A Mata do Fontelo, em Viseu

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Olá, seja muito bem-vindo. Já sabe, esta é a história das histórias. Eu sou o João Paulo Secadura e estou tão curioso, como certeza está, para ouvir o Jorge Adolfo Marques, historiador e professor. Está em Viseu para nos contar curiosidades sobre sítios, locais, memórias, personalidades. É o que vamos fazer esta semana. Olá, Jorge, bem-vindo. Vamos dar um passeio à mata. Vamos à Mata do Fontelo. Vamos isso.
É verdade.
Bem-vindo.
Olá, João. Um olá também para todos que nos estão a ouvir. Sim, de facto vamos a um lugar que é icónico na cidade de Viseu e penso que até em todo o país. Vou começar pelo fim, que é dizer que a Mata de Fontelo foi classificada como monumento nacional, muito recentemente, no ano passado. Portanto, é uma mata que neste momento tem essa classificação como monumento nacional. E repare-se, uma mata como monumento nacional. Isto remete para a sua longa história, uma história que começa na Idade Média. Os documentos mais antigos que falam de um lugar na periferia da cidade de Viseu. Hoje, a Mata do Fontelo está cercada pela cidade. Mas se recuarmos mil anos, era um bosque que estava na periferia da cidade, portanto estava nos arrabaldes da cidade. A pouco mais de 500 metros da velha muralha romana, que ainda se mantinha, digamos, já um pouco decadente e caída, tombada, mas que não ficava muito longe daquilo que era a Mata do Fontelo.
Sim.
Então é na Idade Média, particularmente a partir dos inícios do século XII, que vamos encontrar alguns documentos que nos falam de um sítio que era o Fontelo. Esse lugar é referido em documentos de compra e venda de propriedades que ficavam nesse sítio que era denominado de Fontelo, que já não corresponde à Mata do Fontelo dos nossos dias, porque ao longo destes últimos mil anos, essa mata também foi sendo urbanizada, e urbanizada de diversas maneiras, nomeadamente com a criação de um parque desportivo, que é o Parque Desportivo do Fontelo.
Sim.
Mas vamos então ao início. Século XII, começam essas referências. Há uma figura muito importante na história da cidade, na história da diocese e na história da Catedral de Viseu, que é um dom Odório. Ele primeiro foi prior da Sé de Viseu, mas depois Dom Afonso Henriques, já no reino de Portugal, depois de restaurada a diocese de Viseu em 1147, Dom Odório vai ser o primeiro bispo dessa diocese restaurada, porque até aí quem administrava o território da diocese de Viseu era o bispo de Coimbra. E portanto, esse dom Odório vai ser uma figura importante, porque vai comprar algumas propriedades dentro da Mata do Fontelo. E isso, ao longo dos tempos, a igreja de Viseu, a Sé, a Catedral de Viseu, vai começando a ter ali um conjunto de propriedades que foram muito importantes para que mais tarde, já no reino de Portugal e particularmente a partir do século XIII, o Fontelo começa a ser um lugar onde viveram bispos da cidade. Portanto, os bispos da diocese de Viseu, nomeadamente um dom Egas Viegas, viveu no Fontelo ali no início do século XIV. Mas há um aspeto muito importante: em 1399, começa a ser construído o Paço Episcopal de Fontelo.
Pois, era isso que eu ia dizer. Havendo lá bispo, de certeza que vão fazer lá a sua residência, não é? Pronto.
É isso.
Claro.
A partir do final de 1399, estamos mesmo no final do século XIV, temos um bispo que começa a construir esse paço. Esse paço que vai ser construído, reconstruído, digamos, adaptado às necessidades do tempo. Vários bispos fizeram ali obras, por exemplo, o bispo dom Garcia, que continuou as obras de outros bispos anteriores. Esse, aliás, até foi importante porque mandou construir a capela de Santa Marta, uma capela que vai permanecer até praticamente aos nossos dias. Mas há um bispo muito importante nesta história toda, que é o bispo dom Miguel da Silva. O bispo que depois foi cardeal em Roma. Um bispo renascentista. Talvez um dos bispos mais famosos da história eclesiástica da diocese visense. Porque esse bispo, que foi bispo entre 1526 e 1547, não só melhorou esse paço episcopal, como também a quinta em torno. A quinta que era O Fontelo. Como passou a ser um coto. Ali o rei não cobrava impostos. Fundou a capela do Senhor Morto, começou a construir a cerca dessa grande quinta. É o momento áureo do Fontelo.
Jorge, este Dom Miguel da Silva fez muitos melhoramentos, é muito conhecido pelos melhoramentos que fez à cidade. Foi muito importante.
Foi. Ele quando foi bispo da diocese de Viseu, mandou construir, nomeadamente, o chamado Claustro Dom Miguel da Silva. Na Sé de Viseu, que hoje quando as pessoas entram na Sé, encontram logo ali.
Veem logo à direita, exato.
Do lado direito da porta principal, um belo claustro renascentista. Importa dizer que este bispo, nascido em Évora, portanto é evorense.
Não sabia.
Exato. Ele foi para Roma e vem de Roma. Ele estava em Roma desde 1514, quando aí foi confirmado como bispo da diocese. Ele estava lá desde 14, mas em 26 é confirmado como bispo. Ele tinha ido para lá como embaixador de Dom Manuel, do nosso rei Dom Manuel.
Sim, aquelas embaixadas que mandava ao Papa. Exato.
Exatamente. Ele dá-se com os papas da época. Mas o que é importante é que ele trouxe para Viseu o Francesco de Cremona, o mestre pedreiro, Francesco de Cremona, que foi um importante arquiteto, nomeadamente no estaleiro do Vaticano, e veio e vai ter um papel importante nessas obras que vão ser feitas, quer no Paço Episcopal, quer na Catedral. E também na construção da chamada Casa do Miradouro. Portanto, o Dom Miguel da Silva tem um papel muito importante nestas obras, é um homem que vai engrandecer, criar ali uma espécie de vila à moda romana, no Fontelo. Ele vai ser patrono também do nosso Grão Vasco, o pintor Vasco Fernandes, e faz-se retratar num quadro que está exposto no Museu de Grão Vasco, o quadro intitulado "Cristo em Casa de Marta", que é da autoria, por acaso, de Gaspar Vaz, mas da escola de Grão Vasco, e em que ele aparece ao lado direito de Cristo, retratado, e a própria arquitetura que aparece neste quadro é a arquitetura do claustro que ele mandou construir.
Exatamente. Assim deixou para a eternidade uma memória.
O seu retrato. Não havendo fotografia, há um-
Mas isso fazia-se muito, não era, Jorge? Desculpa. Isso fazia-se muito. Os dadores, normalmente o casal de encomendantes.
Os mecenas.
Os mecenas faziam-se representar ajoados, faz com, claro.
E então este nosso príncipe da Igreja, um homem extremamente conceituado no Vaticano e entre os humanistas italianos, e não só. É um homem que é retratado, está lá o retrato dele, a pintura dele, o rosto dele, num quadro que até, do ponto de vista técnico, não é dos mais importantes desta escola de Grão Vasco, mas tem este pormenor interessante que é o retratar esse bispo, que foi muito importante para o Fontelo. Fontelo esse que depois vai ter obras por outros bispos, Gonçalo Pinheiro, e por aí fora, Dom Jorge Ataíde, etc. Até que entra numa certa decadência, e o que é certo é que a Quinta do Fontelo foi presídio militar já no século XX. Aquele edifício que era o paço, passou a presídio militar, portanto foi expropriado durante a Primeira República, uma parte da Quinta é entregue ao Ministério da Agricultura, outra ao Ministério do Exército, outra parte para a Câmara Municipal de Viseu, e esse edifício que era o paço é convertido em presídio militar. Estiveram lá pessoas famosas, como, por exemplo-
O nosso Aquilino.
O Aquilino, mas antes dele, Machado Santos, o herói da Rotunda em 5 de outubro. Portanto, ele está lá preso em 1911.
No 4 de outubro. É verdade.
Exatamente. Ele é que é o grande responsável pelo triunfo da República, na Rotunda. Ele está lá preso em 1911, porque depois meteu-se numa série de outras revoltas naquele tempo atribulado da Primeira República. E depois temos lá também, já numa fase pós 28 de maio de 1926, o nosso escritor Aquilino Ribeiro, que é também preso porque também andou metido numa tentativa de revolta naquele período inicial da ditadura. E em 28, ele foge de lá e conseguiu se evadir.
Exatamente.
Um aspeto mais curioso é que depois a Câmara vai construir um parque desportivo, com estádio municipal e com uma série de outras infraestruturas, e hoje é uma mata com cerca de 10 hectares, um pulmão da cidade e que é monumento nacional por todas estas histórias e muitas mais que nós poderíamos aqui desfiar.
Muito bem, fica aqui então este registo e esta vontade de agora voltar à Mata do Fontelo, mas já sabendo exatamente a história daquilo, que afinal tem muitos séculos, não fazia ideia que era tão antiga. Muito bem, Jorge, então estamos conversados. Jorge Adolfo Marques, marcamos encontro amanhã. Bem-hajas. Obrigado.
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