Dados da PF sobre verba de 'Dark Horse' conflitam com perícia privada

Segundo a perícia, divulgada no final de agosto, o custo de produção do filme no Brasil foi de R$ 20 milhões, sendo a maior parte desse valor —sem especificar o montante— custeada por recursos transferidos do exterior. Foram analisados dados de junho de 2025 a junho de 2026.
Já a PF analisou dados do Coaf. O órgão, que monitora movimentações financeiras atípicas, produziu um comunicado a respeito de transações da Go Up Entertainment nos últimos 50 dias de 2025.
Segundo a PF, o período coincide com as gravações do "Dark Horse" no Brasil. Uma hipótese é que as movimentações financeiras se refiram às receitas e despesas para a produção do filme. Os gastos foram de R$ 10 milhões. Já os valores recebidos foram de R$ 9 milhões, sendo a maior parte com origem no Brasil, não no exterior.
Embora o período analisado pela perícia privada seja maior, o radar do Coaf não identificou movimentações atípicas fora do período das filmagens.
Os dados obtidos pela PF foram tornados públicos na última quinta-feira, no âmbito da Operação Make Up.
O UOL procurou o escritório responsável pela perícia e a Go Up Entertainment anteontem à noite. Caso haja resposta, o texto será atualizado.
Candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro chamou a operação da Polícia Federal de "fajuta" anteontem e voltou a afirmar que "foi tudo redondinho" no filme. "Investimento privado num filme privado".
Vorcaro, a quem o senador admitiu ter pedido dinheiro para financiar a cinebiografia, está preso sob a acusação de desviar recursos bilionários de institutos de previdência de servidores e fundos estaduais, entre outros crimes,
Recursos repassados por casa de câmbio
O comunicado do Coaf mostra que a Go Up recebeu R$ 9 milhões de 10 de novembro a 30 de dezembro de 2025.
Desse valor, R$ 3,9 milhões, equivalente a 44% do total, foi repassado por uma casa de câmbio. Não há informação se esse valor teve origem no exterior. A casa de câmbio se classifica como um meio de pagamentos internacionais.
Os R$ 5,1 milhões restantes foram transferidos à Go Up por quatro remetentes sediados no Brasil:
- GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, empresa de Karina Gama, também responsável pela Go Up: R$ 2,6 milhões;
- Marcello de Oliveira Lopes, ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro: R$ 1 milhão;
- NTT Brasil Ltda, suspeita de ter elos com empresas contratadas por meio de emendas parlamentares: R$ 750 mil;
- Mario Frias: R$ 645 mil.
Já a perícia do Dark Horse diz que, "para cobrir esses custos [de produção no Brasil], verificou-se que a empresa norte-americana Go Up Entertainment LLC realizou a maior parte dos repasses para a empresa brasileira".
A perícia não detalha quanto, exatamente, a Go Up Entertainment recebeu do exterior.
Custo de produção do "Dark Horse" no Brasil
Segundo a perícia contratada pela Go Up, o custo total de "Dark Horse" foi de US$ 13,4 milhões (R$ 75,2 milhões), ao longo de um ano. Desse total, US$ 9,6 milhões (R$ 54,2 milhões) teriam sido gastos nos Estados Unidos.
O custo específico da produção no Brasil seria de US$ 3,7 milhões (R$ 20,9 milhões), ainda de acordo com a perícia.
Já o comunicado do Coaf que embasa o relatório da PF informa que, no período que coincide com as filmagens no Brasil, a Go Up gastou R$ 10 milhões. Entre os principais gastos, a PF destaca serviços de hotelaria, alimentação, produção e pagamento, que condizem com despesas de produção de um filme.
Suspeita de uso de dinheiro público
A perícia nega categoricamente o uso de dinheiro público no filme. "A perícia não identificou entradas de caixa oriundas de recursos públicos, repasses governamentais ou financiamentos. Ademais, tampouco foram localizados valores recebidos a título de patrocínio, sejam eles públicos ou privados, como, por exemplo, recursos advindos de incentivos fiscais, a exemplo da Lei Rouanet."
O laudo afirma não ter identificado entradas provenientes de recursos públicos, repasses governamentais, Lei Rouanet, incentivos fiscais, doações ou patrocínios e conclui, com base nos documentos que lhe foram apresentados, que os recursos destinados ao filme tinham origem privada.
Já a PF aponta ainda uma possível trilha financeira que liga diretamente o núcleo empresarial dos fornecedores do ICB (Instituto Conhecer Brasil), presidido pela produtora do filme Karina Gama, e dinheiro de emendas do deputado Mario Frias.
O ICB está no centro da investigação da PF sobre suspeitas de desvios de recursos de emendas parlamentares. O instituto recebeu recursos indicados por Mario Frias para executar projetos culturais e contratou empresas que, segundo a investigação, integram uma rede de pessoas e firmas com vínculos entre si.
A PF apura se parte do dinheiro público destinado aos projetos foi desviada e posteriormente devolvida ao núcleo investigado por meio dessas empresas.
A empresa NTT Brasil é peça-chave para entender esse caminho. Administrada por Heric Fabiano Dias, a firma transferiu R$ 750 mil para a Go Up Entertainment, segundo o Coaf. Heric tem elos familiares e societários com duas empresas que, juntas, receberam R$ 700 mil do ICB, e são as principais fornecedoras de um projeto de R$ 1 milhão bancado por emenda de Frias.
A PF ressalva, porém, que não foi constatada plena compatibilidade temporal entre os repasses do ICB para as duas fornecedoras e o posterior pagamento da NTT Brasil à Go Up. Mas a corporação considera que essas transações são um indício de uma possível restituição de valores recebidos com recursos das emendas para o núcleo da organização.
Já em relação à transferência de R$ 645 mil de Mário Frias para a Go Up, a PF registra que os rendimentos mensais do deputado eram de R$ 44 mil, o que "coloca em questão o lastro financeiro" dos repasses à produtora.
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