguramente, e sinto profundamente que tenho algo de crucial a dizer quando escrevo, tal como sentia quando tocava. Mas dizer exatamente o quê é-me impossível e nem sequer é o meu papel. Acho profundamente errado interpretar-me a mim próprio ou explicar o que escrevo. Eu escrevo, escrever é escutar. É como compor uma melodia. Diferentes melodias, canções ou acordes, se quisermos chamar assim a cada livro, peça, poema.
Como é a sua relação com a música hoje?
Praticamente inexistente. Desenvolvi essa ligação nos meus anos de formação, era um rapaz bastante sensível, suponho. Fui muito, muito moldado pela música e criei uma relação emocional fortíssima com ela. Se me sentar a ouvir música hoje em dia fico emocionado com extrema facilidade e odeio esse estado, ficar demasiado emocionado. A tristeza torna-se quase avassaladora. A minha música agora é a literatura, a leitura e a escrita. Dito isto, consigo ir a um concerto. Se for a um concerto acompanhado pela minha mulher ou por amigos é diferente, porque a presença dos outros impede que me emocione da mesma forma que quando estou sozinho a ouvir música.
Não sente falta?
Não, de todo. Quer dizer, não é totalmente verdade. Por vezes acontece e, se acontece, em algum momento já aconteceu, e por mais aborrecido que seja dizê-lo, acaba por ser sempre Johann Sebastian Bach, uma e outra vez (risos).
Qual é a sua relação com o livro enquanto objeto físico?
Adoro livros. Lembro-me de quando a Apple lançou o primeiro iPad com a promessa de se poder ler um livro naquilo. Comprei-o cheio de entusiasmo, e odiei a experiência de ler num ecrã. Sou completamente fiel aos livros à antiga. Adoro livros, não sou um colecionador, claro, tenho muitos e compro livros desde muito jovem, mas não sou um colecionador em sentido nenhum da palavra. Mas tenho uma coleção considerável.
A leitura alimenta a sua escrita de alguma forma ou são dois processos bem distintos?
Diria que são processos bastante distintos. Sou muito mais escritor do que leitor, embora prefira claramente ler por comparação a outras coisas que se podem fazer na vida, como ver televisão ou um filme. Aí ler é a escolha certa para mim. Leio sobre teologia, filosofia, leio sobre assuntos mais do que leio ficção ou poesia. Porque tenho já tanta ficção e poesia em mim… Sinto que quando leio ficção ou poesia, estou a ler com o olho de quem quer perceber a mecânica do texto, aquilo que torna aquela escrita única, e se um autor não tiver isso então não me interessa, tem de haver algo de divino logo nas primeiras páginas, se não para mim nem vale a pena ler.
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