"Papa Leão XIV tem prognóstico geral positivo"

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Seja bem-vindo ao Explicador das Manhãs 360. Ontem, a confirmação do Vaticano: o Papa Leão XIV tem um cancro do pulmão, diagnosticado depois de uma cirurgia que correu bem, mas que vai ter implicações na agenda do líder da Igreja Católica. Vamos analisar esta situação com a ajuda do pneumologista Agostinho Marques e também do padre Ricardo Figueiredo, num Explicador que começa agora, conduzido por Paulo Ferreira e pela Carla Jorge de Carvalho.
Foi ontem à noite que o Vaticano confirmou o diagnóstico de cancro do pulmão ao Papa Leão XIV. O boletim clínico foi avançado logo após a cirurgia. Muito bom dia, bem-vindos. Começávamos com o doutor Agostinho Marques para nos ajudar a perceber e a explicar o que é um adenocarcinoma pulmonar.
Bom dia.
Bom dia.
É um gosto estar com o vosso auditório, convosco. Um adenocarcinoma do pulmão é uma das variedades de cancro do pulmão. A designação cancro do pulmão é muito genérica, porque quando se faz uma biópsia, há variantes dentro disso. Esta é a mais vulgar e é a que aparece habitualmente quando um nódulo é um cancro, quer dizer, tem esta forma de apresentação. É muito relacionada com o tabaco, mas aparece também em pessoas que nunca fumaram, porque há outras formas de poluição. Portanto, ao dizer adenocarcinoma, significa basicamente que se confirma que é um cancro do pulmão e que tem que ser encarado como tal. Não mais do que isso.
E isso significa exatamente o quê? Percebemos que foi removido um nódulo.
O significado aqui é muito curioso, porque começa por ter aparecido ao Papa num exame de rotina. E isso faz toda a diferença e é de uma enorme importância, porque quando nós diagnosticamos, na vida corrente, cancros do pulmão, na minha vida, habitualmente é por sintomas que o doente tem relacionados com o cancro. O cancro produziu alguma alteração no doente. E nessa altura, o cancro, por via da regra, está muito avançado. E por essa mesma razão, o cancro tem tão mau prognóstico, porque esses cancros muito avançados já não são passíveis de ser operados e, portanto, o grosso do tratamento é feito com fins meramente paliativos. Porque perceba-se isto também: quando fazemos esse diagnóstico, o cancro costuma ter 10 a 12 anos de evolução desde o momento em que se deu a alteração genética celular, compreendem? Mas foi completamente silencioso, porque o nódulo do pulmão não perturba em nada a vida das pessoas. Isto para sublinhar a importância de fazer rastreios, porque foi o que fez o Papa. Por qualquer razão, que eu não sei, terá feito um estudo de radiografia e TAC torácica e encontraram, e surpreenderam-se, seguramente, encontraram um pequeno nódulo, uma pequena esfera, que na imagem parece uma moeda com um ou dois centímetros de diâmetro ou até menos. E a partir daí, trata-se de estudar, porque pode ser sempre um cancro. Quando isso aparece, pode não ser, mas no foco do médico, nessa altura, está o cancro pela sua importância. Mas quando se encontra, como se encontrou no Papa, a cirurgia que é feita como foi feita, a intenção primária é mesmo a cura. Pode não curar, porque a vida tem muitas variações, naturalmente, mas é com esse otimismo que se aborda um doente nesta situação.
Muito bem, e vamos já daqui a pouco perceber que tipo de terapêuticas é que podem ser seguidas. Trazer à conversa também o padre Ricardo Figueiredo. Bom dia, bem-vindo. Foi o próprio Papa que anunciou a sua doença, e de uma forma imediata, e tem sido dada publicamente toda a informação. Há aqui uma transparência que é pouco habitual nestes casos.
Bom dia e obrigado pelo convite. Antes de mais, é preciso termos em conta que não é tão habitual naquilo que é a figura, não só do Papa, mas qualquer líder, seja religioso como o Papa.
Líderes políticos, claro.
Exatamente. É muito comum não haver essa transparência. Percebemos agora, por exemplo, quando o Papa anunciou no domingo que tinha o nódulo e que teria a intervenção cirúrgica, pelo comunicado de ontem, percebemos que, ao ter-se confirmado uma situação oncológica, confirma as suspeitas de exames pré-operatórios que tinha ontem nos comunicados. Portanto, isto aqui ainda aumenta mais a forma do Papa comunicar com a sua serenidade. É uma notícia que recebemos com preocupação, mas também com grande serenidade, e tentamos partilhar desta serenidade do Papa com que ele está a viver este momento. Mas mesmo o comunicado que saiu hoje manhã diz que serão dadas durante o dia mais notícias. Portanto, é também uma forma de comunicar nova. É um Papa também que tem marcado por isso, por uma grande transparência na comunicação e, por isso, acredito que na Igreja, como família, nós entendemos a Igreja não só como instituição, mas sobretudo como a família dos filhos de Deus, em que aquele que é o nosso líder, aquele que é o nosso pai espiritual
Fala com os seus filhos e portanto há esta comunicação muito clara sobre a sua situação.
Sim, com bastante regularidade. Se pudermos já começar a contar desde domingo. O que sabemos até agora relativamente à agenda do Papa é que foi cancelada até ao próximo dia 20 de outubro. Até lá também não vale a pena pensar muito no que é que vai ser seguir a vida do Leão XIV.
Sim, os sinais que têm sido dados é que pode haver mais alterações à agenda, tudo depende agora do período de recuperação. Há aqui um outro dado que é importante, que é dentro de um mês, no início de novembro, está marcada uma viagem do Papa à América do Sul e portanto, com tudo o que isso implica, mas certamente o doutor Agostinho Marques poderá tirar várias conclusões sobre o que significa alguém que teve esta intervenção cirúrgica a um pulmão, fazer uma viagem de tantas horas com todas as questões da mudança de pressão. Portanto, neste momento, do ponto de vista da Igreja, estamos a acompanhar com serenidade. Acredito que, na América do Sul, na Argentina, no Peru, no Paraguai, onde aguardam a visita do Papa, se tiver de haver alguma alteração de agenda a esta visita, acredito que todos acolheremos sempre com toda a serenidade e com todo o cuidado pela saúde do Papa.
Vamos precisamente por aí, Agostinho Marques. Com o quadro que é conhecido, qual será a terapêutica próxima? Vai haver radio, quimio, eventualmente? Previsivelmente, o Papa pode estar pronto para a tal viagem de folgo no início de novembro ou é pouco provável?
Não terá dificuldades pelos tratamentos. Há uma coisa que importa aqui ver: é a evolução a perseguir a cirurgia, porque varia um bocado de doente para doente e põe-nos aqui numa dificuldade de fazer uma previsão clara. Mas habitualmente a cirurgia que o Papa fez foi uma lobectomia inferior direita, tirou o lobo inferior do pulmão direito, o pulmão direito tem três lobos, o esquerdo tem dois. E esse lobo é grande, portanto ele perdeu mais de um terço do pulmão direito, mas isso habitualmente, não havendo complicações, tem muito pouca repercussão depois na vida da pessoa, porque os outros dois lobos, como o pulmão é uma esponja que distende, habitualmente ocupam esse mesmo espaço. Fica um bocadinho o pulmão mais rarefeito, quer dizer, com os alvéolos um bocadinho maiores, mas o doente fica a respirar na perfeição e capaz de vida completamente normal. Portanto, a não haver complicações.
Mesmo em idades mais avançadas, isso acontece?
Mesmo aos 71 anos, presumindo eu que o Papa é uma pessoa saudável, não tem diabetes. Claro, compreende-se isto, quer dizer, estou no pressuposto de um homem de 71 anos, saudável, que o Papa parecia ser. E portanto, não havendo complicações, infeções, coisas que podem acontecer no pós-operatório, ele fica a respirar bem. Agora, o tipo de cirurgia que ele fez, foi uma lobectomia, mas fê-la por toracoscopia, quer dizer, fê-la por pequenas aberturas no pulmão e depois por um sistema de vídeo, retirou-se o lobo, aspirou-se cá para fora, puxou-se por ele, saiu. E portanto, os estragos que fazem no doente e o pós-operatório são infinitamente mais suaves do que era uma cirurgia que se fazia há 20 anos.
Muito menos invasivo.
Muito menos! E a pessoa sofre muito menos nos dias seguintes. O que faz com que a previsão de uma semana para enterramento, vão ver, é excessiva. O Papa não vai estar uma semana, vai estar menos tempo. Vai sentir-se capaz de ir para o seu domicílio antes desse tempo, a menos que haja qualquer coisa de imponderável. Agora, a previsão em relação a voar, ele vai ter um período em que não voa, por quê? O sítio onde foi tirado o lobo inferior, foi suturado e a sutura demora os seus dias, é como uma ferida na pele a consolidar. Demora pelo menos uma semana, uma semana e pouco. De maneira que, pelo menos durante um mês, é de imaginar que não tenha essa possibilidade, por prudência. Mas será avaliada na próxima semana, na seguinte, pelos médicos que o acompanham e que são naturalmente competentes. Agora, a outra questão é o que se vai fazer ao Papa a seguir. A primeira coisa que se lhe faz aqui é avaliar se há outros lugares onde o tumor possa ter migrado. Isso provavelmente já foi feito, porque provavelmente o Papa terá feito uma PET antes da cirurgia para ter essa indicação de cirurgia, compreende?
Sim, é um retrato ao corpo todo, não é?
É um retrato ao corpo todo, com uma injeção de um produto que se fixa em células tumorais. O que dá para ver se o nódulo que ele tinha, suspeitar fortemente, se fixar muito o contraste, é com toda a probabilidade um cancro, e deve ter sido o que aconteceu para ser operado tão depressa. Mas ao mesmo tempo é para procurar se não há fixação desse mesmo produto nos ossos, no fígado, no cérebro, que são os lugares habituais para onde estes doentes metastizam. Compreendem? E portanto, essa garantia nós nunca a temos. E é por isso que o Papa, correndo tudo bem, vai ser um homem curado, mas sujeito a exames periódicos, que não são nada do outro mundo e que não lhe vão colidir em nada com a sua vida de trabalho ao longo da vida. Esse é um passo. O outro é de laboratório. O lobo do pulmão é tirado, é todo cortado, naturalmente, é avaliado se o tumor saiu todo. Claro que saiu. Eu não sei, eu não vi a imagem, mas se está no meio do lobo, saiu todo, o tumor primitivo, o tumor inicial. Mas fazem-se agora estudos, não chega dizer que é adenocarcinoma, isso não chega para nada, isso só serve para dizer que é um cancro do pulmão. Mas o cancro do pulmão é uma multidão de variações genéticas e atualmente fazem-se estudos de biologia molecular imensos na peça operatória que se tirou aí no Vaticano ou aqui em Portugal, porque agora há tratamentos Dirigidos a alterações genéticas específicas daquele doente e não de outro doente. Personalizados, se vier a ser necessário. Faz-se uma quantidade de estudos que naturalmente não vai ocupar o Papa, porque são feitos em laboratório, mas que são fundamentais para as tomadas de decisão posteriores. E é por isso que a gente não sabe muito bem que tratamento fazer no futuro. Pode começar por ser coisa nenhuma, só vigilância.
Admite mesmo que não tenha que passar por um processo de radioterapia ou de quimioterapia?
Sim. Radioterapia não é nada provável, porque a radioterapia normalmente é dirigida contra o próprio tumor e o doente nesta altura não tem. Admite-se que se possa fazer um pequeno período, será avaliado pelo tipo de alterações, como disse. Admite-se que passe um pequeno período de quimioterapia, muito pequeno e muito pouco tóxico. Por esta ideia: é que nunca podemos ter a certeza que o nódulo que lá esteve não tenha semeado células e que não haja, em alguns lugares do corpo, células isoladas, invisíveis aos meios de diagnóstico por serem ainda pouquinhas e que possam estar a crescer. E portanto, se houver essa suspeita, faz-se uma pequena quimioterapia com a ideia de chegar para a hipótese remota, mas que tem revelado à ciência que vale a pena e aumenta o prognóstico. Mas o prognóstico geral do Papa, neste momento, é muito bom.
E isso ficou claro da forma como se explicou, à distância, aquilo que estará a acontecer nesta altura em torno do estado de saúde do Papa.
Sim, seguramente, é o que estão a fazer. Porque é em toda a parte. Não há certeza. A questão é aberta.
Padre Ricardo Figueiredo, já aqui falámos da viagem que provavelmente terá de ser adiada algum tempo, não sabemos como, mas também sabemos como é que as comunidades no local, nomeadamente no Uruguai, na Argentina e no Peru, se estarão a preparar e preparam-se com muita antecedência para uma visita destas. Isto causa alguma perturbação, ainda assim?
Nós acreditamos que as comunidades cristãs acompanham o Papa e o Papa para a Igreja Católica não é apenas o responsável máximo de uma instituição, é antes de tudo um pastor e um homem que, como qualquer outro, conhece bem a fragilidade da condição humana. As comunidades sabem que é mesmo assim. Sabemos que o Paraguai, mas sobretudo a Argentina, porque esperava o Papa há muito tempo, porque o Papa Francisco prometeu ir lá sempre, mas nunca realizou a visita. Havia uma grande expectativa. Esta ida do Papa Leão XIV era também a realização de um desejo do Papa Francisco e o Peru, onde sabemos o Papa Leão, enquanto padre e enquanto bispo, realizou lá a sua missão e até era uma visita que estava a ser preparada com pormenores muito pessoais, nomeadamente até o encontro com o clero da diocese de Chiclayo, da qual ele foi bispo. Há toda esta carga, vamos dizer assim, emocional em torno desta visita do Papa, mas eu acredito que as autoridades, por maioria de razão, normalmente acabam por aceitar essa situação e as comunidades cristãs, por maioria de razão, se amam o Papa e aguardam a visita do Papa porque têm um amor ao Papa, compreenderão que neste momento é o momento de aguardar e poder readaptar todo o programa ou adiar a visita. Não sabemos, não temos qualquer confirmação. Tudo, como o Dr. Agostinho dizia, é preciso agora esperar para ver qual é a evolução de toda a situação, da evolução da saúde do Papa, mas acredito que se aguardará com serenidade e se aceitará. Há sempre perturbações próprias de ter uma festa preparada que agora tem que adiar.
A saúde em primeiro lugar.
O amor pelo Papa e a saúde permitirão que tudo seja gerido da melhor forma.
Muito bem e vamos aguardar então a redefinição da agenda nos próximos dias. Para já ficamos com esta indicação de que o prognóstico do Papa é muito positivo. Agostinho Marques, Ricardo Figueiredo, obrigado a ambos pela presença neste "Explicador".
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