Mário Carneiro: "O primeiro objetivo era salvar pessoas"
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Mais um entrevistado que está aqui ao meu lado, Ricardo. Temos o Mário Carneiro.
Vamos a ele.
Mário Carneiro, vamos ouvi-lo. Mário Carneiro tem também uma história muito curiosa, e é uma história que ainda não foi contada, porque Mário Carneiro durante todos estes anos preferiu estar em silêncio.
Sim, era uma coisa que eu não gostava de falar, porque além de eu estar lá também no setembro 11, como ajudante, eu também sofri câncer na cabeça e tive que fazer tratamentos por causa de estar lá. Então é uma coisa que eu sempre fiquei mais privado, porque só as pessoas mesmo chegadas, como os amigos e os trabalhadores com quem eu trabalhava, é que sabiam o que eu estava a passar e o que eu passei.
Conte-nos o que fazia nessa altura, como é que ajudou nos primeiros trabalhos de resgate.
Eu trabalhava numa agência, chamava-se New York City Department of Design and Construction. Era uma agência de trabalhos municipais, para construir prédios, ofícios para livrarias, polícias, bombeiros. E eu estava no departamento para construir casas de bombeiros. Eu trabalhava para um comissário, que se chamava Luís Mendes, que também era português, e eu trabalhei para ele por vários anos antes de setembro 11. No dia de setembro 11, vimos que uma das torres foi batida. Pensamos que aquilo era uma coisa que tinha que ser-
Uma coisa pequena.
Uma coisa pequena, mas era mais uma situação para polícia, bombeiros e AMS. Para eles, era a situação deles. Quando o segundo avião bateu, vimos o avião bater na segunda torre, foi aí que a gente soube que era uma coisa mais grave. Estávamos à espera para ver o que ia acontecer, se queriam que a gente fosse ou não. Logo depois que a primeira torre caiu, já vimos que era uma situação muito grave e eu falei com o meu patrão, e o meu patrão estava à espera de ordens para saber o que ia fazer, através do comissário dele e do mayor da cidade de Nova York.
E um dos trabalhos era recolher escombros.
Sim, eu estive lá na noite, com o meu patrão, o Luís Mendes, estivemos lá naquela noite e vimos a situação, como é que se atacava aquilo para salvar pessoas, que era a nossa primeira missão, salvar pessoas, e para também tirar partes do prédio e pedra para os bombeiros terem acesso à parte interior, para salvarem pessoas.
Portanto, retiravam os escombros para os bombeiros poderem entrar e resgatarem as pessoas que ainda estavam vivas.
Pois, naquela noite, preparamos caminhonetes para poder aceitar o lixo, mas as ruas estavam todas fechadas com partes do prédio, não se passava. Então eu fui para ver se eu podia ajudar entre os bombeiros e a malta das obras que estavam lá, tentar ajudar com máquinas. E foi isso que eu fiz naquela noite, organizar com os bombeiros em certas partes do World Trade Center, onde eles precisavam mais ajuda.
Sei que ficou lá vários dias sem regressar a casa. Contou-nos que dormiu num pequeno divã de uma escola.
Sim, eu logo naquela noite fui para casa, tomei banho, mudei os sapatos e voltei para trás e fiquei lá quatro dias, numa caminha das crianças da escola, que a gente estava ocupando uma escola que ficava mesmo ao pé, como as nossas oficinas de trabalho. Eu estive lá quatro dias, infelizmente, para ver o que eu podia fazer e receber ordens do meu patrão, o que se tinha que fazer. Depois voltei para casa, dormi um pouco e, durante os seis meses que eu estive lá, foi sempre assim: chegava em casa, tomava banho, dormia um pouco e umas horas depois estava lá para trabalhar. Eram 12 em 12 horas que a gente trabalhava, que aquilo ficou mais organizado com a malta que trabalhava. Aquilo foi dividido entre quatro secções e cada grupo — e eram centenas de pessoas — tinha o chefe da secção e, para a agência que eu trabalhava naquele momento, o chefe daquilo tudo era os bombeiros, e o Luís era o meu chefe. Eu trabalhava de dia e ele trabalhava de noite e a gente encontrava-se às três ou quatro da manhã para conversar o que eu vi, o que eu pensava que ele devia também fazer, o que se passou naquele dia, porque ele era o meu patrão e eu tinha que avisá-lo o que se passou no dia.
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