Segurança, fim da aliança histórica com PT e racha dos Ferreira Gomes moldam eleição no Ceará
RESUMO +
A segurança pública se tornou um dos principais temas da disputa pelo governo do Ceará entre Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT). O debate ocorre em meio ao rompimento da antiga aliança com o PT e o racha entre os Ferreira Gomes, o que reorganizou os grupos políticos do estado. Enquanto Ciro apresenta a segurança como argumento para mudança de governo, Elmano defende ações da gestão atual e propõe continuidade das políticas adotadas.
De Fortaleza, Ceará — Ao andar pelas ruas de Fortaleza, não é incomum ver pichações nos muros de casas e comércios com siglas de facções criminosas marcando territórios por diferentes bairros; e parece que os eleitores cearenses estão motivados a discutir a segurança pública como tema central nestas eleições. Na disputa pelo governo do estado, estão o ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes (PSDB) e o atual governador Elmano de Freitas (PT).
A preocupação com a violência dá conteúdo a uma disputa política reorganizada pelo fim da aliança com o Partido dos Trabalhadores e pelo racha entre os Ferreira Gomes.
Ciro tenta transformar a insatisfação com a segurança em argumento para trocar o governo. Elmano defende as ações de sua gestão e procura convencer o eleitor de que deve continuar.
A saúde aparece como o segundo tema mais relevante para as campanhas, embora fique a uma distância considerável da segurança. Educação, emprego e infraestrutura também compõem o debate sobre os rumos do estado, cujas lealdades políticas já não cabem nos velhos palanques.
O grupo político associado à família de Sobral, município a cerca de 230 quilômetros de Fortaleza, já não fala com uma só voz. Cid Gomes (PSB), irmão de Ciro e também ex-governador do Ceará, está no palanque do governador petista após uma ruptura entre os Ferreira Gomes em 2022.
Esse histórico explica também o cenário polarizado nas pesquisas. Elmano e Ciro aparecem tecnicamente empatados no primeiro turno.
Uma aliança dividida entre dois palanques
A doutora em ciência política e professora dos programas de pós-graduação da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e da Universidade de Fortaleza (Unifor), Mariana Dionísio, situa na sucessão estadual de 2022 o rompimento da aliança entre o PT e parte dos Ferreira Gomes, que por anos dominou a política cearense.
Naquele ano, Izolda Cela (PSB; ex-PDT) era governadora. Ela assumiu o cargo após a saída do ex-governador Camilo Santana (PT), quando ele foi ocupar o cargo de Ministro da Educação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Izolda poderia tentar a reeleição e era o nome defendido por Camilo.
O Partido Democrático Trabalhista (PDT), porém, escolheu o ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (União; ex-PDT), para disputar a vaga. Sem acordo em torno da candidatura, o PT lançou Elmano de Freitas. A escolha dividiu a antiga aliança e aprofundou as divergências entre Ciro e Cid Gomes.
Em 2026, os irmãos estão em palanques opostos, com Cid disputando uma vaga no Senado com o apoio de Elmano, eleito governador em 2022. Já Roberto Cláudio é, agora, o candidato a vice-governador na chapa de Ciro, que faz oposição ao governo petista.
Afastamento foi aprofundado em 2024
A professora e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Monalisa Soares, também identifica outro passo desse afastamento na eleição para a Prefeitura de Fortaleza, em 2024.
No segundo turno, integrantes do campo ligado a Ciro, entre eles Roberto Cláudio, passaram a apoiar o deputado federal André Fernandes (PL) contra o petista Evandro Leitão (PT), que ganhou as eleições e é hoje o prefeito da capital cearense.
Para Soares, a aproximação com a oposição naquele pleito se consolidou na composição eleitoral de 2026.
Ciro reúne o campo de oposição ao PT, incluindo nomes como o próprio André Fernandes e o candidato ao Senado, Capitão Wagner (União), os quais são frequentemente citados pela campanha petista na tentativa de vincular o tucano ao bolsonarismo.
Isso ganha um peso a mais em um estado como o Ceará, em que Lula detém grande força política, e venceu em todos os 184 municípios cearenses no segundo turno da disputa presidencial de 2022, contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Ciro rejeita a associação e afirma que não se considera alinhado nem a Bolsonaro nem a Lula. "Eu não sou bolsonarista e nem sou lulista. Não sou puxa-saco de nenhum dos dois", disse.
Ele ressalta que, caso seja eleito governador, pretende buscar diálogo com o presidente da República, "seja ele quem for".
A segurança como argumento de mudança
Apesar de Ciro ser um antigo integrante da coalizão que ajudou a organizar a política cearense, a segurança pública é um tema que pode permitir a ele tentar se colocar como uma frente de mudança em relação a Elmano, na avaliação de Dionísio, da Unifor. No entanto, ela vê uma ironia nessa apresentação.
Isso porque, segundo a especialista, o ex-ministro também faz parte da história política que agora questiona. Ciro pode representar uma troca de comando e de alianças, mas sua candidatura não rompe com toda a trajetória anterior do estado. Elmano, por sua vez, precisa defender o desempenho da gestão atual.
Soares, da UFC, observa que Elmano já procurava dar mais espaço a esse debate antes de a campanha ganhar intensidade. Ela explica que prisões de integrantes de facções, contratações de policiais, investimentos e ações de investigação apareciam com frequência na comunicação do governador.
Em 2025, das dez cidades com a maior taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) do país, três eram do Ceará.
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontava Maranguape, na região metropolitana de Fortaleza, como a cidade mais violenta do Brasil pelo segundo ano consecutivo, considerando locais com mais de 100 mil habitantes.
No primeiro semestre de 2026, o Ceará reduziu em 40,80% os Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) e em 62,27% os Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVPs), que abrangem roubos de veículos, de cargas e a instituições financeiras, na comparação anual, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).
Só que esses dados de violência não necessariamente se traduzem em uma percepção de melhora entre os moradores, conforme o consultor político local Luciano Clever. "É o medo que está dominando as eleições aqui no Ceará", diz.
Doutor em direito e consultor em segurança pública e desenvolvimento regional, Laécio Noronha Xavier, explica ainda que Fortaleza é predominantemente dominada por uma facção e que, em algumas zonas do estado, onde não há um monopólio, a criminalidade entra em maior disputa.
Ele não vê, todavia, o tema girando em torno de uma única gestão. Xavier explica que, nos últimos anos, em múltiplos governos, "houve um aumento exponencial da criminalidade no Ceará", disse. "Na segurança, falta estratégia. Nós não temos política de longo prazo. Nem o Ceará, nem o Brasil."

Ciro e Elmano, durante debate: candidatos trocaram acusações e confrontaram números sobre o Ceará (Aurélio Alves/O POVO)
Tema da segurança é complexo de responder
O problema que os dois candidatos procuram responder é complexo e envolve tanto a ação das organizações criminosas quanto seus efeitos sobre a vida cotidiana.
Para Soares, a questão que passou a figurar é: "quem consegue devolver ao Estado do Ceará a sensação de segurança?"
Elmano detalha, em seu plano de governo, que o estado fortaleceu sua política de segurança "por meio da ampliação da presença do Estado nos territórios, da integração entre as forças de segurança, do investimento em inteligência policial, tecnologia, infraestrutura e valorização dos profissionais".
A campanha petista destaca, no documento, que a continuidade do trabalho permitirá "consolidar um modelo de segurança baseado na prevenção, na investigação qualificada, no enfrentamento às organizações criminosas e na integração das políticas de segurança com ações sociais voltadas à redução das vulnerabilidades e à prevenção da violência".
Já o plano de Ciro cita o domínio territorial de facções, a expulsão de famílias por facções em zonas de risco, a imposição de regras e toques de recolher, a extorsão de serviços e atividades econômicas como alguns dos pontos que atingem a segurança pública no estado atualmente.
O tucano destaca que o seu governo, se eleito, "terá como prioridade absoluta restabelecer a autoridade do estado em todo o território cearense", conforme plano de governo, o qual informa que as forças estaduais de segurança serão fortalecidas e haverá uma rede estadual integrada de segurança, com o uso de câmeras públicas e privadas, entre outras medidas.
Perguntas frequentes
Por que a segurança pública virou tema central na eleição do Ceará? +
A segurança pública ganhou destaque no debate eleitoral por causa da presença de facções criminosas em diferentes regiões do estado e da preocupação de eleitores com a violência. As campanhas de Ciro Gomes e Elmano de Freitas apresentam propostas diferentes para lidar com o tema.
Quem disputa o governo do Ceará em 2026? +
A disputa pelo governo estadual envolve o ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes (PSDB) e o atual governador Elmano de Freitas (PT).
O que aconteceu com a aliança entre PT e Ferreira Gomes no Ceará? +
A antiga aliança entre o PT e o grupo político ligado aos Ferreira Gomes começou a se romper na eleição estadual de 2022, quando houve divergência sobre a candidatura ao governo. O episódio aprofundou a divisão entre Ciro Gomes e seu irmão, Cid Gomes, que passou a apoiar o grupo petista.
Qual é a posição de Ciro Gomes sobre sua aliança política na eleição? +
Ciro Gomes afirma que não é alinhado nem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O candidato diz que pretende dialogar com o governo federal caso seja eleito, independentemente de quem ocupe a Presidência.
Como Elmano de Freitas aborda a segurança pública em seu plano de governo? +
O plano de governo de Elmano destaca medidas como ampliação da presença do Estado nos territórios, integração das forças de segurança, investimentos em inteligência policial, tecnologia e valorização dos profissionais da área.
Quais são os argumentos apresentados por Ciro Gomes sobre segurança? +
O plano de governo de Ciro cita problemas como domínio territorial de facções, expulsão de moradores de áreas de risco e extorsões. O candidato afirma que pretende fortalecer as forças estaduais de segurança e ampliar mecanismos de integração e monitoramento.
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