Para onde vai a geopolítica no Iémen e na Europa?

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Este é o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o Major-General Sá Numara. Bom dia.
Bom dia. Bom dia a todas.
Bem-vindo. Também nos pode acompanhar com imagem nas redes sociais ou pelo site do Observador. Enquanto andávamos distraídos com a situação militar no Golfo Pérsico, os houthis prepararam uma ofensiva surpresa ao longo da costa do Mar Vermelho e chegaram mesmo ao Estreito de Bab-el-Mandeb. General, o que está a levar os houthis agora para sul e que impacto pode ter o destino do Iémen na ordem mundial?
Eu confesso que até 2014 nem sabia quem era os houthis. Nunca tínhamos ouvido falar nos houthis. Os houthis era um grupo tribal que habitava nas montanhas do noroeste do Iémen, portanto, junto da fronteira sul com a Arábia Saudita e junto à costa do Mar Vermelho. Começámos a ouvir falar dos houthis em 2014 porque de repente os houthis puseram-se em marcha e conquistaram a capital do Iémen, que era Sana'a e que é Sana'a. A conquista de Sana'a abriu uma nova perspectiva e um novo reconhecimento internacional de que havia um problema. Primeiro, que o governo do Iémen era um governo muito fraco, com muitas dificuldades em estabelecer pontes entre todas aquelas tribos que faziam parte do Iémen e, por outro lado, com uma força militar interessante que tinha surgido praticamente a partir do nada e que tinha tido capacidade de derrubar o governo legítimo do Iémen. A partir de março de 2015, houve uma reação da Arábia Saudita, que conseguiu congregar forças e armar as outras tribos do Iémen, dar apoio àquilo que nós reconhecemos como o governo legítimo do Iémen, mas um governo fraco e muito disputado. E os houthis foram, de alguma maneira, parados. A progressão dos houthis parou. Os houthis controlam cerca de um terço do território do Iémen e representam também autour de 35% da população do Iémen. Entretanto, a situação foi se agudizando do ponto de vista internacional. Isto já não era só uma questão dos houthis e do governo do Iémen. É que a 4 de novembro de 2017, foi disparado um míssil balístico contra o Aeroporto Internacional de Riad. Em 2017, um míssil balístico. Ou seja, verificou-se que o míssil era iraniano, que quem o tinha disparado tinham sido operacionais do Hezbollah, a partir do território do Iémen.
Conjugação.
Veja só como em 2017, o nível de integração dos proxies do Irão no Médio Oriente já era tão grande que o Irão fornecia os mísseis, o Hezbollah fornecia a expertise para operar os mísseis, o Iémen fornecia o seu território para atacar a Arábia Saudita. Isto é extraordinário. Em 2017, um grupo que praticamente ninguém conhecia, de repente disparava mísseis balísticos sobre o Aeroporto Internacional de Riad. Voltamos agora aos tempos da semana passada. O que é que aconteceu? Aconteceu que no dia 9 de setembro, os houthis estavam na cidade costeira de Al-Khafjah. Dia 9 de setembro. No dia 10 de setembro, já tinham tomado a cidade costeira de Mocha, que fica 50 km a sul. Entre o dia 9 e o dia 10, avançaram 50 km ao longo da costa do Mar Vermelho. No dia 11, chegaram a outra cidade costeira mais a sul, Dubab, que fica 50 km a sul de Mocha. E com a chegada a Dubab, tomaram a ilha de Perim, que é o ponto onde o estreito é mais estreito, a ilha de Perim fica apenas a 20 km da costa do Djibouti. Por que agora? Isto é uma manobra combinada e articulada. Por que agora? Há aqui várias coisas que contribuíram para isto. Primeiro, a observação de que os Estados Unidos entraram numa fase da campanha eleitoral em que não vão aplicar força militar. Ou seja, os houthis sentiram-se com liberdade de ação por causa das eleições norte-americanas, de dizer: "Nós podemos fazer isto à vontade, porque os Estados Unidos não vão utilizar a força militar durante a campanha eleitoral para as intercalares". Estamos a ver aqui que as democracias têm também um conjunto de fragilidades imensas que são aproveitadas. Janela de oportunidade e eleições nos Estados Unidos, não vai haver intervenção dos Estados Unidos e portanto, temos liberdade de ação. Segundo, uma estratégia combinada e articulada pelo Irão, que marcou uma reunião em Omã para conversar e apresentar uma solução, a sua solução, a solução iraniana, para resolver os problemas do Golfo Pérsico, e precisava de uma Arábia Saudita que não estivesse em condições de negociar. Para isso-
Está fragilizada
...para isso, o oleoduto leste-oeste foi bombardeado a partir do Iraque Mais forças proxies do Irão a partir do Iraque. Nós encontramos, de repente, uma conjugação de fatores que é a seguinte, isto é interessante do ponto de vista da análise até do sistema internacional, que é: a Arábia Saudita é o centro de todas as pressões neste momento. Não consegue fazer passar em quantidade suficiente petróleo pelo Estreito de Ormuz. Os houthis disseram que deixam passar toda a gente, menos os petroleiros sauditas pelo Estreito de Bab-el-Mandeb, e a capacidade de transferir petróleo da costa leste para a costa oeste, através do pipeline, também foi cortada. No espaço de uma semana, reuniram-se condições para fragilizar a Arábia Saudita. Para quê? Para que a Arábia Saudita fosse à reunião promovida pelo Irão e estivesse disponível para aceitar todas as condições que o Irão queria impor. Mas mais interessante que isso, do ponto de vista desta estratégia, é que se o Irão tivesse sucesso nessa reunião, iria mostrar aos Estados Unidos que afinal o problema era os Estados Unidos. Isto é, todos os países do Golfo aceitam a solução iraniana. Portanto, os Estados Unidos não têm mais que fazer do que abandonar o seu bloqueio ao Irão. A estratégia iraniana é uma estratégia muito bem pensada e, sobretudo, com uma enorme capacidade de-
E muito premeditada também.
Exatamente, de acionar aquilo que são os seus proxies para os efeitos de natureza militar, para depois articular tudo isto numa estratégia de natureza política de isolamento da Arábia Saudita. A Arábia Saudita merece duas reflexões finais. Primeiro, havia um compromisso moral do mundo para com a Arábia Saudita. A Arábia Saudita era quem equilibrava as exportações de petróleo a nível mundial. Era preciso mais petróleo, a Arábia Saudita fornecia. Era preciso menos petróleo, a Arábia Saudita controlava. A Arábia Saudita era o grande estabilizador dos mercados petrolíferos mundiais. Tinha um compromisso moral: a segurança da Arábia Saudita. O mundo que beneficiava dos equilíbrios de fornecimento e de retração de fornecimento da Arábia Saudita, tinha um compromisso moral, desde o final da Segunda Guerra Mundial, de proteger a Arábia Saudita. De repente, os Estados Unidos fizeram um acordo com os houthis, em que os houthis acham que não vão ser atacados pelos Estados Unidos e prometeram aos Estados Unidos que não iam atacar os petroleiros ou os navios dos Estados Unidos. Abandonámos a Arábia Saudita à sua sorte. Primeiro, quebrou-se aqui um vínculo que vai ter desenvolvimentos no sistema mundial. É que aquilo que eram os compromissos de segurança parecem estar a ser trocados por outro tipo de compromissos. Segundo, não falámos aqui no nosso programa sobre o Pacto de Meca. O Paquistão e a Turquia não tinham prometido que o ataque a um era um ataque a todos? A Arábia Saudita está no ataque. Onde estão as forças do Paquistão e as forças da Turquia? O acordo não é tão velho como isso, tem três semanas, ainda se deviam lembrar do que foi assinado. Nós vamos voltar um dia destes, falar um bocadinho sobre a situação geopolítica da Arábia Saudita. Mas o que nós notamos é que houve a quebra de um compromisso. Isto é, os Estados Unidos neste momento asseguram que os seus barcos não são atacados, mas os barcos da Arábia Saudita podem ser atacados. Já não há o compromisso de segurança com isso. E eu sou muito maldoso nas missões da União Europeia. Há lá uma missão europeia, a Aspides. A missão europeia Aspides destina-se a proteger, dar segurança e a acompanhar, a escoltar os barcos que passam, os navios que passam no Estreito de Bab-el-Mandeb. Não se sentem seguros, os petroleiros sauditas deviam beneficiar também da Operação Aspides e poder circular. Que maldoso. Pronto, por aqui.
Nesta quarta-feira tivemos em Estrasburgo e perante o Parlamento Europeu, mais um discurso do Estado da União Europeia. Foram muitos os temas abordados por Ursula von der Leyen, mas as questões da segurança e da defesa mereceram um especial destaque. O que podemos reter deste discurso da presidenta da Comissão Europeia?
O discurso do Estado da União é uma opção que foi instituída pelo Tratado de Lisboa e inaugurada por Durão Barroso em 2010. E copia um bocadinho aquilo que é o formato que já existe em muitos países, em que o primeiro-ministro de cada país vai ao respectivo Parlamento fazer uma espécie de um balanço do que se passou e anunciar medidas para o ano que vem a seguir. Qual é o balanço geral deste discurso? Primeiro, muita segurança e defesa, correspondendo um bocadinho ao diagnóstico de que o mundo mudou e a Europa está cercada por um mundo, por um enquadramento muito mais hostil. Do ponto de vista securitário, mas também do ponto de vista econômico e financeiro. Muita segurança e defesa, incluindo imigração e asilo. Depois, o acento na ameaça russa, que está presente em várias fases do discurso, e também naquilo que é a nossa responsabilidade coletiva europeia na defesa da Ucrânia. Depois, sítios onde houve menos ênfase. Houve pouca economia. À medida que sobem as preocupações com a segurança, desce a preocupação com a economia. Um dado assustador: o déficit comercial europeu com a China é de 1000 milhões de euros por dia. É brutal este número. O nosso déficit comercial com a China, neste momento, é de 1000 milhões de euros por dia. Depois, muito menor entusiasmo verde. Isto é, o entusiasmo verde tem vindo a diminuir porque o preço da energia tem vindo a aumentar e, à medida que o preço da energia sobe, nós achamos que a opção verde é uma opção que é preciso levar com muito cuidado. Agora já falamos em adaptação. Pronto. Depois, incapacidade de reconhecer a incapacidade do consenso europeu em relação a Israel e à Palestina. Encontrei 12 vezes a palavra Rússia no discurso. Fiz o download do discurso e mandei o Word pesquisar o número de palavras. Quantas vezes a palavra Rússia aparece no discurso? 12 vezes. Fiz a mesma pesquisa com Estados Unidos da América. Nenhuma vez. Não há uma única referência aos Estados Unidos da América no discurso de von der Leyen. Pelo menos o Word não conseguiu encontrar nenhuma vez. A grande surpresa, para além daquele ato muito mais simpático, vamos ver se isto tem algum desenvolvimento político de convidar o Canadá para membro associado. O grande debate é sobre a necessidade de conseguir um certo consenso europeu para responder a determinados incidentes de natureza de segurança. Mas pergunto eu: é possível pôr isto em modo automático? É que não há dois incidentes iguais. E depois, a Comissão Europeia não pode retirar aos Estados a competência da investigação de cada um destes incidentes. É cada um dos Estados que tem competência para investigar cada um destes incidentes. Portanto, esta coisa de que agora vamos arranjar um mecanismo rápido de consulta dos vários membros para tomar decisões, não me parece nada uma boa ideia, para dizer a verdade. Tenho imensas dúvidas sobre isto. Primeiro, porque não se pode retirar competência de investigação aos Estados. Depois, sem os Estados fazerem essa investigação, não podemos atribuir culpas a ninguém. Depois, porque os Estados não vão ficar à espera da União Europeia. Isto é, se um drone entrar no espaço aéreo polaco, os polacos três minutos depois abateram, fizeram levantar a sua Força Aérea e abateram o drone. Esta coisa deste artigo quarto à moda da NATO parece-me aquilo que é um hábito, que se tornou um hábito. Cada vez que há um problema, cria-se um novo organismo. Eu que estive na Direção Geral de Política de Defesa Nacional, já não se consegue encontrar na agenda sítio nenhum para ir tantas vezes a Bruxelas. A quantidade de comissões, de reuniões que existe traduz-se na paralisia também de todo o processo de decisão. Portanto, talvez fosse mais interessante, do meu ponto de vista, utilizar as instituições que já temos e os modelos que já temos e agilizá-los se eles estão mal, em vez de andarmos a criar agora aqui novos mecanismos de consulta que vão ficar paralisados porque o número de incidentes não vai parar de crescer.
Depois de ter culpado a Ucrânia pelo aumento do preço do diesel nos mercados mundiais, Donald Trump publicou um tweet na sua rede social a dizer que a Federação Russa e a Ucrânia tinham concordado em não atacarem as infraestruturas energéticas do adversário, mas os ataques continuam. General, afinal que cortina de fumo foi esta?
O que dizia o tweet era o seguinte: A Ucrânia concordou em não atingir alvos energéticos russos. A Rússia concordou em proceder da mesma maneira. A subida mundial do preço do diesel é largamente causada pela guerra Rússia-Ucrânia e não pelo Irão. Presidente Donald Trump. Quem lê um tweet destes, ninguém deu conta que tivesse havido alguma negociação. Isto deve ser um processo muitíssimo complicado. Negociar isto deve ser uma coisa muitíssimo complicada. Temos aqui matéria para muitas semanas, senão vários meses, para negociar uma coisa destas. Como é que de repente, sem darmos conta, é anunciado que a Ucrânia concordou em não atingir alvos energéticos russos? É claro que quer os russos, quer os ucranianos, para serem simpáticos e não desmentirem, arranjaram aqui as soluções, disseram: "Sim, é uma ideia, pode ser discutida e tal, desde que seja cumprido aqui um conjunto de condições." Isto é, Donald Trump foi Donald Trump, e nós já trouxemos aqui o seu perfil num programa que dedicámos a Donald Trump, que é isto: ele cria uma realidade e depois procura forçar as partes.
Constrói toda uma narrativa. Sim, exatamente.
Forçar as partes a aceitar essa realidade. É como se ele marcasse um objetivo, mas dá esse objetivo como já atingido. E agora as partes têm que se adaptar para satisfazer isso. Esse é um dos aspectos. O segundo é o aspecto que nós também aqui referimos nesse programa, que é Donald Trump não fala para a política, fala para os mercados. E portanto, isto era importante dizer aos mercados que, atenção, já houve aqui um acordo entre a Ucrânia e a Federação Russa, vai ficar tudo bem do ponto de vista energético.
Hoje trazemos para o nosso Ponto de Mira a situação complexa em que se encontra o Reino Unido, com o crescimento dos movimentos nacionalistas e independentistas que se implantaram nas várias regiões. General Arromar, o que se passa com o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte?
Há uma enorme confusão entre aquilo que são designações de natureza geográfica e natureza política. Por quê? Nós estamos sempre a confundir umas com outras. Dois exemplos. Ilhas Britânicas. Quando falamos em Ilhas Britânicas, estamos a falar num conjunto de grandes ilhas, mas sobretudo em duas. As Ilhas Britânicas compreendem a Grã-Bretanha e a ilha da Irlanda. Ambas são Ilhas Britânicas. Isso é uma designação de natureza geográfica. Nós quando falamos também em Grã-Bretanha, não estamos a falar numa entidade política, estamos a falar numa entidade geográfica, é a grande ilha que está ao lado da ilha da Irlanda. Portanto, Grã-Bretanha e Ilhas Britânicas são designações de natureza geográfica, não são de natureza política. Ao longo dos anos, e este é o ponto que eu agora trago aqui, mais ou menos de século em século, e vamos ver como é importante isto de século em século, os súbditos de Sua Majestade mudam. Não obstante a coroa britânica se manter perene, a verdade é que a configuração geográfica daquilo que são os seus súbditos muda, e muda substancialmente. Trago aqui três exemplos ao longo de três séculos. Em 1707 foi formado o Reino da Grã-Bretanha. Grã-Bretanha, a ilha. Por quê? Porque se juntou, sob a coroa britânica, três entidades: a Inglaterra, a Escócia e o País de Gales. E fazia sentido chamar Grã-Bretanha a isto. Era o Reino da Grã-Bretanha, porque estas três entidades, estas três nações, estavam contidas dentro daquela definição geográfica da grande ilha da Grã-Bretanha. Portanto, 1707, temos o Reino da Grã-Bretanha. Um século depois, 1801, a Irlanda junta-se a esta união e passamos a ter o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda, uma nova designação política. Passado um século, em 1922, uma parte da Irlanda declara-se independente. Fica apenas a parte da Irlanda do Norte como pertencendo à coroa britânica, o que significa que foi preciso mudar outra vez a designação. Agora já não fazia sentido estar Irlanda e agora passou então a ser, esse é o nome oficial hoje em dia da entidade política, o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. É porque também mudou muitas vezes de nome, que nós umas vezes dizemos Inglaterra, Grã-Bretanha, Reino Unido. Andamos praticamente sempre indecisos como é que nós havemos de referir. O nome oficial deste Estado soberano é Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. Só que os líderes políticos atualmente no poder regional da Irlanda do Norte, de Gales e da Escócia, resolveram assinar agora um manifesto solicitando a realização de referendos de independência. Ora, passou mais uma vez um século. A última vez tinha sido em 1927, passado um século, 2027, cá temos outra vez a procura de uma nova configuração para a soberania dos súbditos de Sua Majestade.
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