Lula x Flávio Bolsonaro: entenda as acusações contra a Meta às vésperas do 2º turno
RESUMO +
Restrições a anúncios, falhas na geração de imagens por IA e recomendações de perfis colocaram a Meta no centro de uma disputa eleitoral. O TSE determinou tratamento igual às candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro, sem concluir que houve manipulação deliberada. A empresa atribui os episódios a problemas técnicos e nega favorecimento político. A campanha de Lula pediu novas apurações, enquanto a de Flávio também questionou a atuação da plataforma.
Bloqueios de anúncios, falhas na geração de propaganda por inteligência artificial e recomendações de perfis levaram a Meta ao centro de uma disputa sobre o tratamento dado às campanhas presidenciais. A coligação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acusa a dona do Instagram, Facebook e WhatsApp de favorecer Flávio Bolsonaro (PL). A empresa, por sua vez, reconhece erros, mas nega motivação política.
O caso já produziu uma ordem do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para garantir tratamento igual às candidaturas, confirmada por unanimidade na sexta-feira, 16. A decisão tem caráter preventivo e não conclui que a Meta manipulou deliberadamente a distribuição de conteúdos.
Neste sábado, 17, a coligação de Lula anunciou pedidos de apuração à Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) e à Polícia Federal (PF), além de uma comunicação a um relator da Organização das Nações Unidas (ONU). Em outra frente, a campanha de Flávio também apresentou reclamação contra a plataforma, alegando negligência diante de anúncios negativos.
O que o TSE determinou?
A decisão do ministro Marco Aurélio Bellizze, tomada na quinta-feira, 15, e mantida pelo plenário no dia seguinte, exige que a Meta aplique critérios iguais às duas campanhas até o fim do segundo turno, em 25 de outubro. O descumprimento pode gerar multa diária de R$ 500 mil.
A ordem impede restrições desiguais de distribuição, buscas e métricas. Continuam admitidas medidas baseadas em políticas previamente divulgadas e aplicadas de forma idêntica, regras eleitorais e determinações judiciais.
Entre as providências determinadas estão a revisão humana de restrições a contas de anúncios, ou a reavaliação de bloqueios automáticos em até duas horas, e a aplicação dos mesmos critérios na Meta AI.
A empresa também deve repor, até 21 de outubro, o impulsionamento contratado pela campanha de Lula e não entregue.
Quais problemas a Meta reconheceu?
Em nota enviada à EXAME na sexta-feira, 16, a Meta reconheceu falhas em diferentes serviços, mas afirmou que os episódios tiveram causas distintas e não foram direcionados contra uma candidatura. A resposta separa quatro ocorrências.
- Bloqueio da conta de anúncios em 23 de setembro. Segundo a empresa, a conta da campanha de Lula foi desativada por engano por pouco mais de uma hora. Um anúncio teria sido interpretado incorretamente como uma tentativa de se passar por um programa social do governo. A Meta afirma que a página oficial no Facebook e o perfil no Instagram não foram bloqueados.
- Contagem de visualizações em 7 de outubro. A companhia diz que uma falha deixou os números de reproduções de Reels congelados, incorretos ou zerados durante cerca de cinco horas, sem interromper a distribuição dos vídeos. Segundo sua versão, o problema atingiu criadores em mais de 100 países, e a campanha de Flávio também entrou em contato para relatá-lo.
- Criação de anúncios em 9 de outubro. Uma atualização de código teria impedido temporariamente o impulsionamento de publicações já feitas no Instagram. A Meta afirma que o envio direto de peças pelo Gerenciador de Anúncios continuou disponível, assim como os anúncios que já estavam em circulação. A falha teria terminado nas primeiras horas do dia 10.
- Geração de propaganda por IA em 14 de outubro. Usuários registraram pedidos de imagens favoráveis a Flávio atendidos pela Meta AI, enquanto solicitações semelhantes sobre Lula eram recusadas. A empresa atribuiu o comportamento a uma lacuna nos filtros e disse tê-la corrigido naquele dia.
Por que a IA gerava imagens de Flávio e recusava pedidos sobre Lula?
A explicação apresentada pela Meta é que os filtros identificavam referências explícitas aos candidatos, como “Lula”, “Luiz Inácio Lula da Silva”, “Bolsonaro” e “Flávio Bolsonaro”, mas nem sempre reconheciam primeiros nomes comuns associados a números eleitorais.
Assim, pedidos com “Flávio” e seu número podiam passar pela barreira. A companhia afirma que a mesma brecha permitia gerar cartazes com “Luiz” e o número de Lula. Essa é a justificativa técnica da empresa, que contesta a interpretação de que o comportamento demonstrava preferência política.
A regulamentação eleitoral proíbe que sistemas de IA recomendem candidaturas, indiquem preferência de voto ou favoreçam ou desfavoreçam concorrentes, mesmo quando o usuário faz esse pedido.
O que as mensagens internas acrescentaram ao caso?
Uma reportagem da Folha de S.Paulo, publicada na sexta-feira, 16, relatou conversas em que funcionários da Meta discutiam restrições à campanha de Lula, demora na solução de problemas e recomendações indevidas de perfis ligados a Flávio.
Segundo o jornal, as mensagens tratam da impossibilidade de impulsionar publicações do Instagram em 9 de outubro e de diferenças nas buscas. O perfil de Flávio apareceria recomendado em determinadas pesquisas, enquanto o de Lula não surgiria nem pelo nome exato.
A Folha ressalta que as conversas examinadas não contêm admissão de interferência eleitoral. Elas registram problemas e a preocupação dos funcionários com sua gravidade e resolução.
A distinção importa porque reconhecer uma falha que prejudicou uma campanha não equivale a demonstrar que ela foi provocada para beneficiar a adversária. A origem dos erros, sua extensão e a resposta da empresa são pontos da controvérsia.
Ter mais visualizações comprova favorecimento?
Uma diferença de desempenho, isoladamente, não revela como os vídeos chegaram ao público. Visualizações podem incluir repetições, e o contador público não informa, sozinho, quantas pessoas diferentes assistiram nem de onde vieram as reproduções.
Um levantamento do Sleeping Giants Brasil sobre o desempenho de vídeos de Nikolas Ferreira no Instagram, por exemplo, encontrou resultados atípicos numa amostra de 300 Reels de 30 perfis. Os próprios autores ressaltam que a comparação não comprova favorecimento pelo algoritmo.
Há também uma diferença entre distribuição orgânica e impulsionamento. O primeiro é a circulação sem contratação de anúncio; o segundo envolve pagamento para ampliar a entrega.
A regra eleitoral determina a exclusão dos perfis e canais informados pelas candidaturas dos sistemas de recomendação, com exceção das hipóteses legais de impulsionamento pago.
Por que a campanha de Lula fala em possível financiamento ilegal?
A acusação da coligação é que um eventual favorecimento na distribuição ou produção de conteúdo poderia representar um benefício econômico não declarado à campanha de Flávio, mesmo sem transferência de dinheiro.
Seu levantamento atribui a visualizações consideradas excedentes um valor bruto hipotético de R$ 7,44 milhões, usando como referência o custo de impulsionamento pago por Lula. O cálculo não corresponde a um pagamento identificado nem comprova que esse benefício tenha sido concedido.
A coligação informou ter pedido à PGE e à PF preservação de registros, acesso a dados e depoimentos. Ao relator da ONU, solicitou acompanhamento dos fatos e do cumprimento das determinações do TSE. Esses pedidos não equivalem a uma conclusão das autoridades sobre a existência de crime.
O que a campanha de Flávio Bolsonaro diz?
A campanha do candidato do PL também passou a questionar a Meta no TSE. Segundo a Folha de S.Paulo, uma manifestação apresentada na sexta-feira, 16, pede sua entrada como terceiro interessado na ação movida pela coligação de Lula.
A equipe de Flávio acusa a empresa de negligência diante do impulsionamento de anúncios negativos contra o candidato e pede que a plataforma impeça essa prática contra qualquer uma das candidaturas do segundo turno.
Trata-se de uma reclamação distinta da acusação de favorecimento formulada pelo adversário.
O governo também tomou alguma medida?
Em uma frente separada da iniciativa eleitoral da coligação, o Ministério da Justiça recomendou à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão que proponha uma ação civil pública contra a Meta por falta de transparência na moderação de conteúdos, segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada neste sábado, 17.
A recomendação inclui pedidos de fundamentação individualizada das decisões, possibilidade de contestação e revisão humana. É uma proposta do governo ao Ministério Público, que não deve ser confundida com uma ordem judicial já concedida.
O que ainda precisa ser esclarecido?
A Meta sustenta que erros técnicos, medidas antifraude e aplicação de regras eleitorais explicam os episódios. Na nota de sexta-feira, afirmou que seus sistemas não distribuem conteúdo com base em ideologia política e negou favorecer candidatos.
A controvérsia permanece sobre a dimensão dos prejuízos, as recomendações indevidas, a rapidez das correções e a possibilidade de tratamento desigual.
Os erros reconhecidos não encerram essas perguntas, assim como as acusações das campanhas não substituem sua comprovação.
A ordem de tratamento igualitário vale até o fim do segundo turno, no próximo domingo, 25. Antes disso, a decisão prevê para 21 de outubro a reposição do impulsionamento contratado pela campanha de Lula e não entregue.
Perguntas frequentes
A Meta admitiu favorecer Flávio Bolsonaro?
Não. A empresa reconheceu erros técnicos, mas nega favorecimento político ou interferência eleitoral.
O TSE concluiu que houve manipulação deliberada?
Não na decisão descrita nesta reportagem. A ordem tem caráter preventivo e exige tratamento igual às duas candidaturas.
Por que a Meta AI gerava propaganda de Flávio?
Segundo a empresa, uma brecha nos filtros permitia que primeiros nomes comuns combinados com números eleitorais passassem pela proteção. A Meta afirma que isso também ocorria com “Luiz” e o número de Lula.
Qual é a multa prevista?
A decisão prevê multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento.
Os R$ 7,44 milhões representam uma doação identificada?
Não. São uma estimativa hipotética da campanha de Lula para visualizações que considera excedentes, não um pagamento comprovado.
Flávio também reclamou da Meta?
Sim. Sua campanha apresentou manifestação ao TSE questionando a atuação da empresa diante de anúncios negativos impulsionados contra o candidato, segundo a Folha de S.Paulo.
A ONU já se pronunciou sobre as acusações?
O anúncio da coligação trata do envio de uma comunicação a um relator. Esse encaminhamento não representa uma conclusão da ONU sobre o caso.
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