Ações de saúde sobem, empresas de Elon Musk caem: como as midterms chegam à bolsa
A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, as midterms, já mexe com o mapa de vencedores e perdedores em Wall Street. No pré-mercado desta quarta-feira, 4, planos de saúde e fabricantes de painéis solares disparam, enquanto as empresas de Elon Musk e as companhias ligadas a data centers lideram as quedas.
Segundo projeções da agência AP, os democratas somam 54 das 100 cadeiras do Senado, com duas disputas ainda sem definição, e 228 cadeiras na Câmara, acima das 218 necessárias para a maioria.
O partido tomou ao menos sete cadeiras dos republicanos no Senado, com vitórias como a de James Talarico no Texas, reduto republicano, e a de Abdul El-Sayed em Michigan. A votação era tratada como o principal teste de Trump nas urnas no segundo mandato.
A partir de janeiro, qualquer lei precisará de algum apoio democrata para passar pelo Congresso. Trump, porém, mantém o poder de veto, e os democratas não têm votos suficientes para derrubá-lo.
Depois de um susto na madrugada, os índices operam em alta. Os futuros do Dow Jones sobem 1,18%, os do S&P 500 avançam 0,74% e os do Nasdaq ganham 0,62%.
Planos de saúde lideram as altas
As operadoras de planos de saúde e as redes hospitalares estão entre os destaques do dia. A Molina Healthcare salta 6,3% e a Centene, 4,7%. UnitedHealth e HCA Healthcare sobem cerca de 1,4%.
Antes da votação, o JPMorgan já apontava o setor como beneficiado por um Congresso democrata, que poderia reverter os cortes no Medicaid, o programa público de saúde para a população de baixa renda, aprovados no pacote fiscal de Trump.
Christopher Hodge, economista-chefe para os EUA do Natixis CIB Americas, afirmou em nota na terça-feira, segundo a revista Fortune, que os democratas podem usar o peso nas negociações do teto da dívida e do orçamento para obter concessões em gastos com saúde.
A CVS Health divulga resultados antes da abertura e também está no radar, depois de reportagens indicarem que a empresa planeja separar os negócios de farmácia e de planos de saúde.
Energia solar dispara
As ações de energia solar estão entre as maiores altas da manhã. A First Solar avança 8,1%, a Canadian Solar, 7%, e a SolarEdge, 3%.
Na mesma nota, Hodge cita os subsídios à energia limpa entre as concessões que os democratas podem arrancar nas negociações com a Casa Branca.
Empresas de Musk no vermelho
Na outra ponta, as empresas de Elon Musk sofrem. As ações da Tesla caem 4,9% e as da SpaceX, 4,8%. As duas têm sede no Texas, onde os democratas venceram a disputa pelo Senado e pelo governo estadual.
Segundo o jornal The New York Times, Musk gastou quase meio bilhão de dólares para apoiar candidatos republicanos nesta eleição.
A Trump Media, empresa de mídia ligada ao presidente, recua 6,5%.
Data centers na berlinda
A inteligência artificial foi um dos grandes temas da campanha, tanto pelo risco de perda de empregos quanto pela proliferação de data centers.
No Texas, a democrata Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott com a promessa de uma moratória para novos data centers no estado. O partido também venceu a eleição para governador em Ohio, outro polo do setor.
As chamadas neoclouds, empresas que alugam capacidade de computação para IA, lideram as perdas. A CoreWeave cai 3,6% e a Nebius, 1%. Companhias ligadas a data centers, como IREN, Hut 8 e Applied Digital, também recuam.
O movimento começou na Ásia. Na bolsa de Taiwan, as ações da TSMC, maior fabricante de chips do mundo, caíram 1,5%, e em Tóquio as do SoftBank, um dos maiores investidores em tecnologia, recuaram 3,2%. O índice japonês Topix fechou em queda de quase 1%, depois de tocar a mínima em meses, e o de Taiwan perdeu 0,8%. Já o Kospi, da Coreia do Sul, reverteu as perdas e subiu 0,6%.
Stephen Brown, economista-chefe para a América do Norte da Capital Economics, lembra em nota que os democratas vão ocupar cadeiras no Senado em estados tradicionalmente republicanos pelos próximos seis anos.
Segundo ele, isso aumenta a chance de mudanças mais amplas caso o partido vença a próxima eleição presidencial, incluindo aumento de impostos para empresas e para pessoas de alta renda e uma regulação que pode atrasar o avanço da IA.
Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico do Natixis, vê exagero no temor. Ao New York Times, ela disse não esperar que os democratas matem "a galinha dos ovos de ouro".
Fabricantes de chips resistem
Nem toda a cadeia da IA sofre. A AMD sobe mais de 7% no pré-mercado, depois de projetar um crescimento acima do esperado para 2027. A CEO Lisa Su afirmou que a receita deve crescer mais de 80% no próximo ano, acima dos 77% esperados por analistas, segundo dados citados pela Reuters. Cerca de 80% das vendas devem vir de chips para data centers.
A Nvidia avança 0,5%. Entre as gigantes de tecnologia, a Amazon sobe 1,1% e a Microsoft, 0,3%, enquanto a Alphabet cai cerca de 0,4%. Arm e Qualcomm divulgam resultados nesta quarta.
Defesa, dólar e tarifas
As ações de empresas de defesa recuam. Para Deepali Bhargava, economista-chefe para a Ásia-Pacífico do ING, também citado pelo NYTI, a vitória democrata pode travar a agenda doméstica de Trump e levar o presidente a concentrar mais atenção na política externa.
Os democratas também podem endurecer a postura em relação à China, o que complicaria as aproximações de Trump com o líder chinês, Xi Jinping.
O dólar perde força. O índice que mede a moeda americana frente a uma cesta de divisas cai 0,5%, e o juro do título de dez anos do Tesouro recua levemente, com a expectativa de que um governo dividido segure os gastos federais. Segundo Bhargava, a vitória democrata pode pressionar o dólar no curto prazo, mas, num horizonte mais longo, a moeda seguirá ligada às decisões de juros do Federal Reserve.
O resultado também pode abrir espaço para exceções nas tarifas de Trump. Ao NYT, Stephen Olson, pesquisador do Iseas-Yusof Ishak Institute, em Singapura, avaliou que o Congresso, incluindo republicanos favoráveis ao livre comércio, pode tentar retomar parte da autoridade sobre a política comercial.
Historicamente, as ações têm bom desempenho com o Congresso dividido, que funciona como freio a mudanças bruscas de política. Os estrategistas da Amundi alertaram, em relatório no mês passado, que paralisações do governo e disputas sobre o teto da dívida são riscos maiores sob um Congresso democrata, e que, com os juros americanos no nível atual, o impasse pode não trazer o alívio de ciclos anteriores.
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