Fabão: 'Não quero que a minha existência seja resumida a uma história de superação'

Fabão, de 33 anos, levou para o Infiltrado na Cozinha, do GNT, o humor que o fez ganhar espaço na internet. O influenciador e apresentador diz à Quem que ser engraçado desde a infância evitou episódios de bullying, racismo e homofobia, até que descobriu o mecanismo de defesa como forma de expressão. Fabão tomou gosto pelo humor e fez dele o seu trabalho, e as experiências vividas no Complexo do Alemão como homem negro e LGBT+ ajudam a construir seu repertório.
"Você aprende a ler os ambientes, as pessoas... até os silêncios você aprende. Eu acho que isso desenvolveu em mim um olhar muito atento para o comportamento humano, para os absurdos das situações cotidianas. Gosto de observar aquilo que todo mundo vive, mas nem sempre consegue nomear. Gosto de exagerar a realidade até ela ficar engraçada, porque muitas vezes a realidade já é tão absurda que a gente precisa apontar a câmera. Não quero que o meu humor seja definido pelas violências que eu vivi, mas reconheço que a minha história construiu o meu olhar", avalia.
Com o sucesso e a maturidade, há situações da infância e da adolescência das quais Fabão agora consegue achar graça. "Conseguir rir de algo não significa que aquilo não tenha doído. A gente pode olhar para o passado com leveza sem invalidar o que sentiu naquela época. Tenho muito carinho pelo menino que eu fui. Meu trabalho também é uma forma de dizer a ele que no futuro ele vai poder ser quem precisar ser, e sem precisar pedir licença", acredita.
O artista é contrário à ideia de que quaisquer situações negativas devam ser transformadas em lições ou piadas. "Algumas coisas precisam simplesmente ser sentidas, elaboradas e principalmente respeitadas. Não acho que tudo precise virar conteúdo, muito menos que a dor tenha que justificar alguma coisa. Trabalho com humor, mas eu não sou uma máquina de transformar sofrimento em entretenimento. Existem experiências que ainda me atravessam e que talvez nunca precisem virar piada. Hoje tenho mais tranquilidade para entender que posso ser engraçado sem estar bem o tempo inteiro. Entender que não preciso performar leveza em todos os momentos da minha vida me deixa muito tranquilo", afirma.
"Existe uma expectativa de que a gente organize a própria história em uma narrativa bonita, com começo, meio e fim, obstáculos, aprendizado e um final inspirador, como se toda dor precisasse produzir uma grande lição para ter algum valor. Entendo a importância de compartilhar experiências e eu sei que contar minha história pode ajudar outras pessoas a se reconhecerem nelas, mas não quero que a minha existência seja resumida a uma história de superação. Não sou inspirador o tempo inteiro e eu nem preciso ser. Para mim, a verdadeira conquista está em poder construir uma vida em que eu não precise transformar cada dificuldade em um discurso pra merecer reconhecimento", declara.
Fabão também rejeita a ideia de ser referência apenas de suas lutas. "Essa é uma conversa importante. Existe uma cobrança para que pessoas como eu sejam didáticas o tempo inteiro, representem grupos inteiros e estejam sempre preparadas para falar sobre racismo, homofobia, diversidade, inclusão etc. Tudo isso é importante, óbvio, mas também quero falar de moda, de comportamento, de coisas banais, de situações até ridículas que acontecem no meu dia a dia", diz.
Fabão fala sobre cobranças e expectativas do público sobre sua vida privada
O artista considera o impacto de seu trabalho quando o assunto é promover reflexão e diz que quer ser exemplo para quem busca o próprio espaço.
"Gostaria que as pessoas entendessem que é possível construir uma carreira sem abrir mão da própria identidade. Não significa que todo conteúdo precise ser uma grande mensagem, ou que a gente precise transformar cada vídeo em uma aula de entretenimento. Acredito que fazer alguém rir depois de um dia difícil já é alguma coisa. Ao mesmo tempo que podemos provocar conversas, questionar padrões, e implicar referências sem perder a leveza, quero ajudar a construir um mercado em que mais pessoas tenham oportunidade de contar suas histórias, inclusive aquelas que durante muito tempo nem eram consideradas dignas de serem contadas", deseja.
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