Filho de Arlindo Cruz, Arlindinho relembra infância com Zeca Pagodinho e Jorge Aragão e leva samba em família ao Festival Crescer

A infância de Arlindinho foi vivenciada no coração do samba, vendo ícones como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Beth Carvalho improvisarem rodas na sala de sua casa ao lado de seu pai, Arlindo Cruz (1958-2025). Foi ali que ele entendeu pela primeira vez a força do batuque ao vivo, uma bagagem afetiva que hoje molda sua arte e sua postura como pai de Maria Helena, de 12 anos, Antônio, de 6, e Maysa, de 1 aninho. "Acho que festivais como este ajudam a família a se olhar de novo, a esquecer um pouquinho o celular para conversar de verdade, passar um dia gostoso, leve e tranquilo juntos, repleto de boa música", reflete o sambista.
No próximo dia 10 de outubro, o cantor leva essa experiência ao palco do Festival Crescer, em um show gratuito ao ar livre no Rio de Janeiro, no Parque das Figueiras, na Lagoa. Pensada para unir diferentes gerações longe das telas, a apresentação adapta o samba tradicional com arranjos infantis. Na conversa a seguir, Arlindinho relembra os bastidores do convívio com mestres da MPB, aborda a importância da desconexão digital no cotidiano em família e antecipa detalhes do repertório preparado para o público.
Quem: Muitos artistas adaptam o show quando vão tocar para famílias e crianças. No dia 10 de outubro no Festival Crescer, o que você preparou especificamente para esse palco que o público que frequenta suas rodas de samba tradicionais ainda não viu?
Arlindinho: Vai ter muito samba de roda e músicas infantis em ritmo de samba. Como tenho três filhos, conheço bem esse repertório e farei adaptações, trazendo coisas diferentes para a gente brincar com as crianças.
O samba costuma ser um ritmo noturno, de boemia. Como você constrói a energia do show para uma tarde de sol ao ar livre, no Rio, conversando ao mesmo tempo com o avô que ama samba antigo e a criança que está descobrindo o batuque ali na hora?
Ah, não costuma ser assim. O samba também é de dia, é da manhã e combina com todos os momentos. Há as feijoadas das escolas de samba, por exemplo, que acontecem à tarde, além de vários eventos realizados pela manhã. O samba cai bem em qualquer hora.
Todo mundo sabe que você cresceu cercado de monstros sagrados do samba. Mas qual é a memória mais antiga que você tem de criança, em um evento ao ar livre ou roda de rua, em que percebeu pela primeira vez: 'o samba transforma as pessoas'"
Lembro de mim, ainda criança, vendo Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Beth Carvalho lá em casa, fazendo samba com meu pai e cantando clássicos. Em vez de ir ao parquinho, eu preferia ficar ali, aprendendo com eles.
Hoje as crianças conhecem música por vídeos curtos e algoritmos. Quando você olha uma criança na primeira fileira do seu show vendo você tocar cavaco ao vivo, sem filtro, o que você tenta transmitir no olhar para que aquela memória fique marcada nela além da tela do celular?
Ah, eu sempre costumo dar uma palheta, uma toalhinha ou alguma lembrança do show para que a criança guarde aquele momento como algo especial. Afinal, eu já fui aquela criança que ia assistir aos artistas e tenho memórias inesquecíveis disso.
Reunir a família em um evento gratuito ao ar livre no Rio parece um resgate dos velhos tempos. Que tipo de ambiente ao ar livre da sua infância você sente que a geração de hoje perdeu e que um festival como esse ajuda a devolver?
Acho que festivais como este ajudam a família a se olhar de novo, a esquecer um pouquinho o celular para conversar de verdade, passar um dia gostoso, leve e tranquilo juntos, repleto de boa música.
Como pai na era digital, qual foi a conversa ou situação mais difícil que você já teve em casa para puxar a atenção dos seus filhos para o mundo real e pra música, longe do excesso de telas?
É um tema difícil, pois a tela está muito presente na vida das crianças e dos adolescentes hoje em dia. Mesmo assim, tento garantir que tenhamos momentos sem tecnologia, deixando o celular de lado para conversarmos sobre nossos assuntos e debatermos o dia a dia. É essencial ter essas pausas sem telas para que possamos olhar nos olhos e nos conectar de verdade.
A música é uma das poucas coisas capazes de fazer uma família inteira largar o celular ao mesmo tempo. No seu show no Festival Crescer, qual música ou momento você projetou pensando exatamente em criar essa 'desconexão digital' coletiva?
Ah, em algum momento vou avisar a galera a hora certa de acender o celular, bater palma e cantar junto. Vou até dar uma bronca na plateia para que todos prestem atenção em certos trechos do show, cantando em uma só voz para nos conectarmos.
Seu pai te ensinou o samba muito na vivência diária. Existe algum conselho específico sobre paternidade (e não sobre música) que o Arlindo te deu no cotidiano e que você aplica hoje com seus filhos que você nunca contou em nenhuma entrevista?
A gente se torna mais maduro na escolha das músicas, no que deseja transmitir e nos diálogos durante os shows. Acredito que a paternidade e o passar dos anos me trouxeram mais seriedade e preocupação com as mensagens transmitidas em minhas obras.
Sua carreira atingiu uma maturidade em que você não precisa mais provar seu espaço. De que forma essa maturidade e a própria experiência de ser pai mudaram a sua forma de compor e escolher seu repertório atual?
Acho meio difícil pontuar tópicos. A forma de compor vai mudando de acordo com o momento de vida da gente. Quanto ao repertório, eu mantenho sempre uma base e vario alguns pontos de acordo com o tipo de evento e com as características do público.
Para fechar: além dessa apresentação no Festival Crescer no dia 10, quais são os projetos inéditos e lançamentos da sua carreira para este segundo semestre que você pode revelar em primeira mão para a nossa reportagem?
Tudo sob sigilo! Ainda não podemos revelar nossos projetos para o segundo semestre, mas vem coisa linda e grandiosa por aí, com a presença de grandes sambistas. É emocionante, mas é só o que posso adiantar por enquanto.
Festival Crescer 2026
No dia 10 de outubro, o Parque das Figueiras, na Lagoa, no Rio de Janeiro, recebe famílias com crianças de todas as idades para um dia inteiro de programação gratuita, das 10h às 20h.
O evento conta com shows, teatro musical, oficinas e estrutura completa com fraldário, sala de descanso e área de amamentação.
Festival Crescer 2026
Dia 10/09 - das 10h às 20h
Parque das Figueiras, Lagoa Rodrigo de Freitas - RJ
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