Grapette: o que aconteceu com o primeiro refrigerante de uva do Brasil
RESUMO +
A marca de refrigerante de uva Grapette, que chegou ao Brasil em 1948, ainda existe e opera por meio de fabricantes regionais abastecidos com concentrado pela Saborama. Após perder presença nacional diante da concentração do mercado, a bebida aposta na memória afetiva e no slogan “Quem bebe Grapette repete” para recuperar consumidores e alcançar novas gerações em 2026.
Quem viveu os anos 1960, 1970 ou 1980 provavelmente se lembra de uma garrafinha de vidro, de um refrigerante roxo e de um jingle que grudava na cabeça: "Quem bebe Grapette repete".
Durante décadas, a bebida de uva fez parte das festas de aniversário, dos almoços de domingo e das propagandas de televisão.
Depois, foi ficando cada vez mais difícil encontrá-la nas prateleiras.
Mas, ao contrário do que muita gente imagina, a Grapette não acabou. A marca, que chegou ao Brasil em 1948, continua sendo produzida no país. Hoje, o negócio funciona por meio de fabricantes regionais, que produzem e distribuem o refrigerante em diferentes estados.
A história da Grapette ajuda a explicar como uma marca que atravessou gerações perdeu espaço em um mercado dominado por grandes fabricantes de bebidas. Também mostra como um produto que parecia ter ficado no passado conseguiu sobreviver por meio de um modelo de produção diferente daquele que o tornou conhecido.
Parte dessa memória está no slogan lançado no Brasil em 1963: "Quem bebe Grapette repete".

A frase, acompanhada de um jingle criado por Heitor Carillo, virou uma das marcas registradas da bebida e continuou sendo lembrada mesmo quando o refrigerante deixou de aparecer com frequência nos supermercados.
Agora, o desafio da Grapette é transformar essa lembrança em vendas. A empresa aposta na fabricação regional e na força de uma marca conhecida por consumidores mais velhos para continuar disputando espaço nas gôndolas, ao mesmo tempo que precisa conquistar uma geração que não cresceu tomando o refrigerante.
Como nasceu a Grapette?
A história começou nos Estados Unidos, na pequena cidade de Camden, no Arkansas. Foi ali que o empresário Benjamin Tyndle Fooks passou anos desenvolvendo sabores para refrigerantes, até encontrar uma fórmula de uva que considerou pronta para o mercado.
Em 1940, Fooks comprou por 500 dólares os direitos sobre os nomes Grapette, Orangette e Lemonette. Pouco depois, colocou o refrigerante de uva à venda.
Um dos diferenciais estava na embalagem. Enquanto outros refrigerantes eram vendidos em garrafas maiores, a Grapette chegou ao mercado em uma garrafa de vidro transparente de aproximadamente 177 mililitros.
O formato permitia mostrar a cor roxa da bebida e fazia com que o produto gelasse mais rápido.
A estratégia funcionou. Em 1950, dez anos após o lançamento, a Grapette havia se tornado o refrigerante de uva mais popular dos Estados Unidos. Nas duas décadas seguintes, a marca chegou a mais de 300 engarrafadores em 38 estados americanos.
A expansão também alcançou a América Latina. Em 1945, a primeira franquia internacional foi aberta na Guatemala. Três anos depois, a bebida desembarcou no Brasil.
A chegada ao Brasil e o slogan que virou parte da cultura popular
A Grapette chegou ao mercado brasileiro em 1948, por meio da Companhia de Refrigerantes Guanabara, no Rio de Janeiro. A bebida foi apresentada como o primeiro refrigerante de uva do país, em um período no qual o setor ainda tinha uma variedade menor de sabores.
O slogan inicial era "Com ou sem sede", uma tradução da campanha americana "Thirsty or Not".
A grande virada na publicidade veio nos anos 1960. Em 1961, a marca passou para o grupo Anderson Clayton & Co., que criou a Grapette S/A, com sede em Capuava, na Grande São Paulo.
Dois anos depois, surgiu a campanha "Quem bebe Grapette repete". O jingle ajudou a transformar o nome do refrigerante em uma frase repetida por brasileiros de diferentes gerações.

A marca também investia em anúncios de revistas, campanhas promocionais e ações como a "Tampinha Premiada". Em 1968, por exemplo, a Grapette aparecia em uma propaganda na revista O Cruzeiro, associada ao verão e ao público jovem.
A presença da bebida na cultura popular atravessou décadas. Em 1983, a banda Blitz lançou a música "Betty Frígida", que fazia referência ao refrigerante.
Quais foram os desafios
A trajetória da Grapette começou a mudar com a concentração do mercado de refrigerantes e a ampliação da concorrência.
Nos Estados Unidos, a marca passou por uma série de mudanças de controle. Em 1970, foi vendida para a Rheingold Corporation. Sete anos depois, acabou nas mãos da Monarch, que também era dona de uma concorrente, a NuGrape.
A nova proprietária deixou de priorizar a Grapette no mercado americano. A marca só voltaria a ganhar espaço décadas depois, em uma operação ligada ao Walmart.
No Brasil, a trajetória seguiu outro caminho. A Grapette passou pelo grupo venezuelano Imataca e estabeleceu uma relação com a Saborama, empresa fundada em 1973 para produzir o concentrado utilizado na fabricação do refrigerante.
A concorrência também cresceu. Com mais marcas disputando espaço nos supermercados e novos produtos chegando ao mercado, a Grapette perdeu parte da presença nacional que havia construído.
Na tentativa de atrair consumidores mais jovens, a Saborama lançou, nos anos 1990, uma versão de framboesa. Em algumas regiões, essa versão acabou se tornando tão conhecida quanto o tradicional sabor de uva.
Quem é dono da Grapette hoje?
No Brasil, a operação da Grapette está ligada à Saborama, empresa sediada em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, desde 1993.
Seu modelo de negócio é diferente do de uma fabricante que concentra toda a produção em poucas unidades e envia o refrigerante para o país inteiro.
A Saborama trabalha com indústrias regionais, que recebem o direito de fabricar e comercializar os produtos da marca. A empresa fornece o concentrado, enquanto os parceiros ficam responsáveis pela produção, distribuição e venda.
Entre os mercados que já contaram com fabricantes ou distribuidores ligados à Grapette estão Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Amazonas, Ceará, Pará e estados do Nordeste.
O desafio também mudou. Nos anos 1960, a Grapette precisava fazer o consumidor lembrar de seu nome na hora de escolher um refrigerante. Em 2026, precisa convencer quem se lembra da marca a procurá-la novamente — e apresentar o produto a quem nunca ouviu o famoso jingle.
'Perguntas frequentes'
A Grapette ainda existe no Brasil? +
Sim, a Grapette continua sendo produzida e comercializada no Brasil. A operação funciona por meio de indústrias regionais responsáveis pela fabricação, distribuição e venda do refrigerante em diferentes estados.
Quando a Grapette chegou ao Brasil? +
A Grapette chegou ao Brasil em 1948, por meio da Companhia de Refrigerantes Guanabara, no Rio de Janeiro. A bebida foi apresentada como o primeiro refrigerante de uva do país.
Como nasceu o refrigerante Grapette? +
A Grapette nasceu em Camden, no estado americano do Arkansas, após Benjamin Tyndle Fooks desenvolver uma fórmula de refrigerante de uva. Em 1940, Fooks pagou US$ 500 pelos direitos sobre os nomes Grapette, Orangette e Lemonette e lançou a bebida no mercado.
Quem produz a Grapette atualmente no Brasil? +
A operação brasileira da Grapette está ligada à Saborama, empresa sediada em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. A Saborama fornece o concentrado a fabricantes regionais, que produzem e comercializam o refrigerante.
Por que a Grapette perdeu espaço nos supermercados? +
A Grapette perdeu presença nacional com a concentração do mercado de refrigerantes e o aumento da concorrência entre marcas e produtos. As mudanças de controle da marca e a menor prioridade dada ao refrigerante em determinados períodos também afetaram sua expansão.
Quando surgiu o slogan “Quem bebe Grapette repete”? +
O slogan “Quem bebe Grapette repete” foi lançado no Brasil em 1963, acompanhado de um jingle criado por Heitor Carillo. A campanha tornou a frase uma das principais marcas da bebida e manteve sua lembrança entre diferentes gerações.
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